os festivais não estão ficando iguaisFotos Priscila Brito

Estereo Picnic é um pequeno grande festival (e muito cool)

Uma cenografia no estilo Alice no País dos Hipsters encontra Salvador Dalí aos pés de belas montanhas e um friozinho bem de leve, só para dar mais charme. O Estereo Picnic, um dos principais festivais da Colômbia hoje, com sede em Bogotá, é cool até falar chega e um destino de agrado certo para os indies.

O fato de ser um dos mais importantes festivais colombianos, porém, não significa que ele seja um gigante. Em três dias de evento, atrai não mais que 20 mil pessoas por dia (como comparação, o Rock in Rio tem cerca de 85 mil pessoas por dia; o Lolla, tanto no Brasil quanto no Chile, atrai em média 60 mil por dia). Mesmo assim, tem tudo o que os grandes festivais têm (múltiplos palcos, mercadinho descolado, mini-camping, praça de alimentação diversificada, espaços de lazer dos patrocinadores), com a vantagem de não te esgotar fisicamente para desfrutar de tudo que ele oferece. É um festival na medida, assim como o Brutal Assault, na República Tcheca.

estereo picnic

Aprofundando em detalhes, há alguns pontos para se elogiar, acertos importantes a se fazer, mas o veredicto é que o Estereo Picnic vale muito a pena (e conhecer Bogotá é uma justificativa mais forte ainda). Como de costume, faço aqui uma avaliação mais detalhada da estrutura do festival:

Transporte
Adiantei neste post aqui que o ponto negativo do Estereo Picnic é o acesso. Ele acontece no Parque Deportivo 222, em uma região bastante afastada do centro de Bogotá, onde não há cobertura do Transmilenio, principal sistema de ônibus da cidade e o mais eficiente para se deslocar por Bogotá (ainda que ele tenha seus problemas). Para chegar ao festival é preciso necessariamente pegar dois ônibus, um do Transmilenio e outra da frota antiga que complementa o trajeto.

A organização do festival disponibilizou cem ônibus para fazer o trajeto de ida e volta partindo de uma das estações do Transmilenio (ao custo de 15 mil pesos, menos de R$ 20), mas o grande problema é que isso só funciona por completo na ida. As estações do sistema de ônibus só ficam abertas até as 23h e os shows costumam ir até 1h ou 2h da manhã. Logo, na volta, o ônibus do transfer te deixa no meio do caminho, mas não há mais transporte público em funcionamento e a única alternativa é o táxi.

A propósito, a produção este ano também fez uma parceria com um aplicativo de táxis para fornecer descontos ao público, mas muitos taxistas boicotaram o festival no primeiro dia por não concordarem com os termos da promoção.

Por sorte, o hostel em que eu estava hospedada organizou uma van para levar e buscar os hóspedes que iam ao festival e, por isso, não enfrentei nenhum perrengue a não ser o trânsito na ida (o trânsito de Bogotá é bem ruim).

Informações
Havia um ponto de informações instalado no fundo do palco principal, mas senti falta de logo na entrada receber o guia do festival com informações básicas, horário de shows, mapa, etc. Nesse estande de informações os guias estavam à disposição à vontade, mas foi preciso eu circular pela área do festival para me esbarrar acidentalmente com ele. Se não tivesse passado pelo cantinho escuro onde ele estava, teria ficado sem saber os horários dos shows do dia e sem ter noção da localização das atividades do festival.

Hidratação e comida
Água, só comprando (até o momento, Roskilde, na Dinamarca, Wacken, na Alemanha, e Lollapalooza Chile são os festivais do <3 que dão água de graça para o público). A praça de alimentação não é grande, mas é adequada às proporções do Estereo Picnic, com redes colombianas de cafés (inclusive o clássico Juan Valdez), fast food, pizzas, etc. A menção honrosa fica por conta do espaço montado para se fazer as refeições, com cadeiras, pufes e afins, tudo seguindo o charme cool da cenografia do festival. Eu gosto de comer bonitinha, sentadinha, confortável e adoro quando o festival me dá condições de fazer isso. Dignidade pra comer djá!

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Conectividade
Não havia redes wi-fi abertas. Apenas os clientes de uma empresa telefônica patrocinadora do Estereo Picnic tinham internet liberada, mas promotores da marca estavam oferecendo chips da empresa em questão com ativação imediata para quem se interessasse. Pessoal esperto.

Limpeza e banheiros
Havia lixeiras espalhadas pelas áreas de circulação do festival, na praça de alimentação, e todas estimulavam a separação de lixo reciclável de não reciclável. Bonito, Estereo Picnic! Porém, como em muitos festivais, as lixeiras teimam em ficar longe dos palcos, onde fatalmente a maioria do público vai se concentrar. O resultado é muito lixo jogado no chão nessa área no fim do evento.

Os banheiros eram do temido típico químico, mas surpreendentemente eles permaneceram usáveis até o fim da noite, com cheiro de desinfetante e papel higiênico (pelo menos os femininos). Qual o segredo dos colombianos?

Compra de ingresso
A compra pode ser feita tranquilamente via internet com um cartão de crédito internacional. As vendas se iniciam meses antes (desta vez foi em outubro de 2014) e quem compra logo se beneficia dos lotes mais baratos.

Apesar da desvalorização do peso colombiano em relação ao real, os preços não são tão baixos assim. O primeiro lote do combo de três dias foi vendido a 455.000 pesos (cerca de R$ 540) e chegou a 595.000 pesos (cerca de R$ 700). Ingressos de um dia partiram de 245.000 pesos (cerca de R$ 300) e chegaram a 295.000 pesos (cerca de R$ 350). Além disso, nossos coleguinhas colombianos repetem a péssima prática das empresas brasileiras de cobrar taxas de serviço, que variaram de R$ 30 a R$ 80 dependendo do preço do ingresso e do lote.

Para quem gosta das pulseirinhas de festival, uma boa notícia: o Estereo Picnic é adepto dessa prática de identificação. Você compra o ingresso, retira na bilheteria e depois troca-o na entrada pela pulseira.

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Segurança
Aqui temos um novo problema. Há duas revistas na entrada, uma logo na passagem pelo portão principal e outra antes de passar pela catraca. Foi a primeira vez que fui a um festival com revista dupla (um contraponto ao Roskilde, na Dinamarca, primeiro festival sem revista alguma). Sem pessoal suficiente para fazer a revista e com a entrada de fãs, funcionários e imprensa num único portão, ficou difícil dar vazão à multidão e formou-se uma fila imensa na entrada (quando cheguei, estavam liberando a entrada de dez pessoas por vez!!!).

Para piorar, quem se aproximava da entrada acabava se aglomerando inevitavelmente em um bololô, pois não havia grades para organizar e separar as pessoas no portão. Em resumo: havia duas revistas para aumentar a segurança, mas essas duas revistas atrasaram a entrada do público, provocando aglomeração, empurra-empurra e gente espremida… o que acaba diminuindo a segurança do público! Organizadores, por favor, não criem situações que vão favorecer a aglomeração de gente! Isso não é inteligente.

Seria importante a produção procurar distribuir a entrada do público por mais de um lugar, assim como pensar em adaptar o horário dos shows aos horários de funcionamento do Transmilenio ou buscar soluções de transporte com a prefeitura de Bogotá. O festival já é grandinho, com seis edições no currículo, e a produção mostrou que consegue organizar bem um evento desse tipo em muitos aspectos. É um festival bonito, descolado, com identidade muito bem definida, e falta pouco para ser quase perfeito.

Transporte5
Informações7
Hidratação e comida9
Conectividade8
Limpeza e banheiros 9
Segurança6
O acesso ao Estereo Picnic é um dos pontos críticos do festival. Para ir e voltar com tranquilidade, nos moldes atuais, somente com transporte particular. A má gestão do fluxo de entrada do público é outro problema, que pode comprometer a segurança. Por outro lado, a limpeza do festival como um todo e dos banheiros em particular merece muitos elogios. A variedade e o conforto da praça de alimentação também se destacam como pontos positivos.
7.3

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora também coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Além de uma das mães do Festivalando, sou colaboradora da Mixmag e do Brasil Post e autora do Porque eu gosto de música. Também ajudei Paul McCartney a falar uai em pleno Mineirão.

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