equidade de gênero em festivais brasileirosFar From Alaska. Ph: Murilo Amancio.

O MADA é delas: equidade de gênero em festivais brasileiros

O MADA é delas e não é só este ano que ele se destaca pela equidade de gênero em festivais brasileiros. Há algum tempo o festival vem sendo um dos poucos dentro da indústria nacional a se preocupar com o equilíbrio de oportunidades para musicistas e músicos. Porém, não é só no lineup que a gente vê o empenho do festival em construir relações mais justas. Pois, o MADA também é delas nos bastidores e na produção, como você vai saber melhor mais adiante neste post.

Contudo, a média da presença de artistas consideradas mulheres é bem vergonhosa na maioria dos lineups de grandes festivais que rolam por aqui. De acordo com a pesquisa do Festival Sonora SP, a presença de artistas consideradas mulheres nos lineups de festivais nacionais em 2017 foi de no máximo 20,8%.

Assim, a gente aplaude o MADA. Não só porque somos embaixadoras do festival em 2018. Mas sim porque ele vem seguindo de maneira consistente um posicionamento diferente ao longo dos últimos anos. Então, resta saber que fórmula é essa que garante a equidade de gênero e como ela vem sendo trabalhada.

lineup mada 2018

O MADA 2018 tem quase 70% do lineup composto por mulheres

Serão 20 anos de MADA comemorados em grande estilo. Porém, não estamos falando de qualquer tipo de pirotecnia. Mas sim, de algo muito mais importante: um lineup em que quase 70% dos nomes são de artistas mulheres ou de bandas que possuem integrantes deste gênero.

Falamos de um lineup constituído por Pitty, Far From Alaska, Jade Baraldo, Larissa Luz, Alfonsina, Luísa & Os Alquimistas, demonia, francisco, el hombre, Potyguara Bardo, Duda Beat e Bex. Apesar de este tipo de curadoria artística consciente ser menos comum entre muitos festivais do Brasil, há necessidade de uma nova postura.  “Não existe nenhum prejuízo artístico e financeiro em garantir essa igualdade nos eventos, então por que não?!”, afirma Gabriela Teixeira, marketing MADA. Gabriela tem consciência de que os festivais possuem um importante papel na promoção da equidade de gênero.

De acordo com Gabriela, o MADA construiu naturalmente o protagonismo feminino no festival. Contudo, isso que ficou mais ressaltado nas últimas edições. “Sabemos que a figura feminina ainda enfrenta muitos desafios e obstáculos no ramo musical, por isso lutamos e usamos o nosso espaço mudar essa realidade de alguma forma”, ressalta.

Para nós, lugar de mulher é no palco, nos bastidores, na produção, na comunicação e no público. Gabriela Teixeira, marketing MADA

Equidade de gênero em festivais brasileiros para além do lineup

Ainda mais revolucionário ainda do que o lineup do MADA é sua produção. De acordo com Gabriela Teixeira, a produção é composta 95% por mulheres. Assim, elas estão presentes na montagem dos palcos e estruturas, no marketing/comunicação e financeiro. Seria este também um fator diferencial pra que o lineup também seja como é? Talvez.

Por isso, quando essa equidade de gênero não acontece de forma natural, é preciso que surjam atitudes tais como as cotas de gênero do Roskilde Festival.  Também, festivais como o Statement, na Suécia, onde somente mulheres podem entrar (tanto no lineup como no público). Além disso, também existe um trato de equidade de gênero entre mais de 40 festivais na Europa e América do Norte.

Leia mais sobe gênero e música nos seguintes posts:

Gênero e Música

Festivais comprometidos com equidade de gênero

Falta mulheres nos lineups de festivais de rock e metal

Igualdade de gênero nos lineups de festival importa?

Bate papo com Emmily Barreto (Far From Alaska), Jade Baraldo e Potyguara Bardo

Emmily Barreto é uma das cantoras e instrumentistas mais promissoras e talentosas da nova geração indie-rock brasileira. À frente da banda de rock Far From Alaska e também com participações especiais no single “contramão” de Pitty, ela encontrou um tempinho pra um bate-bola rápido com a gente:

Emmily Barreto (FFA)

equidade de gênero em festivais brasileiros

Far From Alaska. Ph: Murilo Amancio

Festivalando – Emmily, vimos um show do Far From Alaska (sensacional, aliás) durante a primeira edição do Maximus Festival, em São Paulo (2016). Porém, como o Maximus é um festival de metal – gênero em que geralmente há menos mulheres no lineup – não haviam tantas atrações com mulheres nas bandas nesta ocasião (com algumas excessões como Izzy Hale). Então, o que você pensa sobre isso e sobre estar entre as poucas musicistas presentes?

Emmily – Acho que o rock em geral é bem masculino, poucas bandas com meninas, proporcionalmente. Mas isso tá mudando e inclusive vários festivais no brasil estão se preocupando com essa questão, de fazer um line up mais equilibrado, como o bananada e o circadélica, por exemplo, que me lembro agora. A gente esquece as vezes o papel que a representatividade tem, mas quanto mais bandas de mina surgirem, mais minas se sentirão inspiradas a tocar também, então que bom que a gente faz parte disso, só tem a melhorar!

Festivalando – O Roskilde festival, na Dinamarca, tem o ideal de estabelecer um festival 50/50 em questão de gênero. Você acredita nesse tipo de “cota”, concorda ou pensa ser melhor outro tipo de alternativa para mudar a situação atual das musicistas em lineups de festival? O que você pensa que seria o ideal?

Emmily – O ideal é não precisar fazer isso de propósito, o equilíbrio, o ideal é não existir diferenciação, mas a gente sabe que como sociedade ainda não estamos nesse patamar, então, por fomentar a representatividade nesse momento de construção de uma igualdade que nunca existiu antes, acho importante sim essa preocupação.

Festivalando –  Caso você fosse montar um festival com um direcionamento de equidade de gênero, quais bandas você chamaria?

Emmily – Nossa, que dia incrível seria (pelo menos pra mim, ahahah). Então, como eu escuto mais banda com mina no vocal, talvez tenha mais mina, pode ser né? Meu festival teria shows do FFA (claro eheh), Deftones, Marmozets, Paramore, Warpaint, Grimes, Pvris, The Internet, Chet Faker, Carne Doce, O Terno, Sandro, Tulipa Ruiz e Billie Eilish.

Festivalando – Como você vê os impactos da inclusão/ exclusão de mulheres em lineups de festival?

Emmily – Não só em festivais, mas nos shows em geral, o que eu vejo é que é mais do que só sobre música, é sobre fazer outras meninas se sentirem aptas a fazer música também. E não só ser o rostinho bonito que vai chamar atenção no palco, como um bibelô, mas como musicista! A gente não gosta de reforçar padrão, a gente acredita nas minas tocando, produzindo, compondo… a Cris toca synth, pad, lapsteel e baixo o show quase todo, eu estou tocando synth também e nossa mensagem é essa: não precisa chamar o coleguinha menino que sabe tocar, a gente pode fazer tudo! é só querer e se dedicar! a gente espera estar transmitindo isso com sucesso 🙂

Festivalando – Tem algum festival do qual você participou e simplesmente foi muito importante para a sua carreira ou crescimento como musicista?

Emmily – Com certeza o Download Festival, em Paris! Eu entrei no palco de um jeito e saí de outro… A receptividade dos europeus me deu um gás que vocês não fazem idéia. Uma vontade de pegar estrada com a banda e nunca mais voltar, ahaha. Esse dia nunca esquecerei.

Jade Baraldo

Jade Baraldo é uma das revelações da música brasileira contemporânea. A musicista foi finalista no programa The Voice Brasil, lançando seu primeiro EP intitulado A Dream. Além disso, foi uma das primeiras atrações anunciadas no lineup do MADA e tem um repertório indie/pop que vamos conferir na edição deste ano do festival.

equidade de gênero em festivais brasileiros

Jade Baraldo. Ph: Divulgação

Festivalando – Jade, como é a inclusão de mulheres nos lineups de festivais nos quais você toca, direcionados ao gênero musical ao qual você mais se identifica?

Jade – Ainda acho que temos pouca oportunidades nos festivais, especialmente as mulheres da nova geração, o que, claro, me inclui.
Mas estou certa de que essa realidade está mudando e em breve teremos cada vez mais espaço.

Festivalando –  Como você vê os impactos da inclusão/ exclusão de mulheres em lineups de festival?

Jade – Posso dizer que vejo como retrógrada a escassez de presença feminina nos festivais. Mas aos poucos estamos conquistando nosso espaço em todas as áreas. Não será diferente nesse quesito!
As mulheres vão dominar o mundo. Rs…

Festivalando – Tem algum festival do qual você participou e simplesmente foi muito importante para a sua carreira ou crescimento como musicista?

Jade – Sim, o da Pepsi Twist Land. Primeiro grande festival onde me apresentei. Tive a honra de cantar no mesmo dia que Francisco, el Hombre e o mago Gilberto Gil, que é uma grande inspiração para qualquer artista. Fiz grandes amigos ali. Foi uma experiência inesquecível de palco e de vida.

Festivalando – O que você acha que falta para ter mais mulheres em lineups de festival, em geral?

Jade – Historicamente os festivais sempre foram vitrine para novidades e é isso que faz deles algo tão atrativo para o público e pros novos talentos. Mas, na maioria das vezes vemos mais do mesmo!
Acredito que os organizadores precisam se afastar da mesmice e apostar em novos artistas, independente de gênero.
Eu, particularmente, voto no equilíbrio na hora da escolha desses lineups. Esse seria o mundo ideal!

Potyguara Bardo

Potyguara Bardo é uma das artistas que vem se destacando na cena musical  do Nordeste. Por isso, não poderia ficar de fora do lineup do MADA de 20 anos. Potyguara é uma drag que segue caminhos musicais inspirados nos ritmos locais e batidas que não servem somente às pistas de dança. Então, queremos muito ver o seu show nesta edição do MADA. Antes, ela conversa rapidinho com a gente sobre equidade de gênero no mundo dos festivais.

Potyguara Bardo – Divulgação

Festivalando – Potyguara, sabemos que no Brasil, os lineups de festivais oerecem menos oportunidades para as mulheres, de uma maneira geral. Como é isso quando falamos de mulheres trans e drags? Quais são os desafios pelos quais estas mulheres têm que passar e as outras em geral não?

Potyguara – Particularmente, não posso falar pela experiência de outras mulheres. Mas sobre drags no geral foi muito lindo ver a Pabllo no rock in rio e a Kaya no MADA, mesmo com todos os comentários negativos feitos pelas pessoas. Foi inspirador demais e quas um ano depois estar sendo chamado pra festivais é a realização de um sonho.

Festivalando – A produção musical das drags e trans está ganhando mais destaque, mais espaço na mídia e entre fãs de música. O que falta para que elas estejam mais presentes em festivais de música?

Potyguara – Ao passo que a humanidade e, consequentemente, a sociedade brasileira vai percebendo que a diversidade é um atributo crucial pra o desenvolvimento da cultura; a tendência é vermos cada vez mais artistas que fogem à norma do mítico cidadão de bem ganhando visibilidade. As pessoas são únicas dentro das suas igualdades e ao se notar isso se entende que não há limites pra expressão. De forma bem otimista eu creio que é só uma questão de tempo agora, to procurando fazer minha parte pra contribuir com isso.

Festivalando – Caso você fosse fazer um festival que preza pela igualdade de oportunidades de gênero, como seria o seu lineup?

Potyguara –  Eu praticamente só escuto mulheres, então pra mim seria difícil escolher homens pra que o festival fosse realmente igualitário. (risos) Provavelmente balancearia com mais drags que não fossem mulheres 😀

Tá afim de ir para o MADA conferir o trabalho desta mulherada? Então, confira nossas dicas para preparar a sua viagem para o MADA 2018.

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário no mundo sobre Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Comecei a ir em festivais de metal internacionais em 2009. Desde então, viajar em busca da música, essa outra paixão, tornou-se um projeto profissional que hoje chamamos de Festivalando.

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