download festival madridDownload Festival Madrid

A experiência do Download Festival Madrid: Download, pero no mucho

Replicar um mesmo festival em um lugar diferente pode gerar resultados diversos. Os Lollas sul-americanos estão aí pra provar que dá pra ter cara de Lolla de três jeitos distintos. Às vezes, são as sutilezas que fazem o festival ficar diferente, como o Rock in Rio Lisboa. Tem também os desastres de reprodução, como o Ultra Rio. E tem aqueles trabalhos que ficam pela metade, o que concluí da minha experiência no Download Festival Madrid.

Não estive em Donington ainda para conhecer o Download original criado pelos ingleses. Mas me sinto segura em afirmar que o que a Espanha oferece é uma versão pocket, bem enxuta do Download real. Ele conserva os três dias e os headliners e co-headliners. E acho que para por aí.

Falta uma atmosfera convidativa à entrega, um clima propício pra se jogar e esquecer do resto. É só um monte de shows muito bons – que se reforce isso – e que, juntos, poderiam levar o nome de qualquer outro festival genérico.

Ok, é compreensível. A edição espanhola é bem nova e esta foi sua segunda edição. As coisas estão sendo acertadas. Há, inclusive, detalhes que valem o destaque. Dentre eles, um ponto de apoio a vítimas de assédio dentro do festival, com direito a cartazes e anúncios nos telões par conscientização do publico e sessões de autógrafos com algumas bandas, algo bem comum nos festivais de metal na Europa.

Entretanto, há barbeiragens inadmissíveis pra quem se dispõe a organizar um festival de uma marca já consolidada como o Download. E elas inevitavelmente interferem nessa percepção geral.

Trapalhadas

No primeiro dia, foram distribuídas pulseiras reaproveitadas do Download Madrid 2017. Depois, no segundo, elas foram cortadas na entrada e substituídas por pulseiras plásticas azuis que viraram chacota entre os espanhóis. Elas se assemelham às pulseiras usadas nos pacientes dos hospitais locais e também às pulseiras de um famoso parque aquático daqui, o Aquópolis.

Cálculos mal feitos

Os portões são abertos às 17h, apenas 15 minutos antes do início do primeiro show. Consequentemente, quase ninguém consegue ver as primeiras atrações. E, talvez, nem as segundas. Como simplesmente não existe a opção de entrar muito antes dos shows começarem, a aglomeração é inevitável, as filas ficam imensas e o tempo perdido é grande.

Métodos antigos

Há também uma clara falta de sincronia com práticas sustentáveis e de marketing usadas hoje nos festivais com relação aos copos. Os copos reutilizáveis, que levam a marca do festival, são ao mesmo tempo uma boa propaganda e uma maneira de reduzir a quantidade de lixo produzida. Em alguns casos, ainda são uma fonte extra de receita, pois em alguns festivais eles são vendidos.

Mas, no Download Festival Madrid, o uso de copos é ainda à moda antiga. Para cada bebida comprada, um copo de plástico descartável, inútil e sem graça pra aumentar a montanha de lixo ao final do evento.

Oi?

Ainda teve uma anomalia na programação do segundo dia, quando o Guns foi a atração principal com seu famigerado show de três horas e meia. Subvertendo uma característica dos festivais, que é a oferta de mais de uma atração em palcos simultâneos, o Download Festival Madrid não colocou nenhuma atração alternativa no horário da banda de Axl e Slash. Deixou de ser um festival para ser um show do Guns somente.

Uma caixa nada mágica

A Caja Mágca, onde acontece o festival, é apertada para o volume de público (aproximadamente 35 mil pessoas por dia). Além disso, nem é dos espaços mais adequados para um experiência de festival. É encaixotado, sem a amplitude de um grande campo aberto. Com isso, fica faltando aquela liberdade não só pra circular como também pra mergulhar no festival e vivenciá-lo melhor.

Além disso, uma porção da área dos palcos principais é invadida por um odor fortíssimo de esgoto. Há uma estação de tratamento de água a poucos metros dali. Quanto mais perto da grade dos palcos principais (exatamente o lugar onde todo mundo quer estar), pior o cheiro.

Veja também: a nota que levou a estrutura do Download Festival Madrid

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O Download Festival Madrid é um quebra-galho pelo menos

Como ficou claro, o Download Festival Madrid está ainda longe de ser o festival com o peso que a marca Download realmente tem. Porém, do ponto de vista financeiro, ele pode ser uma opção quebra-galho pra quem quer ver as grandes atrações do Download sem ter que arcar com os custos de um festival pago em libras (ainda mais cara que o euro) e sem ter que lidar com a logística necessária para se deslocar até uma outra cidade e encarar um acampamento (o que implica mais custos).

O segredo é não esperar muito e aceitar que marcas de festival podem até ser reproduzíveis, mas a essência, não.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

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