metal rock in rio 2019Rock In Rio. Ph: Marcelo Mattina – I Hate Flash

Dia do metal Rock In Rio 2019: cinco “problemas” desta edição

Aos olhos de muita gente, o dia do metal no Rock In Rio 2019 parece impecável. Confesso que no anúncio do lineup o efeito empolgação atingiu até a mim. No entanto, nem tudo é tão bonito. Há pelo menos cinco questões que considero problemáticas na programação do dia do metal do Rock In Rio 2019.

Porém, uma delas é para mim de fato muito problemática e faz as demais parecerem até mesmo efemeridades. Vocês já imaginam o que seja?

Dia do metal no Rock In Rio 2019 – o machismo nosso de cada dia

metal rock in rio 2019

Nervosa/ Divulgação

Como quase tudo que o Rock In Rio faz em minha vida deixa um sentimento de ambiguidade estilo “deus me livre, mas quem me dera”, com a programação do dia do metal também foi assim. Na verdade, o primeiro sentimento foi de grande felicidade ao ver Nervosa escalada para o lineup. Apesar de o Palco Sunset ser secundário, ele ainda sim é de grande destaque. Portanto, já me dava por bem satisfeita ao vê-las lá e não em uma rock street da vida, por exemplo.
Além disso, vai ser a primeira banda de thrash metal totalmente formada por mulheres instrumentistas a subir em um palco do festival. Tudo isso me animou a acreditar que, em alguma medida, o festival está atento às discussões acadêmicas e militantes sobre a inclusão de mulheres no lineup de festivais de metal.

Leia  post sobre o “mistério” da falta de mulheres nos lineups de festivais de metal no Brasil

Mas não é o bastante

Porém, não basta apenas incluir. E foi isso que pensei quando vi a grade de horários para o dia do metal. Surgiu ali um sentimento de insatisfação ao ver uma das bandas de maior relevo e projeção internacional da atualidade sendo obrigada a tocar em um horário que quase ninguém chega ao RIR. Também tem o velho proceder de colocar bandas consideradas menos relevantes para tocar antes daqueles que eles determinam como mais interessantes para o dia. Típica estratégia de canonização…

Pensar nisso me fez ficar bem bolada, pois as integrantes da Nervosa mostram um trabalho de qualidade exponencial, transpiram muito para receber o destaque internacional que vêm recebendo, estão fazendo inúmeros shows, turnês e participações em festivais dos mais importantes da cena metálica europeia, como o Wacken, por exemplo.

Não cria soluções justas quem não quer ou se acomoda…

Talvez muita gente argumente que não havia melhor horário, que as condições e as bandas ali presentes obrigavam a este tipo de arranjo. No entanto, para mim isso não cola. Caso eu fosse dona da programação, Nervosa não estaria tocando neste momento. Para mim, seria plausível até uma troca com Anthrax, por exemplo.

Primeiro, porque não sou “gado” de cânone e regrinha de “quem tem mais tempo de carreira ou + discos toca em horário privilegiados”. Afinal, quando pensamos em construções de lineup que são feitas em outros dias do festival, fica claro que o que conta mais é a relevância do momento do artista que o faz estar em posições privilegiadas – por exemplo, Anitta, no dia 05/10. Em segundo lugar, justamente pelo fato de a Anthrax ter uma carreira mais consolidada, tocar mais cedo não faria diferença para eles o quanto poderia fazer para a Nervosa.

Machismo estrutural

No entanto, este não é um problema exclusivo do Rock In Rio. Infelizmente, toda a estrutura da indústria da música e dos festivais está embebida no machismo. E parece que é muito difícil para os homens brancos privilegiados fazerem autocríticas e vencerem isso.

Mulheres no metal têm a tendência de serem “silenciadas” quando não correspondem à expectativas e padrões aceitáveis. Várias pesquisas (veja a seguir) mostram que as mulheres vocalistas e, principalmente aquelas dos subgêneros ligados ao sinfônico e gótico, que se encaixam também em um dado padrão de beleza e “feminilidade” recebem mais atenção, espaço e consideração em veículos midiáticos nacionais, por exemplo.

Leia algumas pesquisas sobre o assunto:

Para mim, colocar a Nervosa às 15h, mesmo que no Palco Sunset, ainda é uma clara tentativa de silenciamento. Por que será que três mulheres que se recusam a se vestir de “musas”, colocar decotões e ainda se “atrevem” a tocar instrumentos e dar verdadeiro significado à expressão power trio assustam tanto os usuários e beneficiários de dispositivos patriarcais na música, especificamente no metal?

O que a gente precisa fazer

Apesar de todo o quadro tenebroso que pintei, é preciso entender que esses problemas só podem ser vencidos de duas maneiras. Ou os festivais como o RIR mudam – o que pode demorar bastante, ou a gente muda. Então, constato e faço a proposta: vamos todxs chegar bem cedo no dia 04/10? Os portões da Cidade do Rock já estarão abertos às 14h. Portanto, gostaria muito que todo mundo chegasse bem cedo não só para pegar a grade para ver Iron Maiden. Mas sim, como uma forma de ir contra o sistema que insiste em fazer com que bandas super relevantes, formadas apenas por mulheres instrumentistas, recebam menos valor do que de fato têm.

Do problema sério às efemeridades

Depois de tudo o que disse, tudo o que venho falando a seguir soou como efemeridade para mim. E são mesmo coisas diante das quais me envergonho ao impor o status de “problema”. Que seja, para os olhos de alguns, então.

# Um dia é pouco

Eu já havia questionado se o Rock In Rio de fato merece o público metal que tem. Pois somos um dos públicos mais mobilizados, que voltou a esgotar ingressos em pouco mais de 2 horas, novamente. No enanto, das edições anteriores até aqui, o que percebemos foi uma queda de atrações exclusivamente dedicadas ao metal. E assim, a redução das noites do metal a somente um dia. Para mim é pouco, levando em conta o tamanho da consideração e fidelidade que o público metálico tem para com o festival.

#Corre-corre

O dia do metal vai ser um corre-corre danado. Os horários ficaram bem apertadinhos. Por isso, podemos esperar problemas de deslocamento entre um palco e outro. E por conta disso, também será mais sacrificante para a gente que é banger, uma vez que quase não vai sobrar tempo para tomar água, ir ao banheiro, comer e descansar.
Além disso, ainda tem a treta de perder parte de um show para não perder o outro, e por aí vai. Das mais preocupantes está a possível perda de parte do show de despedida da Slayer (que também está bisonhamente alocado no palco Sunset, enquanto poderia estar no palco Mundo, no momento em que a Sepultura ocupará o mesmo).

#Inversão Maiden-Scorpions

Para muita gente isso nem é um problema. Pra mim é um pouquinho, pois esperava por um show de menos apelo antes do Maiden para que eu pudesse descansar, ir ao banheiro, comer etc. E este show seria o do Scorpions, no meu caso. Mas infelizmente não mais será possível.

#Looping eterno de bandas do metal

O Rock In Rio nos passa a impressão de sempre nos manter em um looping eterno de headliners do metal. A repetição é constante e muitas dessas bandas são oficialmente arroz de festa do RIR, como é o caso do Iron. Mas é real também o fato de que se ainda esgotam ingressos com isso, é porque as pessoas realmente não se importam, ou até agradam.
Mesmo que eu seja fanzona do Maiden, ainda acho que revezar com outras bandas que não fossem o Metallica, por exemplo, tornariam o festival mais saudável e interessante.

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário no mundo sobre Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Comecei a ir em festivais de metal internacionais em 2009. Desde então, viajar em busca da música, essa outra paixão, tornou-se um projeto profissional que hoje chamamos de Festivalando.

13 comments

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  1. Renan Esteves 2 outubro, 2019 at 23:55 Responder

    Rock In Rio poderia ter se espelhado no exemplo do Maximus e ter colocado, pelo menos, os Palcos Mundo e Sunset colados, para que ninguém pudesse perder os shows dos dois palcos principais. Sobre repetição, eu queria bandas inéditas no festival como headliners, como Volbeat ou Rammstein. No entanto, fica difícil porque a gente sabe que pro Medina só existe Metallica ou Iron e pelo medo do festival não vender tão bem quanto em edições anteriores, vide o exemplo do Slipknot, que não chegou a esgotar e vendeu menos que SOAD e Metallica, em 2015. Pra 2021, eu apostaria novamente em Metallica e System of a Down como possíveis headliners.

  2. Rafael 5 outubro, 2019 at 02:40 Responder

    GracielLe Fonseca me gustaria saber si existe alguns banda de rock de mujerés com mas de 30 anos de história. Ej Iron Maiden Metallica scorpions bon Jovi ac dc y otras.lamentavelmente as mulheres en el rock no perdurarom. És mas bandas de mulheres como 4 no blondes o heart ficaron en el olvido.asi como los hombres son los reyes del rock y de lá fórmula 1 las mulheres como Madonna Celine Dion y otras son las reinas de de lá música pop y de esàs vocês líricas espetaculares. És question de sentido comun.besos.

    • Gracielle Fonseca 6 outubro, 2019 at 17:39 Responder

      Por supuesto que hay! Que és Girschool para usted, por ejemplo? Estas hablando locuras, amigo! Ademas, no hay “para siempre”, como eso de “reys del rock”. Lamento decirte pero estamos en otro contexto social y todo se pone a cambiar. Bienvenido al matriarcado hahahah. besitos!

  3. Carlos Costa 7 outubro, 2019 at 21:24 Responder

    Na verdade a ideia era fazer com que as pessoas revezassem suas posições diante dos palcos. Assim, a pessoa que colasse na grade do palco mundo, teria que ceder sua posição para outro ao ir para o palco sunset. Até por isso não faria sentido colocar os palcos próximos. Umas edições atrás, os shows do palco mundo aconteciam depois do sunset e não intercalados como nessa edição. Achei a ideia plausível para um “teste”, mas não deu muito certo devido aos horários, pois quando um show começava o outro ainda não tinha acabado. Se tivesse um intervalo mínimo entre estes shows, seria bom.

    Quanto aos horários, não acredito que se trata de canonização e sim de capitalismo. O RIR é um negócio. A programação é feita conforme a popularidade da banda (através da análise de dados de redes sociais, apps de streaming, vídeos e os dados dos eventos passados, como horários típicos). Escalando as bandas mais populares por último faz com que as pessoas permaneçam mais tempo no festival, aumentando o consumo e consequentemente a receita. Isso acontece em qualquer evento do mundo, desde palestras à exposições e shows. Nervosa é uma banda muito foda, mas infelizmente sabemos que é a de menor popularidade de todo line-up (excluindo torture squad e claustrofobia que são bem próximas). E outro ponto também está em relação ao estilo musical. Daniel Filth (Cradle of Filth) deu uma entrevista onde ele disse que seus álbuns nunca estarão no top 10 da billboard porque não é um estilo popular, então o que importa pra ele é ser reconhecido dentro do seu nicho, e acredito que Nervosa deu um grande passo para aumentar sua popularidade entre os amantes do trash metal e suas derivações.

    • Gracielle Fonseca 8 outubro, 2019 at 11:53 Responder

      Concordo com seu argumento sobre o arranjo capitalista. Contudo, tinha banda popular de sobra ali. Sendo assim, sempre teria um número de bandas pra servir a esse intuito de manter mais gente dentro do festival, ainda que se reprogramasse uma ou outra.Também entendo que o cânone da música e o capitalismo não estão desligados. Eles são interdependentes e geram um ciclo contínuo, por meio de uma certa catequização ou colonização dos nossos gostos e afetos. Ainda penso também que se nós não mudarmos essa visão de “banda x tem mais estrada e merece +”, enquanto existirem determinadas bandas como Iron Maiden, elas sempre serão headliners, enquanto existir qualquer banda com mais estrada do que a Nervosa, elas sempre serão “preteridas” em favor de dar destaque a quem sempre teve destaque e sempre continuará a ter, entende? Pra mim, o real arranjo interessante seria trazer o Sepultura pro Sunset, num horário tipo sendo a segunda banda, algo assim, levar Slayer pro Mundo e colocar Nervosa tipo antes de Anthrax, ou algo do tipo. E de fato, não foi de todo ruim para elas não, de forma alguma. Apesar de nas duas primeiras músicas ter sido possível transitar com facilidade entre os buracos do palco sunset, à medida em que o show se desenrolou, mais pessoas foram se juntando à plateia. No entanto, todo mundo sabe que poderia e mereceria ser algo bem melhor. E sinceramente, entre Claustrofobia e Nervosa, e entre Nervosa e Sepultura, neste momento, eu acho queo destaque, fora da lógica do cânone, tem sido da Nervosa. Já sobre o que você fala a respeito do gênero musical, será? Nervosa toca thrash metal, assim como Slayer e Anthrax, bandas que têm lá seus milhares de discos vendidos…

  4. Carlos Costa 8 outubro, 2019 at 13:17 Responder

    Concordo plenamente com você sobre a mudarmos nossa visão para a valorização de bandas menores. Já fui em muitos shows de bandas independentes e festivais que buscavam a promoção desses novos artistas (provavelmente conhece o Matriz de Belo Horizonte… meu antigo recanto). Entretanto festivais como o Rock in Rio têm muito “populismo”, pessoas que vão por ser o Rock in Rio e não pelas bandas que tocam ali. Quanto ao tempo de carreira, essa sua colocação é o que fomenta o debate sobre “a morte do rock’n roll”, as pessoas continuam valorizando as bandas antigas sem abrir sua mente para novas, pensando que o estilo vai acabar junto com essas bandas. O Badauí falou exatamente isso no show do CPM com Raimundos (até citou Pity e Dead Fish como referências). Mas continuo a achar que o Rock in Rio já está grande de mais para “promover” bandas. Como eu disse, seu modelo de negócios vai pelo que o público já conhece (com exceção do Rock District e Espaço Favela que estes sim tem o objetivo de divulgar). Entretanto temos vários casos de bandas nacionais que têm crescido internacionalmente sem uma promoção como o Rock in Rio, assim como a Nervosa, temos Far From Alaska (que se apresentou no Download Festival) e até o próprio Ego Kill Talent, que independente do RIR, têm demonstrado uma carreira sólida, sendo até convidado para abrir shows do SOAD na Europa e os shows do Metallica no Brasil. Acredito que Nervosa e Anthrax poderiam ter trocado de horário. Claustrofobia, Anthrax, Nervosa e Slayer no palco sunset. Se o Sepultura trocasse com o Slayer, não teria nenhum representante nacional no palco mundo, o que é meio que “regra”.

  5. Leonardo 12 outubro, 2019 at 16:44 Responder

    Arranjo capitalista? Patriarcado? Só ouço o choro de alguém que foi a um evento e está insatisfeita por ver sempre os mesmos artistas…se não gosta de como é feito não vá.

  6. IVONEI SILVA NUNES 13 outubro, 2019 at 01:16 Responder

    Péssima matéria. Querer comparar Nervosa com Anthrax é como comparar Ivete Sangalo com Rihana. Anthrax além de uma atração internacional, é famosísima e tem muitos anos de carreira. Por outro lado Nervosa ninguém conhecia,se apareceu mais graças a esse RIR. Está na cara que quem fez essa matéria desconhece sobre metal e só quiz lacrar com essa história de feminismo. Lamentável.

    • Gracielle Fonseca 14 outubro, 2019 at 22:52 Responder

      Péssima leitura do post (porque matéria é outro gênero textual, muito diferente desse aí que você leu), isso sim! kkkkkk Pois se você achou que de fato eu estava colocando essas bandas lado a lado ao invés de estar criticando o sistema que as coloca lado a lado e por isso faz as decisões sobre lineup se pautarem eternamente nessa lógica bocó que privilegia quem tem mais “figurinha no álbum”, então, pessoa, é isso aí… sem mais discussão com quem não tem condições satisfatórias de interpretação. Vlw, flw!

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