roteiro do fado em lisboaArsenie Krasnevsky via Shutterstock

Roteiro do fado em Lisboa: tradicional, bicha e vadio

Eu tinha um roteiro do fado em Lisboa muito bonitinho-arrumadinho na minha mente antes de ir pra Portugal. Mesmo tendo conhecimento da dita modernização do gênero; mesmo tendo até entrevistado artistas da nova geração nos tempos de redação, eu me acomodei em formatar um roteiro mais óbvio.

Daí, um post ocasional na minha timeline do Twitter e uma caminhada noturna de volta para o hostel em Lisboa mudaram os rumos do que resultou este texto. Era pra ser um compilado dos pontos institucionalizados do gênero que é patrimônio imaterial da humanidade; virou um relato de descobertas das facetas dessa expressão musical portuguesa: tradicional, bicha e vadio.

O tradicional – Museu do Fado, Alfama e Fundação Amália Rodrigues

Este era o meu roteiro original: ir ao Museu do Fado, à Casa Amália Rodrigues e passear por Alfama. Limitado, como eu viria a descobrir. Mas ao mesmo tempo essencial pra dar mais sentido ao fado bicha e ao fado vadio, que eu ainda viria a conhecer.

O Museu do Fado é o que precisa ser. Primeiro, um espaço para contar a origem miscigenada e popular do gênero. Ele tem raízes na modinha e no lundu e nos bairros pobres de Lisboa.

Segundo, um resgate da trajetória que o converteu no estilo musical que representa Portugal. Pontos desse percurso incluem a massificação pela TV e rádio e a exigência equivocada de um registro profissional para poder cantar na primeira metade do século XX.

É também um espaço interativo e multimídia, um bom lugar para passar a tarde ouvindo registros de fado.

Ele fica em Alfama, bairro histórico e turístico onde estão muitas casas de fado e restaurantes que têm apresentações do gênero. Não quis arriscar entrar em um lugar que pudesse ser pega-turista. Mas fiquei feliz de me esbarrar, em uma das ruelas do bairro, com um grafite do quadro que havia visto horas antes no museu. “O Fado”, de José Malhoa, pintado em 1910.

roteiro do fado em lisboa

Grafite nas ruas de Alfama

roteiro do fado em lisboa

Mural de Amália Rodrigues. Kalinka Georgieva via Shutterstock

Ainda em Alfama, na rua de São Tomé, a poucos minutos a pé do museu, fica outra obra relacionada ao gênero. É um mural de Amália Rodrigues todo em pedra portuguesa, assinado pelo artista Vhils.

No quintal de Amália

Para “encontrar-se” pra valer com Amália é preciso ir um pouco mais distante do bafafá turístico. Mais precisamente, no bairro do Rato, onde está a Fundação Amália Rodrigues, instalada na casa onde a maior artista do fado viveu.

O imóvel está preservado como se Amália ali ainda vivesse. E pra que assim continue é preciso colocar capas plásticas nos sapatos antes de entrar na casa.

A guia que me conduziu aos cômodos dá um tom de contação de caso para a visita e ajuda a entender o peso de Amália para o fado como um todo. Por exemplo, o tradicional traje e xale pretos para performar o fado foram consolidados por ela.

Fado bicha – Lila Fadista e João Caçador

Pouco antes de eu viajar para Lisboa, a Lívia Aguiar, do blog Eu Sou À Toa, que estava lá, postou no Twitter uma apresentação de Fado Bicha que ela tinha acabado de assistir.

Foi assim que fiquei sabendo da existência dessa vertente do fado que você não verá no museu de Alfama. Talvez por ser capítulo recente na história do gênero, talvez por desafiar as convenções que o museu exalta.

Fado Bicha é o projeto da dupla formada por Lila Fadista e João Caçador. Lila é uma drag de barba que canta vestida ora de rosa ora com estampa de leopardo, em contraste ao sóbrio preto instituído por Amália. E João Caçador é o músico que a acompanha com uma guitarra elétrica, por oposição à viola portuguesa.

Eu achava que essa coisa de guitarra elétrica ~chocar a sociedade~ tinha ficado lá nos anos 1960. Bob Dylan sendo vaiado no Newport Folk Festival; meia MPB saindo na rua na Marcha Contra a Guitarra Elétrica, lembra? Mas, aparentemente, não. Porém, a grande afronta é a veia LGBTQI do projeto. O repertório inclui músicas próprias e versões adaptadas de clássicos, sempre desconstruindo e provocando os binarismos.

Também chama atenção para outros conservadorismos ainda presentes no país do fado, como a visão que ainda não reconhece os danos profundos causados pela escravidão e colonização. Uma versão fadista de “Mulher do Fim do Mundo”, de Elza Soares, ajuda a incorporar essa pauta ao projeto.

Para ver o Fado Bicha ao vivo é preciso que sua passagem pela cidade coincida com a agenda de shows do duo. Eu não tive essa sorte. Cheguei uns dois dias depois de um show e fui embora um dia antes de outro.

Fado vadio e arte urbana

No mesmo dia em que fui ao Museu do Fado e à casa de Amália Rodrigues, fui também ao bairro da Mouraria. É um outro reduto importante do fado. Numa googlada rápida na rua, fiquei sabendo que lá tinha um mural em homenagem ao estilo musical.

Mais precisamente nas Escadinhas de São Cristóvão, encontrei o graffiti assinado coletivamente por Vanessa Teodoro, Hugo Makarov, Mário Belém, Nuno Saraiva, Pedro Soares Neves e UAT. Rodeada por símbolos do gênero estava a expressão “fado vadio”, que pouco me intrigou.

Dias depois, indo para o hostel à noite, passei por um restaurante que fazia parte do meu caminho de volta. Uma moça cantava fado passeando pelas mesas. Meia luz, muito silêncio, serviço parado e todo foco nela. Depois de algumas músicas, houve um intervalo e o movimento normal do restaurante voltou.

No hostel, quis saber na recepção mais da “reputação” dos shows de fado do restaurante. Eram ~originais~ ou só para pescar turista? Nem uma coisa nem outra. Era uma sessão em que amadores, sem nenhuma pretensão comercial, cantavam fados próprios ou famosos; uma noite do que chamam lá de fado vadio. Bingo.

O fado vadio segue as origens do fado, em que populares cantavam o estilo, muito antes de se pensar em um registro profissional, como me ensinou o Museu do Fado.

Como foi bem por acaso a minha descoberta, acho mais prudente deixar aos locais apontarem aqui os lugares mais adequados para se ouvir fado vadio em Lisboa.

Roteiro do fado em Lisboa: uma playlist pra prolongar o passeio

O passeio termina com essa playlist de viagem pra Lisboa. Ela começa no fado pra depois fazer uma parada na MPB e caminhar para o indie. Assim, condensa alguns elementos que remetem ao que é e foi a cidade: sua principal expressão musical, a colonização e o atual status de capital cool da Europa.

Mais Portugal: festivais em Lisboa, o que fazer em Lisboa e onde ficar em Lisboa

Gostou deste post? Temos muito mais pra você!

Receba nossas dicas, histórias e novidades de viagens para os melhores festivais de música do mundo.

Compartilhe este post

Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

2 comments

Add yours
  1. Filipe Morato Gomes 9 março, 2019 at 08:07 Responder

    No bairro da Graça há pelo menos uma casa de fado onde se ouve fado vadio tradicional e com poucos turistas. Chama-se Tasca do Jaime (ora veja esse texto para perceber do que falo). Gosto muito e recomendo muito (é maus “autêntico que muitas casas de Alfama). Grande abraço e parabéns pelo vosso trabalho.

Deixe seu comentário