Quando estava me organizando para reservar um hotel no Atacama, uma recomendação recorrente de quem já tinha estado lá era se hospedar no centro do povoado de San Pedro de Atacama. Ficar fora do centro, pelo contrário, era considerada uma opção ruim.

A justificativa: ficar fora do centro no Atacama ia te obrigar a andar mais tempo sob o sol e a poeira do deserto, deixando a viagem mais cansativa. O meu dilema: como a viagem foi definida muito próxima à data de embarque, os hotéis no centro ainda disponíveis no período em que eu estaria lá ou não atendiam a alguns requisitos mínimos que eu considero em qualquer reserva (nota dos hóspedes, café da manhã, conforto) ou estavam fora do meu orçamento.

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Ao mesmo tempo, havia um hotel fora do centro que atendia às minhas duas necessidades: os padrões mínimos que me fazem confiar na escolha que estou fazendo e o meu orçamento disponível. A minha decisão: fiz reserva do hotel, confiante na minha escolha. O resultado: experiência positiva e um mito derrubado (pelo menos pra mim).

Hotel no Atacama fora do centro: Hostal Diemi

O hotel em questão é o Hostal Diemi. Hostal é uma denominação muito comum em países de língua espanhola. São estabelecimentos pequenos, com uma pegada mais caseira e local, geralmente administrados por famílias. Algo próximo do que a gente chama por aqui de pousada.

Ele fica a dez minutos de caminhada do centro de San Pedro de Atacama, uma distância que, pra mim, considerando os meus hábitos, é bastante razoável de se caminhar. Foi um motivo que me fez reservar o hotel com a confiança de que as recomendações que eu tinha ouvido pudessem ser relativas.

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De fato, eu senti que o deslocamento do hostal para o centro e vice-versa era um pulo. Não achei que o sol e o calor eram piores do que o que eu experimento nos dias mais quentes em BH, tampouco a poeira e a terra do deserto foram um empecilho nessa caminhada. A poeira é onipresente no deserto e não tem como fugir dela.

Além de comprovar na prática que a distância realmente não era nada que pudesse comprometer minha viagem, também atestei os outros motivos que me fizeram escolher o Diemi.

O hostal fica instalado em uma casa com um pátio central e quartos individuais amplos no primeiro andar. Além de espaçosos, os quartos são poucos, o que realmente deixa o hostal com um clima de “estou em casa” e de muita tranquilidade. Quando estive lá, percebi apenas a presença de um hóspede francês, que também estava sozinho, e de um casal.

Esse clima de “estou em casa” também se reflete no tratamento da proprietária com os hóspedes. A responsável pelo local foi bastante atenciosa e muito presente o tempo todo — um padrão que percebi em outros hostals em que me hospedei, particularmente no Chile.

Por exemplo, ela se encarregou de me acordar no meu último dia, para assegurar que eu não ia perder o meu transfer, que passou bem cedinho pelo hostal para me buscar (por volta de umas 5h). Na tarde anterior, caiu uma tempestade que gerou uma queda de energia temporária e ela se prontificou para levar uma lamparina de led ao meu quarto e ao do hóspede francês para que a gente não ficasse no escuro. Também mantivemos contatos breves por WhatsApp, quando foi necessário.

O café da manhã é preparado sob demanda para cada hóspede e servido na cozinha em horário combinado na noite anterior. Nas manhãs em que eu comi no hostal, chegava na cozinha com uma mesa posta bem convidativa, com pães, frutas, frios, cereais, leite, chá e café. Nos dias em que eu saí para passeios muito cedo, bem antes do horário do café, a proprietária deixava pronto na cozinha um lanche para que eu pudesse comer antes de sair.

Além disso, a cozinha ficava disponível à noite caso eu desejasse preparar algo por minha conta. Gostei também de ter uma área de serviço onde eu pude lavar roupa e, principalmente, o meu tênis depois de voltar com ele abarrotado de areia do Valle de la Muerte logo no meu primeiro dia no Atacama. Ter uma estrutura dessas faz toda diferença em uma viagem num destino em que a terra faz parte da paisagem.

Os arredores também ajudaram. Havia pelo menos três mercadinhos nos arredores, onde comprei água e algumas coisas para deixar na cozinha e comer à noite. Também havia um restaurante. Não cheguei a comer nele, mas notei que os preços eram mais baixos que os do centro, obviamente.

O mito do hotel no Atacama fora do centro caindo por terra (pelo menos comigo)

E foi com essa boa experiência em um hotel no Atacama fora do centro que caiu, pelo menos para mim, o mito de que ficar bem no centro do povoado é a única boa possibilidade.

Como eu disse acima, a tão mal falada caminhada até o centro não foi ruim pra mim. Os dez minutos (se muito) que eu levava no meu trajeto eram pouco para quem está tão acostumada a fazer caminhadas. É fato que eu não precisei fazer esse trajeto em todos os passeios, pois fiz as excursões com uma agência que busca e/ou leva os clientes no/até o hotel, mas sinto que eu teria feito caminhadas a mais sem problemas.

Além disso, o hostal oferecia um bom serviço, compatível com o que ele prometia e com as avaliações dos hóspedes.

As boas (e marcantes) surpresas da minha escolha

Mas a minha escolha também me trouxe uma boa experiência com a qual eu não contava. Eu não esperava que seria tão bom fazer aquelas caminhadas indo ou voltando do centro mergulhada no mais profundo silêncio, coisa que você não encontra no centro sempre tão movimentado.

Em outro texto sobre o Deserto do Atacama, falei como eu não fazia ideia do que era o silêncio até fazer essas caminhadas à beira da estrada no deserto. E mais: comentei como justamente isso, junto com a vista de um vulcão, foram algumas das experiências que mais marcaram essa viagem que fiz.

Ah, sim. O vulcão! Eu me encantei por ter um “vizinho” muito ilustre: o vulcão Licancabur. Ele é praticamente onipresente na paisagem do Atacama, mas em alguns pontos ele é mais visível do que em outros, e saindo do hotel eu realmente tinha uma vista muito próxima dele, que me dava essa sensação de ele ser um vizinho. Não é sempre que você passa uma semana inteira dando bom dia pra um vulcão.

Apreciar as placas das ruas no meu caminho foi outra distração prazerosa e uma boa surpresa que tive com a minha escolha de hospedagem

Não sofra com a sua escolha de hotel no Atacama

É claro que a melhor escolha de um hotel no Atacama vai ser aquela que está dentro das suas necessidades como viajante e também do seu orçamento — e essa escolha pode muito bem ser um hotel no centro.

Mas se, eventualmente, você ouvir que ficar fora do centro é ruim e a sua única opção for essa, não sofra achando que a experiência vai ser obrigatoriamente ruim. Em qualquer destino, quando escolhemos a hospedagem, há muito mais fatores em jogo na nossa experiência do que simplesmente a localização.

Eu viajei para o Atacama a convite da agência Ayllu Atacama, que arcou com os custos aéreos e de passeios. A escolha e os custos do hotel foram de minha responsabilidade.

Imagem principal: EAFO/Shutterstock

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