Um roteiro alternativo para a República Tcheca

Quando pensamos em República Tcheca, a senha turística mais fácil de chegar à nossa mente é: Praga, Relógio Astronômico, castelinhos, castelinhos e mais castelinhos, Charles Bridge, jardinzinhos, mimimi, Cemitério de Judeu, marionetezinha e por aí vai. Tá certo, visitamos toda sorte de coisas possíveis enquanto estávamos lá, afinal, cada monumento, castelinho e igrejinha geralmente fica numa distância muito pequena um dos outros. O fato é que, eu e a Pri ficamos foi meio de saco cheio desse roteiro pelo fato de não sabermos exatamente de onde havia brotado aquele tanto de turista. Praga é tão, mas tão mainstream ( termo que a própria Pri usou para definir e eu concordo), que tirar uma foto no relógio astronômico sem um photo bomber é tipo um feito muito foda, hauaahau…Ficamos rachando de rir por horas da foto que tirei da Pri – quem imaginaria que ela seria foto bombardeada por um casório? No meio do dia, lá no relógio Astronômico???? E aff, quem casa no centro de Praga no meio da turistada louca e acha isso legal? Tem gosto para tudo né?!

photobomber

Como todos os sites de turismo possíveis e até seu papagaio já deve ter te contado dos lugares que falamos acima, escolhemos um outro lado da República Tcheca para te mostrar, mas só se você tiver estômago. Não é apologia a nada, mas esse post é sobre coisas obscuras da humanidade, que muita gente talvez prefira não encarar. E, por incrível que pareça, foi com essa experiência turística que pude vivenciar uma das dobradinhas mais interessantes de música e viagem – O conjunto de cidades Praga, Kutna Horá, Hradéc Králové e o Brutal Assault. E não digo que foi uma dobradinha quase perfeita apenas em termos de ter tempo para poder conhecer os lugares e ir ao festival. Refiro-me também a um diálogo conceitual, ou de universos, entre um festival de Heavy Metal e algumas das coisas obscuras presentes naquele país: um museu de instrumentos de tortura medieval, uma galeria suja e underground, uma igreja toda decorada por ossos humanos e um antigo forte militar.

4 atracoes

Desde 2009, quando ocorreu meu primeiro encontro com Praga ( de apenas 1 dia e meio) queria muito ter ido ao Museu de Instrumentos de Tortura Medieval. Assim, no meu primeiro dia na cidade este ano, arrastei o pessoal para lá. Um quarteirão antes de atravessar a rua e adentrar a Charles Bridge, lá está ele – com uma fachada até discreta. O acesso ao museu se dá por uma espécie de galeria. Lá dentro você já se depara com a logo e segue subindo.

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Com decoração em vermelho e preto, o ambiente já avisava sobre o que estava colocado ali para ser visto e lido. No guichê, paga-se 150,00 coroas tchecas pela entrada ( mais ou menos uns 17 reais… bem baratinho!). O Horário em que ele fica aberto também é bem amplo, de dez da manhã às dez da noite.

O Museu tem três andares e mais de 60 instrumentos originais, réplicas, quadros e livros que versam sobre essa prática antiga muito difundida nos períodos trevosos da idade média. Os instrumentos eram construídos para serem usados na tortura daqueles considerados como criminosos e dos avessos à Igreja Católica. Me chamou a atenção o fato de que várias das engenhocas do mal foram inventadas na Alemanha, mais precisamente em Nuremberg. Inclusive, uma das mais famosas para nós da metaleiragem, a Donzela de Ferro , Iron Maiden ( que também é nome de uma das bandas mais famosas do Heavy Metal mundial) ou virgem de Nuremberg. Ela é essa bonecona de ferro cheia de fincos por dentro. Ninguém quer brincar com essa boneca, acho…

iron maiden

Me chamou atenção também que esse conceito de tortura é bem elástico, uma vez que estavam expostas máquinas que definitivamente levariam a pessoa à morte na primeira girada de manivela. E o contrário, também havia coisas como uma máscara de porquinho, ou máscara da vergonha, para aqueles que tivessem desobedecido alguma regra da cidade, bem como também tinha um espécie de bandeira da vergonha, que pessoas cujas faltas eram menores eram obrigadas a carregar, algo como tortura moral talvez.

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O museu, contudo, não é uma exclusividade de Praga. Outras cidades europeias também possuem um, ou até dois ( Praga mesmo tem outro museu da tortura, ainda no centro, mas perto das lojas de chocolates e souvenirs).

Andando pela cidade, meio que de saco cheio, perguntei à pri se ela toparia ir num lugar legal que eu tinha visto. A Comix Gallery Bar. A placa com caveirinha me convidava para mais uma visita ao lugar (pelo qual também havia passado em 2009). Eu sabia que havia um bar, literalmente underground, em que as cervejas pretas eram deliciosas. Juntas descobrimos que havia mais bares, um estúdio de tatuagem e até uma loja de um estilista alternativa, com roupas bem simpáticas. Esse lugar massa fica no centrão, nas imediações do relógio astronômico, mais precisamente na rua Karlova, n 46 ( fica quase na mesma esquina em que a loja da Swarovski, perto daquela muvuca de comércio de lembrancinhas).

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Depois do rolê pelo lugar, entramos no bar. Escuro e enfumaçado como sempre, perguntei ao atendente sobre uma cerveja que eu havia tomado e logo ele me recomendou a Master, Czec premium, segundo ele, fora premiada como a melhor cerveja  nesse ano. Independente do título, a cerveja era muito boa! Nos sentamos em uma mesa nos fundos e ficamos a observar um tanto de moleques que fumavam um baseado. Maconha em Praga é legal somente em casos de plantio e usos domésticos – apesar de que é tolerado fumar um baseado no meio da rua, por exemplo. Mas, naquele dia, vimos o dono do bar Comix ir à mesa e mandar a mulecada vazar: “Ei, não vão apagar esse baseado? Vocês estão loucos? Fumando logo ao lado do exaustor para a rua! Isso vai atrair a polícia para este estabelecimento…”. E a mulecada apagou o beck, deixou copos cheios de cerveja e tomou rumo. Ficamos um pouco confusas. Mas, em alguns coffee shops da cidade é possível usar a erva, bem como em algumas absinterias.

 

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Passados todos os dias que tínhamos em Praga, cismei que não poderia ir ao Brutal Assault sem antes passar pelo ossuário de Sédlec. A cidade que abriga o ossuário, Kutná Hora, fica a caminho de Hradéc Králové, onde acontece o festival. Assim, ao invés de comprar um trem que fosse direto para Hradéc, decidimos comprar um trem que parava em Kutná Hora. E, de lá, pegaríamos conexões para chegar ao hotel do festival. Esse pequeno incremento de trajetória nos custou apenas 5 reais a mais no valor da passagem – bem como nos custou uma certa canseira, pois estávamos cheios de malas gigantes, que já nos acompanhavam e nos acompanhariam até o fim da jornada festivaleira. Por isso, quando for fazer esse trajeto, lembre-se de reduzir ao máximo a tralha a ser carregada, afinal, todos obstáculos possíveis são oferecidos nas antigas estações e trens do leste europeu. Números: De Praga à Kutná Hora gasta-se em média 1h30 e 100 coroas tchecas ( ou 12 reais).  De Kutná Hora à Hradéc Kralové gasta-se 20 minutos – mas vc precisa pegar 2 conexões, geralmente. O preço está entre 5 e 7 reais.

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Chegando à Estação de Kutná Hora, numa salinha de informações a moça nos avisou que deveríamos pegar um ônibus para apreciar todo o circuito turístico da cidade, que se destaca pela arquitetura gótica. A cidade é uma gracinha, data do século 13 e a maior parte das atrações, incluindo o ossuário, é tombada pela Unesco como patrimônio da humanidade. Mas, um roteiro com 5 igrejas não me atraiu. Queria mesmo ver a famosa casa de milhares de ossos! Peguei o mapa e vi a indicação de um caminho a pé que, de acordo com as informações, levaria 40 minutos. Ou eles superestimam o tempo considerando os velhinhos e pessoas com dificuldade de andar ou querem dinheiro para o ônibus, pois cheguei até o local em 15 minutos. No trajeto, encontrei com um tanto de metalheads, os quais provavelmente iriam para o Brutal Assault. Confirmei mais uma vez que esse roteiro tem pega na dobradinha festival e turismo…

Na chegada ao local, passei por um cemitério comum, com lápides e nada demais. Para entrar no ossuário é preciso pagar 90 coroas tchecas, ou mais ou menos 10 reais. Ao entrar, você recebe um texto impresso na língua falada em seu país. Por meio desse texto fiquei sabendo que o ossuário é constituído por ossos de aproximadamente 40.000,00 de pessoas. Sédlec fazia parte de um antigo monastério da região da Bohemia. Você pode ler mais sobre a história detalhada dele aqui

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A primeira sensação ao entrar é de deslumbre com tamanha beleza do lugar, dos pedestais, pirâmides de ossos e lustres. Para quem sempre foi fascinado pelo lado sombrio da vida, que é a morte, trata-se de uma experiência marcante.Depois que o primeiro deslumbre passa e se pode ler mais sobre a história por trás de Sédlec, para os mais sensíveis, como eu, é impossível não ficar com os olhos marejados. Ali estão ossos de pessoas afetadas pela peste negra na idade média, bem como daqueles que lutaram em batalhas territoriais ou morreram por frio e falta de alimentos…

Sédlec é bem famoso. Já foi usado como locação do filme Dungeons and Dragons ( RPGistas de plantão…) e serviu de inspiração para o filme do Rob Zombie, House of 1000 corpses.

sédlec

Hradéc Králové não deixa de ser menos turística do que os demais lugares citados, e é também um turismo alternativo. O forte em que o festival aconteceu, Josefov, tem uma longa história de batalhas no século 18 e, ainda por cima, fica em uma área com várias atrações: os corredores subterrâneos ( que você visita com lanternas e vela, num tour que custa aproximadamente 4 reais e leva 45 minutos), o Town Hall Museum, com várias obras de arte que contam a história da cidade e também o M. Frost’s Military-Historical Museum, que remonta os acontecimentos da primeira guerra mundial e história do exército tcheco.

brutal forte

As letras das músicas de metal não me deixam mentir e consagrar essa dobradinha turístico-festivaleira como a mais metálica da temporada! Cansado de roteiro monumento/castelinho na rep. Tcheca? Cola com a gente que você brilha!!

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

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