Alguns festivais te arrebatam de tão intensos que são. Tem aqueles que são um caminho sem volta, e você sempre vai retornar, mesmo com (ou apesar) as imperfeições que eles têm. Outros são praticamente um acontecimento na sua vida, daqueles que raramente vão voltar a se repetir. No meu retorno ao BST Hyde Park, em Londres, vi surgir mais uma categoria de festival para compor essa lista: o comfort festival.

Assim como a ideia de comfort food (de onde tirei essa definição, na ausência de uma explicação melhor para o que quero dizer), não é tanto sobre o festival em si e mais sobre o que você associa a ele e as sensações desencadeadas em função disso.

Um festival leve, descomplicado e descompromissado

Quando fui pela primeira vez ao BST, em 2019, comentei como o espírito do festival era estar ali para desfrutar o momento de forma plena, sabendo que estar sob o sol em um parque rodeado de gente ouvindo música ao vivo, por mais trivial que possa parecer, não é uma experiência que se pode ter a qualquer hora, quando dá vontade. Eu me referia ao fato de que são poucos os dias quentes e ensolarados para os londrinos — principalmente pela perspectiva de quem vive em um país tropical).

Já seria uma justificativa forte o bastante para sustentar essa atmosfera leve, descompromissada e descomplicada do festival. Mas com dois anos de pandemia pesando nas nossas costas e tudo o que isso envolve em relação aos festivais (o isolamento, a falta de contato físico com estranhos em ambientes públicos, a tensão de voltar a estar em uma multidão), esses atributos do BST se ressignificaram pra mim.

Ele me permitiu voltar a viver de forma plena essas sensações que buscamos nos festivais, as mesmas que a pandemia nos privou, com o adicional de não ter os atritos que muitos festivais geram na busca por essa experiência.

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Bethan Miller/ BST Hyde Park

Comfort festival e happy place

Não tem correria de um palco pra outro; largar um show na metade para não perder o outro; fazer cálculos sobre o tempo gasto na saída para não perder o metrô; elaborar o look porque o dia de shows vai ser especial; se espremer na frente para ver o show da sua vida. Não tem isso. É um palcão principal com line up enxuto, um gramado imenso pra se estirar e algumas atrações pequenas e pontuais para não dizer que não tem mais nada. Ponto.

Que fique claro que isso é uma constatação e não necessariamente uma queixa sobre o que se vive nos festivais em geral; há prós e contras no formato predominante de festivais hoje, e está tudo bem. Até porque — retomando a comparação com a comida — às vezes pagamos caro e esperamos mais que o necessário em um restaurante para comer um prato ou gastamos horas cansativas na cozinha para preparar uma receita diferente. E no fim a comida pode ser muito saborosa, valendo o desgaste.

Mas a comida simples, sem muitas pretensões é tão saborosa quanto se ela tem um significado por trás. E esse é o ponto sobre o BST Hyde Park ter se mostrado um comfort festival pra mim.

Quando eu saí dele em 2019, já sabia que ia querer voltar para ter outra vez essa experiência de um festival fácil, em que a única coisa que tenho a fazer é aproveitar, sem me preocupar com os atritos citados acima. Sabendo que eu tinha pela frente o Primavera Sound e 12 dias puxados — porém desejados e agora inesquecíveis — de shows, eu escolhi propositadamente voltar ao BST por enxergar nele uma espécie de contraponto extremo ao que me esperava no Primavera.

Chegando lá, dessa vez por dois dias (nas noites em que os Stones e o Pearl Jam foram headliners, em duas semanas diferentes), revivi as sensações que o festival tinha me provocado na primeira visita, multiplicadas pela carga das privações da pandemia. E assim ele se transformou, com folga, naquele tipo de happy place para onde a gente recorre quando quer se lembrar do sabor das coisas simples. Às vezes a gente só precisa de um arroz com feijão pra se sentir bem.

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Crédito da imagem principal: Lou Morris

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