rock in rio metalRock in Rio 2015. Ph: Marques – I Hate Flash

O Rock in Rio merece o público metal que tem?

Os primeiros ingressos esgotados para o Rock in Rio 2019 foram os do dia 04/10, extra e oficialmente nomeado o “dia do metal” do festival. Metalheads de todo Brasil e América do Sul zeraram a venda, em pouco mais de 2 horas, mais uma vez.

Foi por causa disso que resolvi escrever este post meio com cara de DR com o Rock in Rio. Além do que, não é a primeira vez que acontece de os ingressos de dias do metal, ou com artistas chave do metal, esgotarem com mais velocidade do que aqueles dos dias com outras atrações.

O que isso quer dizer? Pra mim, que não tenho fidelidade consistente a nenhum outro gênero da música diferente deste, desde que era pirralha, quer dizer muita coisa. E, talvez, boa parte do público metalhead brasileiro concorde comigo. Então tudo isso me leva a perguntar: Será que o Rock in Rio merece o público metal  e hard rock que tem?

Ressentidx com o RIR? Um pouco, talvez. Mas na vibe das analogias da relações pessoais, é melhor desabafar logo se você quer algum futuro. O silêncio é o pior, acredite!Então, que comece a DR:

rock in rio metal

Rock in Rio 2017. Ph: Diego Padilha/ I hate flash

Não estamos falando de falta de Rock

Pra início de conversa, é preciso fazer a diferença entre o que tenho pra falar neste post e o que um monte de gente adora falar sobre o Rock in Rio. Ou seja, eu não estou aqui para soltar aquelas de “mas nem tem rock nessa bagaça”! Não, gente. Tem sim! Inclusive, já fizemos até um post explicando e demonstrando numericamente isso. Praticamente metade das atrações ao longo da vida do Rock in Rio foram rock ou subgêneros dele.

Também não dá muito pra dizer que tem cada vez menos metal e hard rock no Rock in Rio. Não é bem assim. Pois, desde o início, a proporção de bandas de metal de uma edição para outra praticamente se manteve, até crescendo em algumas. Por exemplo, 2015, aquele ano lindo do qual vamos falar ainda neste post.

Mas…

Porém, pra nós, bangers, o buraco é mais embaixo na nossa longa relação com o RIR. E existem vários precedentes para nos deixar #chateadxs com o fato de este festival dedicar apenas um mísero diazinho do metal pra nós em 2019. Embora o dia 04/10 tenha sido muito bem escalado, sou dessas que pensam que não temos que aceitar menos do que merecemos. E sinceramente, Rock in Rio, merecemos mais, como provamos mais uma vez no início desta venda de ingressos para a edição deste ano.

A ‘invenção’ do Rock in Rio coincide com a ‘invenção’ do metalhead tupiniquim

festival fãs

Allen/I Hate Flash

Mais do que qualquer outro público, o público metálico brasileiro tem uma relação muito íntima com o Rock in Rio. Afinal, foi por causa do festival que o Brasil inteiro passou a saber o que eram os tais “metaleiros”, onde viviam, o que comiam. Igual a tia da reportagem falou aí, saca só:

Além disso, também teve pesquisadora de estudos sobre o metal afirmando que foi a partir do Rock in Rio que o metal ganhou evidência e todo o Brasil descobriu como eram milhares os fãs deste gênero musical. Olha aí o que a Claudia Azevedo diz em 6:09 deste vídeo:

Pra fechar, este e este relato de fãs de metal/ hard rock e do Rock in Rio não nos deixam mentir!

Carentes? Um pouco, talvez.

Por tudo isso que eu disse agora, fica bem evidente o papel importante do metal para o Rock in Rio e do festival para o público metal no Brasil. Então, acho que é por isso que paira um sentimento entre nós de que o RIR foi feito para nós e nós para ele. Porém, a realidade é bem diferente disso. Por mais que a imagem do metal tenha ficado fortemente ligada ao Rock in Rio no Brasil, o formato do festival foi eclético desde sempre. E é por isso que não estou reclamando de veveta sócia do Palco Mundo. Longe de mim.

Mas, como eu disse antes, acho que merecemos mais dedicação do Rock in Rio para com nossa paixão musical. E caso eu fosse a chefona do financeiro do festival, eu também pensaria da mesma forma. Afinal, quem é que esgota ingresso em 2 horas quase toda edição, quem? Quem? Quem, hein? Você acha que essas pessoas merecem apenas um dia de metal em um festival que acontece em duas semanas?! Me poupe, né?!

O Rock in Rio tá perdendo várias oportunidades

Além disso, é preciso admitir que somos um nicho comercial enorme a ser explorado em toda a América do Sul. Pois, não há festivais de grande e grandíssimo porte dedicados exclusivamente ao metal e hard rock por aqui.
Com maior dedicação a nós, o Rock in Rio teria grandes chances de virar um Sweden Rock da vida, por exemplo. Pois a pegada do lineup deste festival sempre tem a ver com o rock clássico, com bandas de AOR, hard rock, classiconas dos anos 80 e ainda metal, com pitadas da produção contemporânea. Assim, o Sweden atende a várias faixas etárias que curtem metal e hard rock e, por isso, se tornou o maior festival do gênero na Escandinávia.
Pra mim, o Rock in Rio poderia se dar uma chance de mirar o lineup do Sweden Rock alguma vez na vida e se arrebentar de atrair público do hemisfério sul inteiro.

[Deixa ela sonhar, kkkk]

2015, o ano que o RIR brilhou entre os corações metálicos

rock in rio metal

Doro Pesch. ph: Diego Padilha – I Hate Flash

Caso você tenha se contentado com o dia do metal de 2019, bom pra você. Eu não. Apesar de haver bandas muito boas, elas são apenas 10. Embora a média de bandas/artistas do metal no RIR sempre tenha ficado ali entre 7 e 8 bandas deste gênero por edição, há motivos para se ressentir. [Ainda mais quando nós somos responsáveis por zerar primeiro a venda de ingressos de um dia de festival! Sim, estou sendo repetitiva de propósito].

Além disso, sempre ficaremos com o ano metálico mais fantástico do Rock in Rio em nossas memórias: 2015! Pois, naquele ano, o Rock in Rio trouxe nada mais nada menos do que VINTE E CINCO bandas de metal. Foram pelo menos 25 artistas de metal e hard rock fodas se apresentando entre o Palco Mundo, Sunset e Rock Street.

Então, é difícil engolir todo o marketing deste ano em torno do dia do metal, como se ele fosse totalmente ótimo em todo o contexto do festival. Com mãozinha \m/ e tudo mais. Afinal, tem menos da metade de artistas metal do que na edição de 2015.

[Seja quem for a programadora ou programador de atrações do Rock in Rio 2015: volta, queride!]

Afinal, o Rock in Rio merece o público metal que tem?

Às vezes sim, às vezes não, como já diria Julio Iglesias, rs. Pois, devido a todos os motivos sobre os quais dissertei acima, somos um público com potencial subestimado pelo Rock in Rio, definitivamente. E aí a gente vai lá e dá show na venda de ingressos, esgotando ‘nosso dia’ em duas horas, sabe? Daí fico pensando que é um amor bandido e que esse Rock in Rio não nos merece.

Porém, contudo, entretanto, todavia, é preciso reconhecer que o Rock in Rio nunca se esquece da gente. Mesmo que seja pra fingir que tá fazendo a coisa mais maravilhosa que um banger pode ver em termos de metal na terra brasilis, sem de fato ser.

Assim, o Rock in Rio é tipo aquele crush que vem com o “oi sumida”, de dois em dois anos. Mas aí ele só quer aquela ficada safada, mesmo. E você vai, claro, porque também é gostoso. Mas tem hora que a gente quer e merece mais. Então, pense muito bem e analise seu bolso para novos voos: não vá tratar como Hellfest, Graspop e Wacken quem te trata como Rock in Rio 😉

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário no mundo sobre Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Comecei a ir em festivais de metal internacionais em 2009. Desde então, viajar em busca da música, essa outra paixão, tornou-se um projeto profissional que hoje chamamos de Festivalando.

6 comments

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  1. Fernando Biasioli Gama 17 abril, 2019 at 15:21 Responder

    Concordo plenamente com tudo que você escreveu !! E digo mais, pelo que eu sei, o “dia do metal” é o dia em que mais se vende cervejas no festival… Fui nas edições de 2011, 2013 (duas noites), 2015 e irei esse ano. Em uma dessas edições (acho que em 2013), uma atendente numa lanchonete estava comentando com a outra que o dia que ela mais gostava de trabalhar era no “dia do metal, pois era um público alegre, divertido, educado, respeitoso… Ao contrário do que grande parte das pessoas pensam sobre nós. Não podemos esquecer também da edição de 2013, que teve duas noites do metal…

    • Gracielle Fonseca 18 abril, 2019 at 10:35 Responder

      Pois é, Fernando! Acho que o festival deveria pensar melhor em nós para as próximas edições. É um público com potencial enorme, e totalmente subestimado por organizadores destes eventos aqui no Brasil. E sim, 2013 também foi muito massa, estive no festival este ano também. Mas 2015 de fato se superou em número de bandas e tal. Acho que a gente não pode mais aceitar menos que 2015 heheheheh. Esse ano o dia do metal também está muito foda. Mas é só um dia, e isso é paia. Pelo menos vamos gastar menos grana do que outras pessoas, se é que é pra encontrar alguma vantagem nesta situação toda, hahahah. Bjs e obrigada pela leitura!

  2. fala muito (@aden0r) 18 abril, 2019 at 12:47 Responder

    Vocês não acham que o problema maior é que o público metaleiro aqui fica muito restrito aos grandes e já consolidados nomes, não dando assim oportunidade para as novidades? Muitas bandas lá foram (inclusive novas) lotam arenas e são Headliners aí quando tocam aqui tem dificuldades de encher casas médias/ pequenas. Eu tomo como exemplo também festivais recentes que rolaram por aqui (tais como Maximus, Monsters of Rock…) que se dependesse de mim teriam no mínimo O DOBRO de público. O RiR geralmente é muito bom no que diz respeito a escalar nomes grandes do gênero (e talvez aí que more a dificuldade de incluir mais dias do metal), só que aí já cai naquela questão da repetição, sabe? Acho que os caras querem ir no certo pra não correr o risco de “flopar”.

    • Gracielle Fonseca 18 abril, 2019 at 20:45 Responder

      Tem parte disso, também. Já fiz até alguns posts puxando a orelha do público metal a respeito disso. Mas ainda acho que nada impede o RIR de trazer mais um dia do metal com mais um grande headliner, por exemplo, e aí enfia mais novidades nos concertos e palcos secundários. Isso já foi feito, um esboço em 2013, e um ano bastante interessante em 2015. Não acho que esse descaso deva continuar sendo pensado como normal. Afinal, somos sim um público com potencial, apesar de todos os problemas. Bjs e valeu por comentar =) !

  3. Renan Esteves 19 abril, 2019 at 18:56 Responder

    Olá Gra, blz? Então, esse line up até que ficou legal, mas acho que podia ser melhor ainda. Há uma série de fatores que estamos cansados de saber que leva o festival a repetir sempre as mesma bandas, pois um dia de metal/hard rock só acontece se tiver Guns, Iron, Metallica, AC/DC ou Bon Jovi. O RIR poderia ter diluído esse dia e distribuído, por exemplo, no dia do Bon Jovi – que a meu ver, ficou bem estranho. Se juntar bandas novas e no mainstream atual com as antigas, acho que ficaria, talvez, num padrão do Hellfest, por exemplo. Você diz que o dia do metal lembra muito o Sweden Rock, eu já acho que o RIR, num todo, lembra muito o Roskilde – acho que ninguém nunca disse isso -, já que o festival adora misturar, como, por exemplo, colocar Bon Jovi e Jessie J num mesmo dia ou Imagine Dragons e King Crimson no outro.

    • Gracielle Fonseca 20 abril, 2019 at 17:33 Responder

      Olá, Renan! Blz? Eu não disse que o RIR se parece com o Sweden (aliás,falta muito chão pra isso, rs). Mas que, caso a organização do RIR desse uma olhada no lineup desse festival e pensasse melhor em seu público (que em grande parte também é formado por uma galera mais antiga, com pitadas de pessoas mais jovens que curtem também coisas contemporâneas), ele poderia se tornar referência pra este típo de público na América Latina, como o Sweden é referência da Escandinávia.Também discordo de que o RIR seja como o Roskilde. Pois o metal no Roskilde acontece quase como um festival à parte, de forma consistente, com um bom número de bandas e em palcos muito específicos ao longo do festival. Ou seja, não tem um dia específico, ou dias específicos do metal e também não rola Orange Stage com tanta facilidade pra bandas de metal como rola Palco Mundo (apesar de já ter rolado com Slipknot, por ex). Mas, memso que o Roskilde goste de misturar no cartaz, lá em campo você vê que a coisa é bem separada. Nos dois anos que estive no Roskilde, senti que se forma meio que um gueto do metal.

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