mulheres no lineup de festivais de metalEskröta/ Ph: Gisella Macedo

O “mistério” da falta de mulheres no lineup de festivais de metal

A falta de mulheres no lineup de festivais de metal é no mínimo ~intrigante~. Basta olhar os cartazes e vamos notar poucos nomes de bandas compostas por mulheres. Por exemplo, um dos maiores festivais da Europa na atualidade, o Graspop Metal Meeting, tem pouco mais do que 10% de presença delas no seu casting deste ano. Wacken, Bloodstock e outros não apresentam números mais animadores, tampouco.

Contudo, é preciso ponderar: esta baixa representatividade não é exclusividade dos festivais de metal. A média de presença de mulheres em lineups de festivais de música varia de 1% a 25% em todo o mundo, afirmam Berkers & Schaap, autores do livro Gender Inequality in Metal Music Production (2018). Aqui no Brasil, a participação de mulheres no lineup de 10 dos principais eventos nacionais obedece a tendência mundial. De acordo com a pesquisa do Festival Sonora SP, a presença delas foi de apenas 20,8% nestes festivais em 2017.

Apesar de metalirxs não estarmos sozinhxs nessa sujeira, o fato de haver tão poucas mulheres nos lineups de festival de metal merece questionamento. Afinal, o metal não é o ~diferentão contestador da sociedade hipócrita e das normas~? Quando eu fui ao meu primeiro show de metal, lá em 2000 e lá vai bolinha, eu pensava que era. Porém, foi lá também que percebi que o metal era predominantemente masculino. Naquela época, poderia dizer que era tanto em número como em dominação de posições de destaque. Entre elas, as posições de referência musical (o famoso cânone). E com relação a este último quesito, continuamos na mesma, até hoje. (Aliás, sobre o motivo disso acontecer, tenho várias suspeitas que podem ser lidas aqui).

O “curioso” caso do Muskelrock e a hipótese “clássica” sobre a falta de mulheres no lineup de festivais de metal

Então, fui começar a questionar sobre a visível falta de equidade de gênero dentro do metal. Daí,  recebi várias respostas ~sensacionais~#sqn, de homens brancos, heterossexuais e fãs de metal. A mais clássica é: “existem poucas bandas de mulheres, logo, elas não estão nos festivais”… hummmm, será, camarada?

Primeiramente, não existe toda uma mentira com relação a esta questão numérica. Infelizmente, ainda são poucas as mulheres envolvidas na produção musical do metal, em todo o mundo. O livro Gender Inequality in Metal Music Production (2018) mostra que apenas 3% do número total de integrantes de bandas do banco de dados do Metal Archieves são mulheres. Contudo, mesmo que sejam poucas, elas existem e merecem oportunidades iguais.

Muskelrock, a exceção Sueca

Um exemplo de que oferecer oportundiades iguais é possível é o fesitval sueco Muskelrock. Há vários anos, este festival de metal tem mostrado uma consistente inclusão de bandas com integrantes mulheres. Várias delas em posição de destaque e horários nobres de apresentação.

Este ano, o lineup do Muskelrock tinha 34% de bandas com mulheres. Em edições passadas, a quantidade passou a ser quase 1/1. Mas, o fato “curioso” é que: 1. Muskelrock é um festival de metal; 2. ele acontece na Suécia, um dos países em que a participação de mulheres musicistas em bandas de metal é de apenas 2,1%.

Apesar de a Suécia ser um dos “paraísos” da equidade de gênero, o número de mulheres tocando metal por lá é menor do que aqui no Brasil, por exemplo, onde 3,2% da população das bandas é mulher.

mulheres nos lineups de festivais de metal

Então, na verdade, é preciso reformular o início do parágrafo anterior. Não é “apesar de” mas sim “porque” e “justamente porque” a Suécia é um país promotor da equidade de gênero que um festival como o Muskelrock é possível. Ou seja, não é pelo fato de haver menos mulheres musicistas no metal no país que o pessoal do Muskelrock deixa de se esforçar para montar um lineup equilibrado.

Busca ativa por mudanças

Desta forma, de “curioso” no caso Muskelrock não há nada. Mas sim, existe um pensamento a respeito do assunto e a busca ativa de solucionar a falta de equidade. Pois, não adianta cruzar os braços ou justificar a preguiça com base no fato de que há menos mulheres na música.

Também, vale lembrar que existe um grande movimento entre festivais da Europa e da América do Norte para reverter esta situação. Por exemplo, escrevemos um post com os 40 festivais comprometidos com a equidade de gênero no mundo.Eles fazem parte do proejto da Keychange. No projeto, estes festivais se comprometeram em incluir mais mulheres nos lineups, produção e organização dos eventos até 2020.

Quando é que o Brasil vai solucionar a questão da falta de mulheres no lineup de festivais de metal?

O caso no Brasil é dramático. “As mulheres têm menos oportunidades de tocar em festivais, são muito assediadas”, relata Yasmin Amaral, guitarrista das bandas Eskröta e Kultist. Além disso, “nós temos que por à prova sua capacidade musical a todo o tempo, a competição entre si é muito grande e isso desgasta muito”, acrescenta. Pra Yasmin, ainda há algo que incomoda muito, que é o fato de que muitos produtores privilegiam bandas de mulheres que tenham apelo sexual ou estético, “tipo musas do metal”, diz. Ou então, existe a preferência apenas por bandas que tenham se tornado muito conhecidas, mesmo dentro do underground.

Já Nata de Lima, que lidera a banda de metal extremo Manger Cadavre? denuncia as práticas de precarização do trabalho de musicistas entre os produtores. “Muitos organizadores inserem bandas com mulheres em festivais como se fosse um favor. Geralmente, as demais bandas recebem cachê ou ajuda de custo, enquanto as com mulheres abrem os eventos e não recebem nada”. Para a musicista, trata-se de uma prática inadimissível, porém, muito comum. “Isso me soa como cota para evitar problemas com cobranças posteriores com o público. No entanto, o tratamento não é igual”, observa.

mulheres no lineup dos festivais de metal

Manger Cadavre? Ph: Leo Cruz

Visto que o número de mulheres musicistas tocando metal no Brasil ainda é maior do que na Suécia, alguma coisa está muito errada por aqui. Pra quem ainda duvida da existência delas na cena metal e dos outros sons extremos, basta conferir a página União das Mulheres do Underground. De acordo com as administradoras, já se supera o número de 400 bandas catalogadas. Também vale dar uma olhada no PWR Records, um selo independente feito pra dar visibilidade para musicistas da cena alternativa.

Motivos injustificáveis

A escalada das mulheres até os cartazes dos festivais de metal no Brasil é bastante complicada. O que dirá estar em posição de headliners. Nata acredita que boa parte desta situação é devida à grande misoginia presente em nossa sociedade. ” Conseguir que um homem ouça o seu trabalho sem pré-julgamentos é algo muito difícil. Um produtor então…”, afirma.

Ainda para ela, as mulheres que têm trabalhos de qualidade não recebem o mesmo reconhecimento de bandas compostas por homens, em um mesmo nível artístico. A musicista cita o exemplo da Krisiun e Valhalla, bandas de death metal nacionais. A primeira, composta por homens, nacionalmente e internacionalmente conhecida. A última, liderada por mulheres, com menor inserção no mercado dos festivais, por exemplo.

“As milhares de bandas com mulheres na formação, resistem. Porque a primeira banda que um produtor pensa quando vai montar um festival sempre vai ser do camarada, que ninguém conhece, ou aquela famosa que só tem homens”, analisa Yasmin.

LúE, idealizadora do festival feminista Hard Grrrls, acredita que existe um grande comodismo entre os produtores.  “Os lineups não contemplam bandas com mulheres ou de mulheres porque seus produtores não estão interessados”, afirma. Existe uma base de bandas, e até mesmo casas com eventos que privilegiam essas bandas como parte da rotina, como o Motim, no Rio de Janeiro, lembra LúE.

“Se a gente não faz, a gente não toca, a gente não aparece”, LúE (Hard Grrrls)

A falta de mulheres no lineup de festivais de metal pode ser um reflexo de outras estruturas excludentes. Para LúE, idealizadora do festival Hard Grrrls, “enquanto as produções forem masculinas, a gente vai ficar dando murro em ponta de faca”. LúE acredita que a chave para a mudança está nos esforços e união entre as mulheres para a construção de novos espaços de visibilidade.

Embora a inclusão de mulheres na produção não garanta 100% que as escolhas serão menos machistas (pois, o machismo está em todo lugar, e também  pode ser iterado por meio de estruturas de linguagem e ideologia entre mulheres), os espaços de tomada de decisão sobre os festivais também precisam ser mudados. Vitória Roscoe, uma das organizadoras do Grito do Rock Lagoa Santa (MG), acredita que um dos problemas sejam as equipes majoritariamente compostas por homens.

Em um grupo em que inicialmente ela era a única mulher, nem sempre os diálogos foram tranquilos, pois ” o homem que cobra e se posiciona é ‘pulso firme’; a mulher que faz o mesmo sai como ‘autoritária’ ou ‘grossa’”, relata.

A experiência do Grito Dellas (MG)

mulheres no lineup dos festivais de metal

Grito Delas/ Arquivo pessoal Vitória Roscoe

Desde 2016, Vitória conta que o festival recebeu uma boa quantidade de inscrições de bandas compostas por mulheres. Neste mesmo ano, rolou o primeiro Grito Dellas, um braço de empoderamento e discussões feministas dentro do festival. Como resultado, foi formado o Feministas de Lagoa Santa, que hoje conta com mais de 200 mulheres.

Além de tentar incluir o máximo de bandas com integrantes mulheres possível, Vitória também viu a necessidade de promover oficinas para incentivo da inserção musical na edição deste ano. Para isso, contou com a ajuda do projeto Garotas Amplificadas. Assim, Vitória acredita que o incentivo às carreiras musicais de mulheres no rock é um dos passos para que se possa contar com edições futuras mais equilibradas do festival.

Contudo, ela conclui que, “alcançar um equilíbrio entre a participação de homens e mulheres em um evento é um trabalho contínuo e vai muito além de selecionar bandas e convidar pessoas. É também buscar entender o que faz a presença feminina ainda ser tão pequena e pensar em ações fora do evento que possam mudar esse cenário”.

Hard Grrrls: desafios e resistência na construção de um festival 100% feminista

mulheres no lineup de festivais de metal cartaz festival hard grrrls

Apesar do cenário desanimador, outros caminhos estão no horizonte. Como Yasmin e Nata concordam, cobrar dos produtores e dos festivais oportunidades iguais é uma das atitudes mais urgentes a serem tomadas. Porém, nada melhor do que atitude e o velho espírito Do It Yourself. Como a própria Yasmin relata, vários dos festivais em que suas bandas têm tocado são feitos por ativistas do movimento feminista. Sobre isso, LúE dá até aula para nós. Ela organizou neste ano mais uma edição do festival Hard Grrrls, somente com bandas feministas compostas por mulheres.

Ensinamentos do punk em que o metal deveria se inspirar

Apesar de o Hard Grrrls ser um festival de punk, é uma das iniciativas que merecem destaque aqui. Mesmo que post  seja sobre metal. Afinal, como eu disse acima, o Muskelrock é a única exceção inclusiva que conheço no metal. Porém, é feito lá na Suécia. Então, precisamos de iniciativas próximas para nos ensinar que é possível. [ Alô, alô,  festivais de metal no Brasil???]

Além disso, antes de ser festival, o Hard Grrrls era um e-zine. Logo, fez história com 6 edições, a maioria delas no Hangar 110, em São Paulo. Contando com bandas super importantes como a Dominatrix, o Hard Grrrls nasceu como uma necessidade de criar espaços de visibilidade para aquelas bandas feministas da cena punk, hardcore e alternativa. E com esse objetivo, foi feito sempre no peito e na raça, acessando e formando redes de sororidade na cena.

Em 2018, a edição do festival foi muito especial. Foram 3 dias de música, com 13 bandas, várias trocas culturais e rodas de conversa, além de apoio a iniciativas de empoderamento feminino. LúE relata que não é muito fácil realizar o evento. Tanto que o mesmo teve um hiato considerável nos anos anteriores. No entanto, a importância do que é o Hard Grrrls para a cena e para as mulheres na música como um todo pesou para a volta do festival. “Nós precisamos tomar a frente de espaços que são nossos por direito. Não podemos esperar que os homens se conscientizem para nos dar espaço. Pois, ao final, a brodagem entre eles vai sempre falar mais alto”, constata.

Educar fãs, artistas e produtores no metal sobre gênero é preciso

Apesar de as iniciativas DIY  feitas por mulheres serem imprescindíveis, vale perguntar: Até quando produtores e homens privilegiados no meio musical vão ficar de braços cruzados? Uma vez que o lado prejudicado da história é o único a se multiplicar em esforços, a vida continua muito fácil para os homens, não acham? Chega a ser vergonhosa esta situação.

Porém, não basta que homens se toquem. É preciso incentivar discussões, debates e uma educação para a equidade de gênero. Pois, ainda há muitas mulheres que não estão conscientes da questão. Tem gente ainda iludida com a  neutralidade de gênero na língua inglesa das palavras “metalhead” e “headbanger”. Para essas, repito, vale muito se aprofundar em algumas leituras como esta aqui e esta.

Finalmente, já está mais do que na hora de entender a dinâmica de privilégios. É necessário admitir a falta de igualdade de oportunidades e fazer algo para que a vida seja melhor pra todo mundo, não? A falta de mulheres no lineup de festivais de metal não é um problema só das mulheres. É dos homens, também. É de todo mundo.

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário no mundo sobre Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Comecei a ir em festivais de metal internacionais em 2009. Desde então, viajar em busca da música, essa outra paixão, tornou-se um projeto profissional que hoje chamamos de Festivalando.

6 comments

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  1. Miguel 11 junho, 2018 at 07:43 Responder

    Ae, Gracielle, cliquei num link e fui para sua dissertação 🙂 Parabéns pelo mestrado, sei do esforço grande que foi… (acabei o doutorado mês passado também). Valeu!

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