Em busca das sombras na cidade da luz, ou como perder tempo em Paris

Turistar em Paris logo após o Hellfest (festival de heavy metal que acontece a 3 horas da capital francesa) é uma decisão de muita bravura e disposição, ainda mais se você não tiver tempo algum, como eu, que tinha menos de 1 dia e algumas horas na cidade. Primeiro, pelo fato de ser pleno verão e a cidade estar abarrotada de turitas – as filas estarão em todos os lugares, com certeza. Segundo, pelo fato de que todo o contingente de pessoas que nunca iriam à Paris, se não fosse pelo Hellfest, simplesmente desembocam com mala e cuia na cidade logo após o festival. E é por isso mesmo que se deve tomar cuidado com aquilo que se espera de um viés “alternativo” ou do que em geral, nós que gostamos de heavy metal vamos ter como objetivo mais ou menos comum na hora de fazer turismo.

E foi justamente por conta dessa falácia de “viés alternativo” que elegi as Catacumbas de Paris ( Les Catacombes) como minha primeira parada na cidade. Só que de alternativo essas cataa parte aberta à visitação nas Catacumbas não tinha nada. Para falar a verdade, elas eram apenas mais um dos tantos outros pontos turistões da cidade da luz. Que há sombra, isso há. Mas não aquelas que se espera de fato encontrar. Um dos sentimentos que tive ao adentrar as Catacumbas foi da morte banalizada, o contrário do que se parece pretender com a visitação das mesmas.

sombras

O fato também é que caveira não choca mais a sociedade, gente. Desculpe-me lhes informar. Capitalismo fofinho, caveira fofinha, metal fofinho. E por conta dessa popularização progressiva de caveiras, ou do reconhecimento de tudo que é lugar que tem caveira como um “must see” da metaleiragem que sai dos festivais de metal, é que eu e várias pessoas nos ferramos em mais de 3 horas de espera em uma fila que dava volta no quarteirão da entrada das Catacumbas de Paris.

Fiquei um tanto quanto irritada com aquele tanto de gente que estava lá para ver os restos mortais de aproximadamente 6 milhões de franceses, empilhados metodicamente, ordenados com algum senso estético. E aquela multidão viva à espera da multidão morta cresceu bastante com as camisas pretas “Hellfest”… Compensava ficar 3 horas ali? Me perguntei várias vezes, mas resisti bravamente, com ajuda de boas conversas na fila.

Certamente há mais opções sombrias na cidade da luz. Mas elas não devem ser “turísticas” em sua essência, a princípio. Existem algumas sociedades secretas em Paris ( como por exemplo o grupo UX, e seus sub-grupos que atuam com focos diversos) e guias turísticos com conhecimentos específicos sobre isso para te levar aos verdadeiros e obscuros spots da cidade. Existe, por exemplo, a parte proibida das catacumbas de Paris, cujos mapas apenas alguns integrantes das sociedades secretas deteriam. Há mais subterrêneos, visitas a esgotos e distritos de fato alternativos na cidade. Contudo, em 1 dia ou com pouco tempo de planejamento eu não poderia, infelizmente, descobrir mais sobre tudo isso. Nem eu nem 50% dos turistas oriundos do grande festival de metal francês, que decidiu ir aos mesmos lugares que fui na cidade.

Outro local que eu havia selecionado para essa minha tentativa de tour menos óbvio em Paris foi um bar “alternativo” para passar parte da noite, o Black Dog. Não há nada no Balck Dog além de metal main stream tocado em alto e bom som, figurinhas repetidas e, justiça seja feita, uma boa carne no estilo argentino. Algumas vezes, caso tenha sorte, pode se deparar com pequenos shows de bandas interessantes em turnê no lugar. Um ponto a favor do Black Dog é que o bar fica bem ao lado de um dos lugares mais interssantes de Paris, o qual só pude ver por fora: Le centre de Pompidou. Mas o bar e seus arredores não tinham nada sombrio. Era tudo muito colorido e vívido, para ser franca. As sombras, de verdade, serão procuradas por mim em uma outra oportunidade de visita à Paris.

black dog paris

As Catacumbas não são de todo o mal, contudo. Caso você realmente esteja disposto a perder esse tempo todo na fila ( caso vá no verão ou logo após o Hellfest), pagar 10 euros para entrar e disputar o espaço para contemplação com várias pessoas ao seu redor, vá. Trata-se de um amontoado de ossos de respeito, datado de 1785, surgiu como uma solução para a superlotação dos cemitérios da cidade durante o século 18. Dentre outros ossuários pelo mundo, as Catacumbas de Paris são um dos mais famosos e visitados. O diferencial das Catacumbas de Paris para o Ossuário de Sedlec (que fica na República Tcheca e também visitamos na ocasião de outro festival) , por exemplo, é que o último está num ambiente mais “asséptico”, claro e talvez menos interessante.

úmidas catacumbas

As Catacumbas de Paris são realmente subterrâneas – você já saca isso com toda a escadaria sem fim que desce logo no princípio. E pelo fato de serem subterrâneas, elas são úmidas e asfixiantes. Há trechos em que a água chega a pingar e nos molhar, por exemplo. Já em Sedlec isso não acontece, pois os ossos e esculturas com os mesmos estão praticamente no mesmo nível das demais construções. O local também é menor, reservando-se a um grande salão. Já as Catacumbas de Paris ocupam toda a rede dos antigos túneis/pedreiras subterrâneas da cidade. São quase 400 km de extensão – nem todos cobertos com ossos, entretanto. Mas a parte aberta à visitação nos ocupa quase 40 minutos de caminhada, enquanto em Sedlec em 15 minutos você já percorreu todo o salão.

ossos

“Pare! Este é o império da morte”, ou outras tantas placas mais que discorrem sobre o fim da vida, a necessidade de humildade perante a isso e os lembretes de o quanto a vida é efêmera tentam te colocar num certo clima dentro das Catacumbas de Paris. Mas em meio aos milhões de flashes ( proibidos, inclusive), selfies e burburinho da multidão de vivos, é meio impossível se conectar com o lugar, na minha opinião. De qualquer forma, há mais sobre e nas catacumbas de Paris do que somente os ossos ou aquilo que está aberto à visitação. Cabe aos curiosos procurar e, quem sabe um dia adentrar os segredos desse submundo.

catacumbaas escritos

 

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

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