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Rock in Rio 1985 – Eu estava lá!

Chegou a vez da seção [email protected] [email protected] voltar no tempo. Mais precisamente, 30 anos. No mês em que o Rock in Rio completa exatas três décadas de existência, o Camilo Lucas, cartunista de Caratinga, Minas Gerais, compartilha com o Festivalando sua experiência na primeiríssima edição do festival, em janeiro de 1985. Em um relato precioso e rico em detalhes, que cruza o renascimento da democracia no Brasil com All Stars enlameados, uma boa pinga e muito rock, ele conta pra gente como o primeiro, mais antigo e maior festival de rock (e de tantos outros gêneros) do Brasil já nasceu grandioso e histórico.

Camilo em 1985, à época do Rock in Rio

Camilo em 1985, à época do Rock in Rio

EU ESTAVA LÁ!Por Camilo Lucas

Em janeiro de 1985, o Brasil tinha certeza de que a ditadura iria acabar. A maior manifestação democrática da história brasileira – a campanha das “Diretas Já” – tinha fracassado. Para quem não sabe, o deputado Dante de Oliveira apresentou uma emenda, naturalmente conhecida como “Emenda Dante de Oliveira”, que reestabelecia as eleições diretas para presidente da República, acabando com o “Colégio Eleitoral”, onde os deputados elegiam o presidente, pretensamente “em nome do povo”.

Só que o Colégio Eleitoral era simplesmente uma ferramenta para os generais continuarem se revezando no poder e dar um pretenso ar de “democracia”. Explica-se: O general-presidente que ia sair apontava um nome, a oposição apontava outro, o Colégio Eleitoral decidia “livremente”, só que era livremente a favor do indicado do general.

A emenda não passou, mas o fim da ditadura era irreversível. A oposição usou o “plano B”: lançou Tancredo Neves como candidato e cooptou os insatisfeitos do PDS, partido que dava sustentação à ditadura, para conseguir os votos que faltavam. Assim, no dia em que Tancredo foi eleito presidente usando as armas que a ditadura tinha inventado para se perpetuar no poder, 15 de janeiro de 1985, à noite um Cazuza emocionado, à frente do Barão Vermelho, cantava “Pro dia nascer feliz” para 200 mil jovens presentes na Cidade do Rock, na Barra da Tijuca, no primeiro Rock in Rio. O dia ia nascer feliz: o primeiro da democracia!

Eu era chargista do Diário do Rio Doce, de Governador Valadares, e com minhas charges registrei esse período. No meio do processo decidi fazer um livro com estas charges, pois achava que seria um registro histórico. Assim, no dia 15 de janeiro, já estava com o livro pronto para entrar no prelo, faltando só a charge fatídica do fim da ditadura. Assim que Tancredo foi eleito, fiz o desenho e o jornal publicou no dia 16, mesmo dia em que mandei o livro pra gráfica. Ele foi lançado em março, antes mesmo da posse de Tancredo (que não aconteceu, mas isto é outra história). Em 2010, em meio às comemorações dos 25 anos deste fato, o livro – “Uai?! Alguma coisa está errada” – ganhou uma segunda edição, revista e ampliada com depoimentos de professores e jornalistas sobre aquele período, e esta edição está à disposição dos caratinguenses na Casa Ziraldo de Cultura e na Biblioteca Municipal. Seu lançamento se deu no Memorial Tancredo Neves, em São João del Rei, dentro da programação do Inverno Cultural da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ) com apoio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura.

Assim que mandei o livro pra gráfica, fui pra casa, juntei umas cuecas limpas, duas calças jeans, meia dúzia de camisetas e um All Star dentro de uma mochila, e me mandei pra Caratinga, onde meu amigo Alexandre Camaleão Desbundado Daladier Crepaldi vulgo Bípede Penoso Contemporâneo ou seja, Galo Nôoooovo, me esperava pra gente pegar o primeiro ônibus pro Rio e curtir os últimos dias do Rock in Rio, que tinha começado na sexta-feira anterior.

Esse preâmbulo todo foi pro leitor entender o clima de festa que reinava no país – fim de 20 anos de ditadura, sem derramamento de sangue, e com o Rock in Rio como trilha sonora, o primeiro festival de peso realizado no país, depois do qual entramos na rota dos shows internacionais. E o clima da festa que reinava na minha cabeça: depois de relutar, afinal não tínhamos histórico de eventos deste porte, e depois de ouvir Dona Jandira falar “se fosse eu, já tinha ido há muito tempo”, e depois de pedir e receber minhas férias ao gerente do Jornal, ao mesmo tempo em que um novo livro entrava em impressão e eu tinha uma verba disponível – férias + patrocínio + mais passagens pagas pelo jornal em troca de uma reportagem – era só correr pro abraço!!

Cheguei em Caratinga na quinta-feira, na sexta tinha show do Queen no Rock in Rio, eu e o Alexandre não conseguimos comprar passagem (não tinha pro Rio mais) e ir de carro estava acima das nossas posses. Perdemos o Queen!!! Compramos pra sexta à noite pra Juiz de Fora, chegando la a gente resolvia. Fomos na Casa do Pescador (ou do Caçador, esqueci o nome da loja que tinha em frente à rodoviária velha) e compramos um cantil de 1 litro, dali fomos pro Bar do Quinzinho e enchemos o recipiente de cachaça. Tomamos uma cerveja e umas pingas e uns torresmos que consideramos os primeiros do Rock in Rio e fomos pra casa tomar banho pra ir pra rodoviária.

No ônibus, ficamos nos últimos lugares, encostados no banheiro, mas nas poltronas paralelas à nossa estavam o Renato Cupertino e um outro cara de Ipanema (MG) que também iam tentar chegar no Rio a tempo. Eles estavam com um cantil de pinga, um violão e um queijo. Juntamos com a nossa cachaça e fomos bebericando, comendo queijo e tocando violão até JF (quem ia conseguir dormir?) Me lembro que o cara tinha a voz igual à do Belchior.

Em JF também não tinha passagem mais pro Rio. Compramos pra Três Rios, “chegando lá a gente resolve”. Parecia que todo mundo tava indo pro Rock in Rio. Nossa fraternidade durou até desembarcarmos e entrarmos na fila pra comprar passagem pro Rio. Por sorte do destino eu e o Alexandre ficamos na frente e os dois, atrás, na fila. Pois eu e o Alexandre compramos as duas últimas passagens pro Rio. Meu coração partiu de tristeza ao deixá-los pra trás mas SQN. Finalmente íamos desembarcar no Rio!!!

Conseguimos chegar em Copacabana, às 10 da manhã, na casa da Tia Laninha do Alexandre, que nos recebeu de braços abertos; tomamos café e voamos pra Cidade do Rock. Os pontos de ônibus da cidade estavam sinalizados sobre como chegar lá. E outdoors anfitrionavam as atrações do festival com frases como “Scorpions, Rio still loves you” e a manchete do Planeta Diário – que em breve se juntaria à revista Casseta Popular para formar o Casseta & Planeta – era “Ozzy morde morcego mas o morcego passa bem”.

Reprodução

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Descemos do ônibus em frente à Cidade do Rock no sábado, ao meio dia em ponto, horário em que os portões se abriam. Parece que estavam só esperando a gente chegar. E compramos nossos ingressos na bilheteria sem problemas. O problema foi pra entrar com o cantil, o que foi resolvido quando o Alexandre perguntou ao porteiro se ele achava que a gente ia bater em alguém com ele, já quase batendo o cantil na cabeça do coitado. Gostaria de falar sobre outros produtos muito usados pelas nossas pessoas na época mas vou pular esta parte. Basta imaginar que eles estavam presentes e cumpriram sua missão naquele contexto.

Entrar pelos portões da Cidade do Rock poderia ser comparado a entrar nos portões do País das Maravilhas. Da Disneilândia do Rock. De Shan-Gri-Lá. De Pasárgada. Da Terceira Dimensão. De Woodstock Made in Brazil.

Como Woodstock, o local estava apinhado de gente feliz, o barro até os joelhos, chuva e sol se revezando, todos imbuídos dos mais deliciosos sentimentos recíprocos de paz e amor, de confraternização e partilha, de alegria e expectativa. Como em Woodstock, alguns dos músicos mais representativos da época estavam se preparando para entrar em cena. No palco, um baterista passava o som. Nos cantos direito e esquerdo do palco, aqueles canhões da capa do disco do AC DC estavam posicionados, apontados pro centro. E lá no alto estava o Hells Bells.

Os shows estavam marcados para as 18h e isso ainda era pouco mais de meio dia. Mas tinha cinema, McDonalds, restaurantes, parque, bares, gente e tudo o mais que era necessário para passar o tempo até então. Quando vimos, alguns gringos que nos pediram um pouco do que estávamos bebendo estavam nos seguindo e pedindo mais. A pinga do Quinzinho marcou o nome de Caratinga na cabeça de alguns peruanos, bolivianos e argentinos. No cinema, assistimos clipes das bandas que iriam se apresentar. Me lembro de ouvir “It’s a hard time”, do Queen, pela primeira vez. Conhecemos algumas meninas, entre elas uma ET de outra dimensão que sumia e reaparecia do nada. Vimos um cara brincando de rolar pneu com seu amigo em posição circular barro afora. E ao nosso lado um pobre coitado foi pego pelos seguranças bem na hora que ia dar um tapa. Sorte dele que o máximo que faziam era colocar pra fora da Cidade do Rock. Azar o dele que ia ter de comprar ingresso de novo e dificilmente conseguiria localizar seus Brothers novamente lá dentro. Sorte nossa que não tínhamos nada com isso. Ou tínhamos?

Acervo Artplan

Acervo Artplan

E foi chegando a hora de começar o espetáculo. A essa altura, mais de meio litro da marvada do Quinzinho + uma dúzia de Malt 90 pra cada (cerveja oficial do Rock in Rio) já estavam na cabeça, tínhamos de comer alguma coisa senão ninguém ia aguentar. Comemos um macarrão bicando a cachaça. Ligeiramente entorpecidos, levando em conta que o Rock começou mais de 24h antes, numa mesa do Bar do Quinzinho.

E entra no palco Pepeu Gomes, um dos maiores guitarristas que o Brasil já produziu. Ele e Baby Consuelo, remanescentes dos Novos Baianos, fizeram seu Rock Acarajé e começaram a incendiar a moçada. Para em seguida entrar o ex-Deep Purple David Coverdale comandando seu Whitesnake. Não sem lembrar alguns hits de sua antiga banda, como Soldier of Fortune e Mistreaded. Com intervalos pequenos, no máximo meia hora, os shows foram se sucedendo. Entra Ozzy Osbourne no auge com Bark at the Moon e alguns sucessos do Black Sabbath. Iron Man eletrizou a galera. Depois foi a vez do Scorpions. Não este Scorpions pós-Unplugged, uma entidade indefinida entre o pop e o brega, e sim o Scorpions Heavy Metal, com Mattias Jabbs, um dos guitarristas, usando uma guitarra encomendada especialmente pra ocasião: com o formato do logo do Rock in Rio. No auge da forma, mandaram Now, Big City Lights, Rock you like a Hurricane e a melosa porém irresistível Still loving you. A turma pulava no barro ensandecida, a lama voava pra todo lado, ninguém estava nem aí, só alegria e emoção. A lua estava cheia (não estava? Sei lá, pra mim tava), o clima estava fresco, a brisa do mar do Rio entrava nos poros, o sorriso era geral e contagiante, o rock estava altíssimo, eu estava perto do palco, eu estava feliz!
Mas estava um bagaço, também.

Aí, pra aliviar, entra o AC DC. Angus Young foi bem definido por meu amigo Cabeto como “Chuck Berry ligado na 220”. Não existe balada no repertório do AC DC. O disco mais recente era Jailbreak ’74, na verdade músicas que só tinham sido lançadas na Austrália no inicio da carreira deles, e agora chegava até nós, então era um disco novo que era velho e cujo vocalista não estava mais aí pra mostrar, mas Brian Johnson cumpriu o papel à altura como sempre. Antes de viajar eu tinha decorado o disco. E lá estava eu cantando junto “whit a bullet in his back!!”

E Back in Black, e Hell ain’t a bad place to be, e Problem Child, e Whole Lotta Suzie, e It’s a long way to the top if you wanna rock and roll! E o famoso bunda-lelê de Angus Young em The Jack!

E resolvemos ir embora, não estávamos parando em pé, o show estava para terminar, saímos antes que aglomerasse, e chegamos lá fora e demos de cara com 20 mil ônibus e ninguém sabia qual era o nosso. “É aquele ali”, diz o Camaleão apontando a esmo; entrei junto com ele, pois tudo o que eu queria era entrar num ônibus e ir embora pra casa!

E as pessoas iam descendo do ônibus e Copacabana não chegava. Por fim, só eu e o Camaleão e o trocador dormindo dentro do ônibus. “Ô Alexandre, isso vai demorar pra chegar na casa da sua tia?” Ele pergunta pro trocador que ainda está dormindo, ele meio acordado responde “Copacabana? Cada minuto que passa vocês estão mais longe de Copacabana”, e lá estávamos nós rumo à baixada fluminense. “Então para aí que nós vamos descer”. Aí a gente desceu no meio do nada e do breu, sabe lá onde é que a gente estava, porra Alexandre agora fudeu! E os Deuses do Rock mandam um taxi surgindo do nada, parece que saiu de algum portal tridimensional em meio à bruma, meio flutuando e parou pra gente. Custou o resto do dinheiro que a gente tinha pra passar o Rock in Rio mas chegamos em casa intactos, inclusive a prega-rainha. Long live Rock and Roll!

E no domingo ainda tinha Yes, Blitz, Gilberto Gil, Barão Vermelho (com Cazuza!), B-52’s e Nina Hagen pra cabeça. Fizemos uma hora na praia e o Camaleão jurou que estava vendo os “Barões Vermelhos”: três tiozões com cara daquele Barão da nota de mil, vermelhos como camarões, deviam ser gringos. Voltamos pra casa pro banho habitual, na janela em frente uma gorda se trocava, o Dico (nosso brother que tava com a gente) gritou “Aí, Naná!”, a gorda xingou e fechou a janela, o primo do Alexandre me emprestou o All Star dele porque o meu tinha virado uma estátua de pedra (quando eu voltei com o dele igualzinho uma estátua de pedra ele quis achar ruim, mas queria o que???). Nossa pinga tinha acabado, o bar da Tia Laninha estava lotado de uísque, o Alexandre gritou “tia, pode tomar um pouquinho do seu uísque?”, ela disse que sim, enchemos o cantil de Ballantine’s, bebemos o restinho que ficou na garrafa e nos mandamos pra Cidade do Rock. Vai começar tudo de novo.

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9 comments

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  1. bruno 23 abril, 2015 at 11:39 Responder

    Bacana a historia!! nao tinha nascido ainda no 1 rock in rio, meu pai foi nos 10 dias, !!!! deve ter sido animal!!,, ,, vc nao tem fotos???

    • Priscila Brito 23 abril, 2015 at 12:03 Responder

      Oi, Bruno!

      O Camilo Lucas, que foi quem escreveu este relato, disponibilizou apenas uma foto dele na época, mas não dentro do festival. Naquele tempo era mais complicado pro pessoal conseguir fazer fotos, mas pelo menos o Camilo manteve todos os detalhes muito ricos na memória pra contar pra gente.

  2. Rosa Maria 9 setembro, 2015 at 19:58 Responder

    Eu estava lá! Trabalhando no MCDONALD’S e assisti há alguns SHOWS e foi muito bom ,e queria poder encontrar os colegas que ha 30 anos formamos uma equipe. Lembro -me até hoje do uniforme que era um short se não me engano vermelho com amarelo e blusa amarela com o logotipo do MC. Saudades se alguém também participou dessa equipe mande notícias.

    • Priscila Brito 9 setembro, 2015 at 21:21 Responder

      Oi, Rosa! Ótimas lembranças que você compartilhou aqui com a gente. Todo mundo que esteve naquele primeiro Rock in Rio tem muita história boa pra contar. Acho que todos vocês que tiveram essa experiência foram muito privilegiados! 😀

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