Fotos Gracielle Fonseca

Estrutura brutal na medida

“Na medida” foi a definição que eu e Gra encontramos para definir o Brutal Assault, festival de heavy metal que há quase duas décadas acontece na República Tcheca. Não tem uma área gigantesca que te obriga a andar loucamente de um lado pro outro, mas tem espaço suficiente para circulação e até para descansar. Não tem milhões de palcos com horários conflitantes (apenas dois principais e um terceiro bem pequetitinho e modesto), mas tem shows que vão da manhã até a madrugada. Essas proporções moderadas acabam se refletindo na estrutura ofertada ao público, e há mais acertos que erros (apesar de alguns erros meio feios). Vamos aos detalhes:

Transporte
Primeiro, é preciso dizer que o Brutal, como chamamos esse querido festival headbanger, é realizado em Jaromer, uma cidadezinha que fica a quarenta minutos de Hradrec Králové, cidade que, por sua vez, fica a cerca de duas horas de Praga. Como Jaromer é mais modesta, as alternativas de hospedagem estão em Hradrec, e é a partir de lá que a maioria do público se desloca para ir ao festival.

Dentre as opções de transporte, há trem, táxi, shuttle bus e a universal carona. Eu e Gra optamos pelo shuttle bus, que é uma comodidade oferecida no pacote de hospedagem comprado no site do festival. Quando se faz a reserva em um dos hotéis conveniados do evento, além da hospedagem com café da manhã, você tem direito também a utilizar os ônibus que partem da porta do hotel direto para o festival, e do festival de volta para o hotel. Diariamente, você indica na recepção do hotel o horário em que você deseja partir e voltar e recebe o seu “vale-transporte” que te dá acesso ao veículo. Pagamos 140 euros (em torno de R$ 430) por hospedagem + café da manhã + transporte nos quatro dias de festival.

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Foi uma comodidade pra nós, principalmente porque o jeitinho tcheco trouxe mais flexibilidade ao serviço: mesmo com horários agendados, conseguimos mudar horários de ida e volta, inclusive em cima da hora. Mas o jeitinho também tem lá seus problemas, e houve casos em que os ônibus voltaram cheios, e outros em que a pontualidade não foi uma prioridade. Ainda assim, é uma alternativa muito recomendável.

Quanto aos trens, eles partem de hora em hora da estação principal de Hradrec Králové até as 22h. Depois disso, meu bem, só às 4h da manhã. Para quem está disposto a encarar toda a programação do festival não chega a ser um problema, pois o último show sempre começava às 2h45 da madruga. Da estação em Jaromer até o local do festival é preciso fazer uma caminhada de cerca de 20 minutos.

A organização também criou um serviço oficial de táxi com corrida a preço fixo de 500 coroas tchecas (em torno de R$ 55) do festival até Hradrec Kralové. Se você não quiser encarar nenhuma dessas alternativas, ainda há uma solução: ficar acampado, o que elimina a necessidade de transporte diário.

Informações
Adoro fuçar os sites dos festivais antes de chegar o dia do evento em si para ter uma noção do que vou encontrar pela frente, e também como uma forma de “pré-apuração”. Na minha fuçada no site do Brutal achei informações super completas e bem detalhadas, principalmente no que diz respeito aos serviços (câmbio, como chegar, mapas, atrações turísticas). E todo o conteúdo está disponível em nove idiomas, o que dá ideia do capricho da organização com informação, e também dá ideia sobre a diversidade do público do festival.

O pessoal é super esforçado também para oferecer informações no local do festival, mas o espírito da zuera dá as caras nessa hora – pelo menos deu nesse ano. Logo na entrada recebemos um guia e um crachá com mapas, programação e detalhes sobre as atrações extra-musicais. Prático, lindo – e até vira souvenir depois. Mas as informações sobre os horários dos shows, em alguns momentos, não batiam com as informações do aplicativo. Houve momentos em que não ficou claro se a banda X já tinha tocado ou se ainda ia tocar. Confundir o público com horário de show, que é a razão de ser de qualquer festival, é erro gravíssimo.

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Hidratação e Comida
Não é permitido entrar com nenhum tipo de alimento ou bebida (nem água) no Brutal Assault e digo apenas que: isso é UÓ. Proibir a entrada de comida em um local no qual você vai gastar horas e horas é o mesmo que te obrigar a consumir o que é vendido lá dentro, e considero isso no mínimo uma medida espertalhona e exploratória. Eu e Gra, com nossas táticas de guerrilha festivaleira, conseguimos esconder cookies e chocolate e passar direto pela revista nos três primeiros dias, mas fomos desmascaradas no último dia de festival, justo quando a Gra tinha comprado uma deliciosa barra de cereal que ela sequer teve a chance de saborear. Triste fim.

Lá dentro, a oferta de comida era grande, diversa e bem caprichada considerando-se as dimensões do festival. Até opções gourmet eram oferecidas, com direito a recomendação do festival. Eram as barraquinhas com o selo do “Brutal Chef” oferecendo massas, comida mexicana, hambúrgueres e opções veganas. Havia também a boa e tradicional cerveja tcheca por 1,10 euro (cerca de R$ 2,60) o copo de 500 ml.

Porém, o que destaco no quesito alimentação é a oferta grande de mesas e cadeiras no estilo refeitório, espalhadas por diversos pontos do festival. Pessoalmente, detesto comer de pé, andando ou sentada em qualquer lugar, no chão, por exemplo. Sou fresca, gosto de comer sentadinha, toda bonitinha, e o Brutal consegue atender bem quem tem esse tipo de frescura. Parabéns, metaleiragem.

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Água só na base do din-din (digo e repito que o único festival que é uma mãe e te dá água de graça é o Roskilde, na Dinamarca). Havia grandes pias coletivas, mas havia um aviso explícito de que a água não era para beber, apenas para fins higiênicos.

Conectividade
Consegui encontrar uma rede wi-fi aberta em um dos lounges montados por patrocinadores e a conexão era boa. Nas áreas comuns do festival, apenas redes fechadas, mas vale a pena registrar aqui a espirituosidade metaleira na hora de batizar as tais redes 😛

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Limpeza e Banheiros
Os banheiros químicos, inimigos número 1 das festivaleiras deste site, eram a opção majoritária e gratuita. Como você deve imaginar, as condições de uso dos mesmos estavam muitos graus abaixo do que se pode ter como suportável. Os banheiros com água corrente, montados em uma espécie de trailers, com os quais nos deparamos em outros festivais, como o Roskilde, Montreux e Sziget, bem mais toleráveis e usáveis, também estavam à disposição do público mediante a cobrança de 60 coroas tchecas (cerca de R$ 5). Era o “Luxury WC”.

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Toi Toi <3 ! Que bonit… Sabe de nada, inocente.

Compra de ingresso
O Brutal Assault dura quatro dias e só disponibiliza ingressos para esse período completo. Não há ingressos para dias individuais. Em compensação, o preço é lindo: 72 euros + ridículos 3 euros de taxas para os quatro dias (cerca de R$ 230). A compra deve ser feita diretamente no site do festival e o pagamento é via PayPal.

O que me incomodou é que, apesar do PayPal confirmar imediatamente o pagamento, pode levar até dez dias para você receber o ingresso via e-mail, e não há nenhuma área no site na qual você possa acompanhar o status do seu pedido. Apesar de ter ficado “cabreira”, como diz meu pai, recebi o voucher dentro do período prometido. A Gra também não teve nenhum tipo de problema.

Segurança
Há revista na entrada, nada demais. Lá dentro, identifica-se mais gente do staff que seguranças propriamente ditos, mas não presenciamos nada que tornasse necessária a atuação de uma força mais ostensiva. Só mesmo uma quantidade grande de caras machistas, marmanjos desrespeitosos que ainda não aprenderam como se comportar diante de uma mulher, mas aí o problema não é uma questão de segurança, é de educação e de formação mesmo, e o festival não tem nada a ver com isso.

Divagações à parte, o Brutal ainda oferece uma série de atrativos pra quem decide passar o dia inteiro lá, como esportes radicais, feirinha de roupas e acessórios, cinema e exposição. Sério. Isso eu conto mais pra frente 😉

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Informações7
Hidratação e comida7
Conectividade8
Limpeza e banheiros8
Segurança9
A variedade de opções de transporte oferecida pelo Brutal Assault é um ponto forte do festival, principalmente tendo em vista a localização afastada da área do festival. Por outro lado, proibir a entrada de alimentos é um grande equívoco. A oferta de banheiros limpos, ainda que mediante pagamento, é uma medida a se destacar.
8.2

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora também coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Além de uma das mães do Festivalando, sou colaboradora da Mixmag e do Brasil Post e autora do Porque eu gosto de música. Também ajudei Paul McCartney a falar uai em pleno Mineirão.

4 comments

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  1. Lucas Gurgel 6 julho, 2017 at 14:10 Responder

    Brutal Assault 2017! Estarei lá! E as informações maravilhosas do Festivalando já me deixam preparado pra porradaria que vai rolar! Valew moçada! 🙂

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