zeeltje 2018Festival Zeeltje 2018. Ph: Jan Derk Kos.

Como foi o Festival Zeeltje 2018

Sabe quando você chega na quermesse do seu bairro, ou na festa comunitária? Foi mais ou menos assim que me senti no Zeeltje 2018. Mas não julgue esta impressão de antemão. Afinal, as quermesses e festas de bairro têm lá seus pontos positivos. E quando isso vem acompanhado de boa música, melhor. Porém, nem sempre foi o caso durante este festival, como você vai entender mais adiante no texto.

Esta foi a minha primeira vez no Zeeltje, festival o qual eu já sabia que seria pequeno e relativamente pacato. Eu só não imaginava que seria tãaaooo pacato no início. Não fosse o som perigoso e ousado da Nashville Pussy, eu quase teria morrido de tédio. Por outro lado, às vezes a gente precisa da calmaria para curtir um festival e se recuperar dos solavancos da grande indústria.

Interessadx neste festival? Confira informações práticas aqui.

O Zeeltje 2018 foi um festival sintonizado em outras frequências

Festival Zeeltje 2018

Festival Zeeltje 2018. Ph: Jan Derk Kos.

Eu já imaginava que o Zeeltje seria muito pequeno. Mas não pensava que ele estaria sintonizado em frequências bem diferentes àquelas as quais se sente em festivais de metal e rock (mesmo os pequenos). Talvez, esta impressão aconteceu por conta do público presente, o qual era bem desanimado.

Além disso, lento foi o ritmo no qual a música acontecia. Na verdade, acho que isso é que provocou o primeiro grande sentimento de tédio. Pois, as atrações se revezavam entre o palco principal e o palco open air com longos intervalos. E pra deixar a coisa ainda mais lenta, a maioria das apresentações do palco open air eram voz e violão. Ainda tinha o agravante de os artistas não terem sido tão bem dotados de voz e não tão bem aplicados nas técnicas do violão…

zeeltje 2018

Festival Zeeltje 2018. Ph: Jan Derk Kos.

Assim, as primeiras horas no festival me causaram um certo desconforto. Além de que eu estava meio elétrica, sintonizada em frequências de grandes festivais. Então, não podendo simplesmente virar as costas para este festival assim como ele era, decidi olhar de outro ângulo: e se fosse a quermesse do meu bairro, o que eu faria? Foi assim que tudo começou a chegar em seu devido lugar. Então, entendi o que era o Zeeltje e como deveria me portar para ser mais feliz por lá. O bom é que a estratégia deu certo!

Uma freada no ritmo de vez em quando é bom

Primeiro, eu peguei uma cerveja e propus-me a relaxar. Comecei a conversar com as pessoas. Uma delas ficou impressionada quando falei que era do Brasil. Disse que ela mesma vivia a uns 10km de distância de Deest e só este ano ficou sabendo do festival. Então, ela ficou boquiaberta quando contei sobre o Festivalando e como este trabalho me permitia chegar a festivais tão pequenos e escondidos como aquele.

Além desta que foi simpática, havia também algumas pessoas tipicamente true metalheads, ainda na idade da caverna. Me criticaram quando eu fui tirar uma foto com a homenagem póstuma ao Peter Steele, do Type O Negative: “Você não tem que tirar foto com esse cara. Pra curtir metal de verdade, tem que tirar foto com o Lemmy, ali, oh”. Engraçado como este tipo é se encontra em tudo que é lugar, rs.

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Festival Zeeltje 2018. Ph: Jan Derk Kos.

Olhei para o entorno do festival, o lago não estava tão bonito como o que se via nas fotos de divulgação. Mas o que importava? A cerveja estava gelada e uma banda mais interessante começava a tocar no início da noite. Depois destes momentos, inevitavelmente comecei a comparar festivais. Primeiramente, estranhei a falta daquela correria entre uma banda e outra; daquela dor na perna de ficar em pé; daquele desespero pra comer e ir ao banheiro sem perder qualquer nota musical. Depois, curti esta oportunidade que o Zeeltje me dava pra relaxar.

Nada aconteceu com ansiedade ou correria. Senti cada gota de cerveja sorvida, senti a textura crocante da batata frita e olhei nos olhos das pessoas ao meu redor. Sentei-me com calma, com espaço. Pude olhar os vinis com calma, e ainda conversar sobre música. Não é todo festival que vai te permitir isso.

Sobre o espírito comunitário do Zeeltje e os grandes festivais

O Zeeltje é feito com muito carinho para a comunidade de Deest, isso deu para perceber. Desde a maneira como os voluntários tratam o público, como também a alegria com que alguns deles reagiam ao serem filmados ou informados que eu estava ali pra escrever sobre o festival. Além disso, a comida é boa, a cerveja é gelada e os preços são relativamente justos. De fato, não estamos falando de uma festa da grande indústria e isso tem seu valor.

Não é fácil organizar um evento, trazer bandas tão legais quanto Kadavar, Nashville Pussy, Blues Pills e Picture ( em outros anos). Apesar de toda a simplicidade estrutura compacta, o festival ocorreu, do início ao fim, sem nenhum problema grave. Nada que desrespeitasse profundamente seu público. [Como foram as grandes filas, sujeira e superlotação do Graspop deste ano, por exemplo]. E mesmo com seu tamanho e alcance reduzido, a organização ainda se preocupou em organizar shuttle bus e detalhes da estrutura que são dignas de grandes festivais.

Zeeltje é um festival com potencial

Apesar de muito pequeno e com espaço limitado, o Zeeltje é um festival com grande potencial. A locação, com lago e tudo mais, é um grande trunfo. Caso o lago receba um melhor cuidado estético, certamente vai dar um brilho a mais para o festival.

Também é preciso organizar melhor a frequência entre uma atração e outra. Além disso, seria legal fazer uma curadoria de bandas que sejam mais festivas, para levantar a galera. Claro que vai caber a voz e violão, mas tudo tem seu tempo e sua medida. Ainda, trazer bandas como Nashville Pussy é uma grande jogada, pois são bandas com nome, com qualidade e que cumprem um papel muito importante em atrair público.

É possível que daqui a alguns anos este festival ganhe mais destaque na indústria. É possível que ele cresça. A gente só espera que ele continue tendo o mesmo carinho e, de alguma forma, conservar algo do pacato, que permite a gente viver o momento.

Nashville Pussy, a cereja de um bolo sem massa

Não poderia falar da experiência de estar no Zeeltje sem comentar o show mais legal da noite de festival: Nashville Pussy. A banda foi a cereja do bolo. Mas também foi a isca que me fisgou e fez com que eu quisesse ir ao festival, o qual não apresenta um lineup tão atrativo como um todo. Embora não tenha sido o headliner da noite, posição que ficou à cargo de Danko Jones, Nashville Pussy foi a banda que fez diferença. Ao som dos seus riffs, a banda fez com que aquela gente holandesa pacata de repente se transformasse em “arremessadores” de cerveja ao ar, “puladores”, “gritadores” e “moshadores” de primeira linha.

Também, não tinha como ser diferente sob a inspiração de Nashville Pussy. Esta é uma das poucas bandas que ainda tocam um rock perigoso, provocador e autêntico. Blaine e Ruyter são a alma da banda e mostram que estão ali para se divertir e que se dane todo o resto. O festival não precisaria ser catártico quando a própria banda o é.

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Nashville Pussy no Festival Zeeltje 2018. Ph: Jan Derk Kos.

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Ruyter Suys no Festival Zeeltje 2018. Ph: Jan Derk Kos.

Cerveja, palavrões, rock e uma guitarrista emblemática que se for preciso vai cuspir uma boa dose de whiskey na sua cara. E sim, foi preciso. [Tenho cada gota do Jack Daniels de Ruyter em minha roupa, ainda sem lavar].  Ela também vai arrebentar todas as cordas da guitarra, deitar-se ao chão, fazer acrobacias, tudo isso com apurada técnica, afiada precisão das notas. Guitar heroin que fala, não? Ruyter Suys é definitivamente uma instituição que deveria ser teto pra abrigar por um tempo todas as meninas e mulheres que desejam ingressar no rock n roll. E foi fantástico poder vê-la detonando na guitarra durante canções potentes como, “Eat my dust”, “Go motherfucker, go”, “Go home and die” e mais.

Compensa ir ao Zeeltje?

Em algumas situações, sim.  a)Pra quem vai passar um tempo na Holanda e tem facilidade de se deslocar dentro do país;  b) dependendo do lineup.

Definitivamente, o Zeeltje não é um grande festival e tem menos apelo em função disso. Portanto, não é um evento pelo qual eu deixaria o conforto da minha humilde casinha no Brasil, viajando exclusivamente para comparecer. Além disso, Deest não é uma região com um grande apelo turístico. O entorno é bem normal, bem pacato.

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário no mundo sobre Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Comecei a ir em festivais de metal internacionais em 2009. Desde então, viajar em busca da música, essa outra paixão, tornou-se um projeto profissional que hoje chamamos de Festivalando.

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