Em março de 2020, o meu plano era o seguinte: passar uma semana no Deserto do Atacama, fazer um pit stop no Brasil de alguns dias, depois passar uma semana em Buenos Aires para reencontrar o Lolla Argentina e emendar mais uma semana em São Paulo até chegar o dia do nosso Lolla.

No dia 3 de março eu fui para o Chile. Voltei no dia 10 como previsto. Naquele último dia, o céu azul de toda a viagem ficou cinzento, veio uma tempestade de areia, seguida por um temporal com raios cortando o céu e uma queda de energia  — até aí tudo bem. No dia 12 o Lolla Argentina foi cancelado. No dia 13, foi a vez do Lolla Brasil. No dia 18, a prefeitura de BH, onde moro, decretou o isolamento social. O resto a gente já sabe.

Resgatando uma viagem que se perdeu no tempo

Sem saber o que estava por vir e vendo tudo mudar da noite pro dia, sem ver sentido em escrever sobre viagem quando viagens estavam suspensas, a ida ao deserto do Atacama ficou só na minha memória nestes últimos dois anos.

Agora que a vida parece cada vez mais normal quanto antes; agora que eu vejo sentido novamente em viajar; e prestes a fazer a tradicional viagem para o Norte rumo aos festivais europeus, vou finalmente desengavetar essa viagem aos poucos, em uma série de textos — daqueles que eram bem comuns no Festivalando no pré-pandemia.

Começo resgatando um pouco do sentimento daquela viagem. Na sequência, listo algumas dicas básicas para quem pensa em fazer uma viagem ao Atacama. Também escrevi sobre meu roteiro de passeios no Atacama e o mito sobre se hospedar fora do centro no deserto.

Eu viajei ao Deserto do Atacama a convite da Ayllu Atacama, agência especializada exclusivamente no atendimento a brasileiros, que concedeu os bilhetes aéreos e os passeios que fiz no Chile. Conheça aqui o trabalho da agência.

O vulcão e o silêncio

Foi no Atacama que eu ouvi o silêncio e tive um vulcão como vizinho. Juntas, essas são as duas memórias mais fortes que tenho de lá.

Eu não fazia ideia do que poderia ser o silêncio até fazer algumas caminhadas à beira da estrada no caminho do hotel para o centro de San Pedro de Atacama e não ouvir nada, absolutamente nada — a não ser o som do silêncio. E também não ver nada, ninguém. A não ser o vulcão Licancabur, que ficava no rumo do hotel, quase na fronteira do Chile com a Bolívia. Nessas caminhadas eventuais, o vulcão e o silêncio eram as minhas companhias.

Ficar envolvida uma semana inteira por duas coisas tão imponentes, o vulcão e o silêncio, cada uma a seu jeito, já valeu a viagem inteira. É aquele clichê de quando a gente percebe que é só um grão de areia perto da infinitude do mundo, do grande vazio do universo. Quando você vive o clichê, entende porque ele ganha esse peso.

deserto do atacama

Tão longe e tão perto

Fora a viagem filosófica, o Deserto do Atacama também me rendeu uma viagem de sensações. Entre calor no meio do dia, frio na madrugada, areia no tênis, vento no cabelo e terra por toda parte, desci uma duna, sentei na beirada de um penhasco, boiei em uma lagoa salgada, deitei no meio da estrada, vi Mercúrio, Júpiter e Saturno no céu, fiz trekking em um cânion.

Nos dois anos complicados que se seguiram a essa viagem, sem poder sair do país, da cidade ou sequer de casa em grande parte do tempo, resgatar essas lembranças com alguma frequência foi um dos jeitos que encontrei para não me esquecer de que a vida um dia voltaria a ser boa como antes.

Tão longe no tempo e na distância, sem o registro que as minhas viagens nos últimos anos ganharam, o Deserto do Atacama acabou ficando perto, vivendo na minha cabeça por mais tempo que o esperado. E pelos motivos mais tortos possíveis, acabou virando um dos meus lugares preferidos no mundo.

O que você precisa saber sobre viajar para o Deserto do Atacama

Se você chegou até aqui, é porque pensa em um dia viver de perto tudo que o Atacama tem para oferecer. Alguns pontos básicos que é preciso saber para colocar a vontade em prática:

É uma viagem que exige bom planejamento triplo

Para ir ao Deserto do Atacama, você vai precisar de um bom planejamento de tempo, financeiro e de disposição.

Tempo

Exige planejamento de tempo porque é preciso separar dois dias só para o deslocamento (um para a ida e outro para a volta), e fica impossível fazer alguma coisa nesses dois dias.

O caminho é esse: voo do Brasil até Santiago -> voo de Santiago até Calama, a cidade com aeroporto mais perto de San Pedro de Atacama (cerca de duas horas) -> Transfer de Calama a San Pedro de Atacama (cerca de 1h30; você pode contratar a ida e a volta direto no aeroporto de Calama, assim que chegar, nos vários guichês de empresas que operam por lá. Por recomendação da agência, eu contratei a TransVip). No dia da volta, você faz o caminho inverso.

Descontados esses dois dias, é preciso definir a quantidade de dias para os passeios. Pode parecer a princípio que você consegue encaixar duas atrações no mesmo dia, mas isso não é uma boa ideia para a viagem inteira. Um passeio pode ter algum atraso que vai te fazer perder o outro e, mais importante, em alguns casos você simplesmente vai se cansar muito e só querer descansar (mais sobre isso abaixo).

Eu tive seis dias no Atacama livres para passeios, o que considero folgado. Deu tempo e sobrou. Cinco dias são perfeitos. Quatro pode ficar corrido e você terá que sacrificar alguma coisa. Três dias, na minha opinião, não compensam muito o dinheiro que você vai gastar, a não ser que dinheiro não seja um problema.

Dinheiro

Exige planejamento financeiro porque é preciso invariavelmente pagar os serviços de uma agência para conhecer as atrações do deserto. É claro que há agências que cobram mais e outras que cobram menos, mas não é o tipo de viagem que você faz no modo totalmente independente e se aproveitando de atividades gratuitas. Tem que pagar de algum jeito. Em algumas atrações, além de pagar à agência que vai fazer o passeio, é preciso também pagar o ingresso de entrada na atração em questão. Não é nada absurdo, mas vale a pena saber.

Você pode já sair do Brasil com tudo agendado com uma agência ou chegar em San Pedro de Atacama e verificar os preços das muitas agências que prestam serviços, pesquisando o melhor custo para o seu orçamento. Elas se concentram nas ruas Toconao e Caracoles, então é fácil fazer essa pesquisa por lá.

Disposição

Exige disposição porque, veja bem, é um deserto. Há até a possibilidade de se ter algum conforto — as agências com serviços mais caros garantem parte disso, mas esse conforto é possível só até certo ponto. As distâncias às vezes são longas e podem cansar mesmo que estejamos aqui falando de trajetos de carro. Fora isso, alguns passeios só fazem sentido no sol do meio-dia, outros só fazem sentido acordando de madrugada, alguns requerem um certo espírito aventureiro, as ruas são de terra, venta um monte. Leve isso em consideração ao se organizar.

Considere os conselhos de viagem, mas não encare nada como regra

Acho que essa observação do título vale para qualquer viagem, mas talvez valha mais ainda para o Atacama, por ser um destino mais fora dos padrões — não é sempre que a gente vai ali passar uns dias no meio do deserto, não é mesmo?

Eu li coisas antes de ir que não fizeram diferença pra mim quando cheguei lá. Não sofri com o ar seco do deserto (mas também não me descuidei em nenhum momento da hidratação). Não achei o gosto da água mineral estranho (a história é que a água fica com gosto diferente por ser transportada em garrafas de plástico por muito tempo até chegar no deserto). Não achei ruim me hospedar fora do centro (não achei nada longe para os meus padrões e o calor durante a caminhada até o centro não chega a ser pior do que o que enfrentamos no verão por aqui, com base na minha tolerância ao sol).

Mas just in case: não deixe de levar o ícone Sorine para pingar no nariz (eu levei, usei bem pouco, mas levaria outra vez). Não deixe de levar um potabilizador de água para evitar a cisma com o gosto estranho (eu levei, não usei absolutamente nada, mas levaria outra vez). Vai que, né?

Ah, e fique no hotel que te parecer confortável para as suas exigências e adequado ao seu orçamento, se atentando, claro, para a localização, mas lembrando que são muitos fatores que interferem em uma boa hospedagem, não se limitando à localização. Eu escolhi um hotel a dez minutos de caminhada do centro e foi graças à localização que construí uma das memórias mais fortes da viagem, conforme contei acima — se você pulou o texto, volte no tópico O vulcão e o silêncio.

Vale um combo Deserto do Atacama + Lolla Chile + Santiago?

Olha, eu não posso dizer convicta que vale porque não fiz. Nem teria como ter feito na época, primeiro porque a passagem para o Lolla Argentina foi comprada antes do convite da Ayllu Atacama e segundo porque, bem, a pandemia não teria deixado. Mas eu cheguei a pensar em jogar o convite para 2021 e fazer esse roteiro do Lolla Chile com o deserto (ainda bem que não fui em frente com a ideia, pois ela simplesmente não se concretizaria).

Mas há quem conheça o Atacama e Santiago na mesma viagem, então, para adicionar o Lolla Chile aí é um pulo, não é mesmo? O que eu penso é que essa é uma viagem que você vai precisar ter ainda mais tempo, ainda mais dinheiro e ainda mais disposição.

Vão ser três dias de festival, pelos menos uns quatro (apertando um bocado) de passeios no Atacama e talvez mais uns três para conhecer Santiago, fora todos os deslocamentos e mais um ou mais dias de intervalo para recarregar as energias entre um momento e outro. São muitos dias, atividades mais intensas (pensa: festival AND aventuras no deserto). É factível, mas você tem que se preparar em todos os aspectos.

Vá e seja feliz

É uma viagem para entrar na história; na sua história. Se a oportunidade chegar pra você, aproveite.

Veja o meu roteiro de passeios no Atacama

Imagem principal: Skreidzeleu/Shutterstock

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