Rock in Rio 2015. Photo: Allen – I Hate Flash

A experiência sintética e um vácuo social no Rock in Rio

-Até a grama é sintética!

Disse Ivette Gonzáles, chilena que foi pela primeira vez ao Rock in Rio esse ano, em uma conversa com a Pri no nosso quarto do hostel em que ficamos hospedadas no  Rio de Janeiro.

E quem dera se fosse só a grama. A experiência, essa de que a gente tanto fala e preza ao longo da nossa trajetória, ela parece ser sintética também. Inclusive, está pré-fabricada no Rock in Rio, com limite de tempo e espaço, embalada em milhares de logotipos; não precisa andar muito dentro do festival para esbarrar nos vários stands de patrocinadores, te convidando para uma visita, uma interação determinada por alguém que ficou numa faculdade de marketing alguns anos e por isso acha que pode presumir todas as suas “necessidades” de vida. Mas tudo bem, ~todo mundo adooooraaa~ ter aqueles braceletes luminosos de um certo banco e pagar micos para ganhar brindes.

Photo:Esper - I Hate Flash

Photo:Esper – I Hate Flash

Mas em que isso te acrescenta? Qual é o mundo melhor que eu vou construir com centenas de artefatos de plástico na minha bagagem festivaleira? Não que sejamos contra a publicidade, mas ela deve ser bem feita e construir outras possibilidades para o seu público. Diante disso, só posso dizer que não há nada melhor do que voltar para casa com coisa nova: valores, perspectivas de vida, palavras, culturas, lembranças humanas, lembranças de verdade, daquelas que tocam no peito, e às vezes batem lá em cima e fazem os globos oculares nadarem um pouquinho.

Não é a toa que eu e Pri saímos do Roskilde Festival na Dinamarca piradas. Em duas edições de festival que tivemos o prazer de vivenciar, saímos, por exemplo, com a sensação de ter passado dias em uma das sociedades mais igualitárias do mundo, principalmente no que diz respeito à questão do gênero. Entendemos um sentimento de comunidade, criado não apenas em função da música – que aliás é bem diversa.  Vivemos situações inusitadas na Dream City, aprendemos a falar mais do que “tak” (obrigada em dinamarquês), ensinamos a eles mais do que “obrigada” em português. Foi no Roskilde 2015 que tive o encontro com uma das iniciativas mais legais vistas em festival nos últimos tempos, a Human Library, que se encarrega de te sacudir de várias formas, mexendo com seus preconceitos. Um mundo melhor não seria construído por esse caminho? Mas parece não haver espaço para isso no Rock in Rio. Há muitos brindes a serem distribuídos.

Há uma grande diferença também quando os festivais te proporcionam oportunidades imersivas. Essas são de fato potencializadas por conta do acampamento de festival, o que não ocorre no Rock in Rio. Mas, seria raso reduzir experiências imersivas a somente o fato de estar acampado em um festival. Mesmo sem acampar, em festivais como o Roskilde é possível  viver ótimos momentos em espaços de convívio comum, trocas e aprendizados. São muitas as iniciativas, como a cozinha coletiva, espaços para prática criativa e marcenaria, aulas de yoga e meditação, entre outros…

Com poucos lugares para convivência livre dos patrocinadores, o Rock in Rio parece te obrigar a brincar, assistir a um show, comer, e só. Não existe muita brecha para fazer com que as pessoas reflitam um pouco. Assistir à experiência montada para a emoção de outras pessoas, como foram os casamentos na  Cidade do Rock ( apesar de terem sido lindos para quem casou, e até mesmo para quem viu, é apenas mais uma engrenagem dentro do show business), também é uma tônica. Senti que eu era apenas uma telespectadora festivaleira, não humana festivaleira.

rock in rio

Stam, marca de cadeados “trancando” um compromisso de amor. Photo: I Hate Flash

Enquadrados na Cidade do Rock, buscando enquadramentos para os selfies e flashs na fonte da grande hashtag #rockinrio, ou buscando se refrescar de verdade? Sabe aquela máxima de que uma imagem vale mais do que mil palavras?

Rock in Rio 2015. Photo: I Hate Flash

Rock in Rio 2015. Photo: I Hate Flash

A experiência fica limitada ao pragmático. À descoberta do ponto de ônibus, da fila para o hambúrguer, daquele bebedouro escondido. Ainda restariam os shows e a experiência do ao vivo. Porém, parece que até ela é ainda mais moldada no Rock in Rio, sem espontaneidade. Ou quando ocorre a espontaneidade de um artista, parece que essa está fadada ao fundo do poço, ou do fosso, não é mesmo, Mike Patton?

E a liberdade? Definir liberdade e experiência pode ser difícil, não se deveria reduzir a pouca coisa. Mas uma coisa é certa: liberdade pede espaço. o Rock in Rio tem se tornado um festival pouco transitável. Falta espaço para tudo, como já falamos em vários posts aqui.

Além de espaço, a liberdade pede uma sociedade mais igualitária. Não acho que deva haver mais segurança no festival para que não sejamos roubados enquanto consumimos entretenimento. Precisamos nos conscientizar de que, enquanto o abismo social e as diferenças de renda existirem, nada pode conter esse tipo de acontecimento, a não ser que você abra mão mais e mais da sua própria liberdade para talvez se isolar entre os Vips. E essa mudança no abismo social deve vir também de dentro do próprio festival, que deveria zelar de verdade pela qualidade e dignidade do trabalho daqueles que vêm prestar serviços, e não mais protagonizar escândalos como nesta edição, em que o Ministério do Trabalho encontrou pessoas em condições de trabalho análogas à escravidão.

O Rock in Rio tem um plano de sustentabilidade no qual estaria implementada e pactuada a garantia dos Direitos Humanos e boas condições de trabalho.

O Rock in Rio tem um plano de sustentabilidade no qual estaria implementada e pactuada a garantia dos Direitos Humanos e boas condições de trabalho. Agora só falta cumprir.

É triste reconhecer tudo isso nesse festival, o mesmo que quando criança eu assistia pela TV e venerava. Um festival que em termos de organização e música cumpriu minimamente seu papel. E sim, ainda o queremos bem, pois é um grande festival para chamar de nosso, de brasileiro. Mas há muito tempo damos a entender que festival não tem que ser só música, ou só entretenimento.

Ainda é possível esperar as viagens de descoberta dentro do Rock In Rio, a partir de um processo de renovação urgente, ou o festival é o que é e aceite-o se quiser, pois é o que temos?

Acho que queremos e precisamos pisar um pouco mais em gramas de verdade.

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

8 comments

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  1. Rodrigo Airaf 30 setembro, 2015 at 11:39 Responder

    Fui pela primeira vez agora, no dia da Rihanna, e detestei a Rock Street! Eles enfiaram um stand de karaokê da Pepsi (o mesmo que teve no Lolla) num espaço que seria mais que óbvio de causar engarrafamento. No palco mundo era bem difícil fazer as coisas também, os banheiros eram longe e os femininos muito lotados e com muita fila. Aliás, tinha fila pra tudo. O festival tava muito cheio, o melhor espaço era o palco Sunset perto do fim da tirolesa da Heineken, que dava pra sentar na grama tranquilo e sentir o ar fresco, curtir sons diferentes, conversar com os amigos e comer.

    E o Burning Man, gente? Tá na lista de vcs?

    • Gracielle Fonseca 30 setembro, 2015 at 12:26 Responder

      Isso é verdade, Rodrigo! E falta conceito, experiências imersivas ou que nos desloquem um pouco do mundo em que vivemos. Mo, aesmo esse espaço ao fim do Sunset, faltou muita coisa para a experiência chegar perto daquela vivida em outros festivais. Até mesmo no Lolla aqui no BR a Pri já relatou coisas legais…
      O Burning Man, Metaldays, Coachella, Glastonbury, Graspop, Download… minino, praticamente todos os festivais que a gente ainda não foi estão na lista, hahahahah! Haja dinheiro! Tô jogando na loteria regularmente… hauahauhaua

      • Rodrigo Airaf 30 setembro, 2015 at 12:34 Responder

        Eu fiquei bem fascinado com as coisas que eu li sobre o Burning Man, infelizmente não vou tão cedo mas tá na lista com certeza! Coachella e Glastonbury não ficam muito atrás também não. Sobre o RiR, realmente parece que eles estão acomodados e se apoiando somente na “tradição” do festival e da sua reputação, não fazem questão de inovar nunca, a começar pelo palco repetido.

        Por falar em experiências imersivas, não sei se vc curte eletrônico mas já pensou no Tomorrowland? A edição brasileira é tão boa como a da Bélgica e junto com o acampamento a experiência é incrível! Só não sei como vai ficar a marca depois do fiasco com a edição americana.

        • Gracielle Fonseca 30 setembro, 2015 at 12:44 Responder

          Então, amore, como eu não consigo disfarçar mesmo, hauahau, minha onda é totalmente metálica`, kkkk nascida e criada no heavy metal kkkk. Mas, nessa trajetória de festivalando a gente também está aqui a serviço de vcs, tanto é que eu fui naquela marmota do Sziget, hauahauaahau.
          Assim, penso muito em ver de qual é e fazer alguns experimentos festivaleiros no TML BR… afinal, com esses câmbios de moedas muito desfavoráveis, precisaremos encontrar alternativas mais perto da gente =)
          E você,já foi? Quando vai escrever um Leitor Festivasleiro 😀 ia ser massa, hein?!

          • Rodrigo Airaf 30 setembro, 2015 at 12:50

            Já fui sim! Sou rato do eletrônico, e festivaleiro assumido! Vou em todos: EDC, Tomorrowland, Kaballah, crio raízes no Perry do Lolla e vou até naqueles open air no meio do mato. Adoraria participar do Leitor Festivaleiro, acompanho o site sempre e adoro o trabalho de vocês! Entretanto, eu mesmo estou montando um veículo especializado em música eletrônica, sai no fim do ano, quero seguir esse sonho como você está seguindo hahahaha Quem sabe façamos parcerias no futuro!

  2. Ismar Ferreira 2 outubro, 2015 at 23:10 Responder

    Chega a ser desconcertante passar por aquele corredor que dá acesso ao festival e passar praticamente no meio da comunidade pobre que provavelmente nunca terá acesso a uma coisa que acontece tão perto deles.

    • Gracielle Fonseca 3 outubro, 2015 at 14:29 Responder

      Esse é o Brasil dos abismos sociais vergonhosos em que vivemos, Ismar. Infelizmente. Os ricos só querem ficar mais ricos e acreditam fortemente que os pobres só estäo naquela condição pelo fato de querer… nunca pensaram sobre as dívidas históricas que esta sociedade tem com as camadas populares.

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