Eu tentei resumir a experiência do Primavera Sound Barcelona em uma única ideia, mas não consegui. Talvez porque sei que essa experiência ainda não acabou, já que resta ainda o segundo fim de semana do festival e os shows do Primavera a la Ciutát; talvez porque tudo tenha sido superlativo: o tamanho, os palcos, a quantidade de dias e de shows.

A solução foi destrinchar o que vivi a partir das impressões mais fortes que o festival deixou em mim.

Urbano

primavera sound barcelona
Kimberley Ross

O Primavera Sound não é daqueles festivais que te leva para um lugar afastado da cidade. Nem que te faz sentir isolada da vida urbana ou longe de onde a vida na cidade pulsa mais forte. Estar no Primavera Sound é experimentar a ideia mais básica que temos de uma cidade grande como Barcelona.

A paisagem do festival também corrobora com essa impressão. O Parc del Fórum, onde ele acontece, apesar do nome, não é um parque ou uma área verde. É uma área ampla com uma grande esplanada central, grandes estruturas de concreto e espaços variados construída em 2004 justamente com a finalidade de abrigar eventos diversos.

A vista do mar e das montanhas dá cor e um respiro agradável, mas em nenhum momento se esquece que se está em um grande centro urbano.

Some a isso o Primavera a la Ciutát, que te convida a passear por Barcelona através das muitas casas de shows e clubes noturnos da cidade (mais sobre isso em breve), e o Primavera Sound vai te fazer dar um mergulho profundo em uma das mais dinâmicas metrópoles europeias.

Desafiador

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Dani Canto

A área que o Primavera Sound ocupa no Parc del Fórum é extensa. Um território com 17 palcos distribuídos em três grandes ambientes: 1) a área dos palcos principais, à direita; 2) a esplanada central onde ficam lounges de patrocinadores, alguns palcos e a grande praça de alimentação; 3) e a Bits, à esquerda, mais próxima do mar com mais palcos e áreas de lazer (banho de mar, mesas de ping pong, espreguiçadeiras).

mapa primavera sound barcelona 2022

Nas estimativas do próprio Primavera, é possível que uma pessoa caminhe o equivalente a uma maratona nos dias de festival, ou seja, 42 km.

Adicione a esse território centenas de shows (mais de 500 no festival como um todo, entre primeiro e segundo fim de semana e Primavera a la Ciutát) e a edição mais ambiciosa que o festival já teve, para usar o mesmo termo empregado pela própria produção.

É um desafio viver tudo isso em um fim de semana (talvez seja mais fácil em dois). As caminhadas são longas, o sol é forte e só se põe às 21h, é preciso tempo para explorar e entender o lugar.

A decisão difícil de sacrificar um show para ver outro, ou de colocar o descanso ou um lanche em segundo plano para ver o máximo de shows possíveis, tão comum em um festival, fica amplificada no contexto do Primavera Sound.

O sentimento é de que muita coisa está ficando pra trás. FOMO manda lembranças.

Imperfeito

primavera sound barcelona
Kimberley Ross

Nenhum festival é perfeito, e o Primavera Sound deixou à mostra suas imperfeições. Algumas foram corrigidas, outras, que já nasceram erradas, persistiram deliberadamente.

O primeiro dia de Primavera Sound Barcelona foi caótico, muito distante do que se espera de um festival que completa 20 anos de existência e é um dos principais do mundo.

Apesar do calor e do público de cerca de 65 mil pessoas, só havia três pontos de hidratação em toda a enormidade do Fórum. Nos bares, a quantidade pequena de atendentes gerou filas de quase 1h de espera. A má gestão da circulação do público na saída dos dois palcos principais, posicionados lado a lado, provocou aglomerações desnecessárias e potencialmente perigosas.

A chuva de reclamações nas redes sociais do festival foi respondida no dia seguinte com correções desses problemas. Mais bebedouros, mais atendentes e controles de entrada e saída da multidão mais bem definidos nos palcos principais.

Mas o Primavera Sound Barcelona optou por cometer o erro grave de colocar no meio da pista dos palcos principais uma área VIP que ocupa mais espaço do que deveria e bloqueia a visão de quem está mais atrás. Pior: é uma área VIP do VIP, destinada a organizadores e convidados dos organizadores. O público, tanto o que pagou por ingressos comuns quanto o que pagou mais caro, foi abertamente desrespeitado nessa decisão do festival.

As imperfeições se completam com a onda de cancelamentos de um line up audacioso. De 2020 até 2022, no último minuto, foram muitas baixas por motivos diversos (de headliners como Massive Attack a preciosidades como Bikini Kill), muitas sem substituição.

Os motivos para os cancelamentos foram desde diagnóstico de Covid-19 a mudança de planos dos artistas. Não necessariamente isso cai totalmente na conta do festival, já que os artistas e seus gestores de carreira também são partes envolvidas, mas é um preço pago pelo festival por ambicionar tanto e que respinga no público, que pagou o ingresso muitas vezes para ver justamente o artista que cancelou.

Autêntico

primavera sound barcelona
Eric Pamies

Talvez por já existir há 20 anos, antes da bolha dos festivais se intensificar; talvez por um direcionamento sólido de identidade, o Primavera Sound não se parece com nenhum outro festival a não ser com ele mesmo. Dentro do parque e fora dele, na cidade, o Primavera Sound Barcelona aparentemente encontra dentro de si mesmo e da sua trajetória as referências para se construir.

A música ainda é a protagonista absoluta, nos palcos e fora deles, na grande maioria das atividades disponibilizadas pelo próprio festival e os patrocinadores. Lojas de disco, exposição de pôsteres de shows, merchandising de bandas e do festival é o que se encontra na esplanada central do Parc del Fórum entre um show e outro. Sem ofuscar o brilho da música, a presença das marcas é discreta na comparação com outros festivais, mesmo elas sendo essenciais para a concretização de um evento desse tamanho.

O público acompanha esse tom e se mostra musicalmente curioso, aberto às muitas propostas sonoras que o festival oferece. É também um público cativo, visível nas muitas cabeças grisalhas que circulam pelo festival, sugerindo que essas pessoas são as mesmas que, 20 anos atrás – e 20 anos mais jovens, participavam das primeiras edições do festival e hoje se misturam com os mais jovens que renovam a audiência.

Por tudo isso, por suas características marcantes, e apesar das imperfeições, o Primavera Sound é daqueles festivais para voltar sempre que possível. Felizmente, meu primeiro retorno já acontece no próximo fim de semana, quando o evento encerra as comemorações dessa edição histórica pelo seu tamanho e pelas circunstâncias que nos trouxeram até aqui.

Crédito da imagem principal: Gaelle Beri

Veja também a cobertura do Festivalando do Primavera Sound Barcelona nos destaques do Instagram

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