Futuro do Rock in RioAllen – I Hate Flash/Divulgação

Precisamos falar sobre o futuro do Rock in Rio

Foi intenso, foi quente, foi cansativo. O Rock in Rio 2015 deixou o Festivalando em ritmo frenético nos últimos dois meses, mas a essa hora o festival já é passado (e você pode recordar absolutamente tudo aqui). Agora é hora de olhar pra frente, principalmente porque o festival já tem edições confirmadas no Brasil em 2017 e 2019, mas, acima de tudo, eu sinto que é preciso ir muito além. Precisamos falar sobre o futuro do Rock in Rio, num sentido lato.

Nada tira o protagonismo e a importância do Rock in Rio na história dos festivais no Brasil, mas eu saí da Cidade do Rock com a impressão inescapável de que o festival está defasado em alguns aspectos. Falo isso do ponto de vista de quem passou por 13 festivais em 10 países nos últimos 14 meses – festivais estreantes, festivais com quase 50 anos, festivais independentes, festivais comerciais, festivais para três mil pessoas, festivais para 100 mil pessoas, festivais em países com infra-estrutura inferior à do Brasil e festivais em países com um nível de desenvolvimento com o qual a gente aqui mal consegue sonhar. Esse giro pelo mundo fornece inevitavelmente muitas referências para comparação.

E falo também do ponto de vista de quem acha o máximo o Brasil ter o Rock in Rio, um festival pra chamar de nosso, com história e legado. E isso é mais valioso ainda num momento em que os grandes festivais do circuito mainstream do país são, na verdade, importações de marcas gringas – ou seja, não são exatamente festivais “nossos”. E falo também na condição de uma menina que é fã de festival e de música e que por acaso também tem uma visão crítica (portanto, Medina, não desconsidere minhas colocações por pensar antecipadamente que eu sou uma cri-cri, eu sou antes de tudo uma amante de experiências musicais ao vivo, uma fan girl). É com o desejo de 30 anos ainda mais relevantes que eu digo que (senta que lá vem história):

O Rock in Rio precisa atualizar a linguagem de festival e ser menos publicitário

Juntar quatro palcos (dois relativamente bons/Mundo e Sunset; e dois relegados a segundo plano e mal posicionados/Rock Street e Eletrônica) e um monte de brinquedos é só um arroz com feijão num mundo onde os festivais se multiplicam como gremlins. E ter um zilhão de patrocinadores sem que eles utilizem parte do investimento para enriquecer a experiência do público não ajuda o festival em nada a avançar no sentido de um diferencial.

É claro que estamos tratando de um mega evento comercial que precisa de dinheiro e patrocinadores para se se colocar de pé e, sendo assim, a convivência com as marcas dentro da Cidade do Rock é inescapável. Mas vejo certa pobreza na forma como elas se posicionam lá dentro, fazendo com o que o espaço se assemelhe muito mais a um grande shopping do que a um festival, pois na maioria dos casos elas não se saem bem na hora de equacionar auto promoção com experiência/entretenimento/utilidade para o público. Rapaz, eu não quero a sua pulseirinha pisca-pisca ou o seu balãozinho inflável pra fazer propaganda de graça pra você. Me dê algo útil em troca pelo menos.

No fim, temos um monte de outdoors ambulantes distribuidores de bugigangas, com raras exceções (caso do karaokê da Pepsi, sucesso na Cidade do Rock e também no Lollapalooza, e que em ambos os festivais atraiu público considerável para ver anônimos cantando numa ativação super divertida numa espécie de palco honorário).

Depois de 30 anos, a logo também poderia passar por uma modernizada, mesmo que sutil, afinal grandes marcas em algum momento acabam encarando esse processo. E o jingle, minha gente? Tem uma vibe meio antiquada, fora de sintonia com o que significa ser um festival de música hoje. Se não há como abandoná-lo, afinal temos um publicitário por trás de todo o evento, que ao menos seja repensado também. A pegada publicitária do Rock in Rio está muito descalibrada.

Futuro do Rock in Rio

Marcelo Mattina – I Hate Flash/Divulgação

O Rock in Rio precisa melhorar a experiência de festival

A Cidade do Rock é escancaradamente um lugar pequeno para a quantidade de gente que recebe. Falta espaço físico para circular, para descansar, tudo é muito apertado. Há também uma agressividade e uma presença muito pouco propositiva das marcas patrocinadoras (como eu disse acima, elas são inevitáveis, mas poderiam se esforçar mais para oferecer dinâmicas de entretenimento e relaxamento e não apenas meras lojinhas). Somada a uma certa falta de atualização da linguagem de festivais, o Rock in Rio acaba devendo na oferta de uma experiência mais profunda e afetiva, eu acho.

É tudo muito fast food, superficial e não com aquele jeito de comida de mãe. Falta oferecer maneiras e espaços pra gente poder respirar mais, circular com mais fluidez, relaxar e descansar com mais conforto e também estratégias para fazer o público se engajar mais com o espírito do festival.

Lá no Roskilde Festival, na Dinamarca, fale-se o tempo todo sobre o “orange feeling”, um espirito, um sentimento único que paira sobre o ar do festival e que dá aquela sensação de você ter vivido uma experiência diferente que mexe profundamente com você. O Rock in Rio ainda carece disso – conforme eu e Gra concluímos após o primeiro fim de semana, há muito entretenimento, mas nada é arrebatador. O Rock in Rio oferece bons shows, uma boa experiência de concerto, mas não tem uma boa experiência de festival mais imersiva, de convivência, engajamento e entrega. Os grandes festivais do mundo hoje são capazes de oferecer isso.

Futuro do Rock in Rio

Ariel Martini – I Hate Flash/Divulgação

O lineup precisa ter mais frescor e relevância

Absolutamente TUDO a favor dessa divisão dos dias por gêneros, com espaço para o rock em sua vertente mais clássica até o heavy metal, um lugar para o pop, com os ídolos de hoje e os medalhões e também uma reserva justa para brasilidades. Acho isso ótimo! (e nem me venha com aquele papo infantil e limitado de que tem que ter só rock porque tem rock no nomzzzzzzz). Entendo também que tem que trazer gente muito popular para vender ingresso e sustentar o tamanho do festival, e isso às vezes implica trazer os mesmos headliners, uma vez que não se tem tanto artista no mundo hoje que atraia uma multidão na casa dos 80 mil e que ainda por cima tenha possibilidades reai$$ e agenda livre para tocar justamente no período do Rock in Rio.

Mas na faixa intermediária do lineup, entre os nomes “médios” escalados para o Palco Mundo, a gente acaba tendo que engolir atrações muito inexpressivas para um festival desse tamanho, meio esquecidas e que parecem estar ali só para preencher buraco ou totalmente deslocadas. O Sunset, em tese um palco secundário, tem se mostrado muito mais interessante, seja com atrações mais raras em terras brasileiras (Ministry) ou com shows mais esmerados (Lenine) ou envolventes (tributo à Cássia). Nesse sentido, pode ser um ótimo insumo para repensar a estruturação do lineup.

É importante equacionar renovação com expansão

Tem uma gana de levar o festival para outros países que não cessa. Fora Estados Unidos, Portugal e Espanha, fala-se agora em levar o Rock in Rio para países do Oriente Médio. Isso não é nada problemático. Se o Lollapaloza começou nos EUA e veio para cá, é claro que o Rock in Rio pode sair daqui e ir pra outros lugares. Mundo globalizado, showbiz, c’est la vie. Só que levar o festival para os quatro cantos do mundo sem trabalhar nessa renovação da linguagem é apenas ser só mais um festival de música. O mundo hoje está lotado de festivais, alguns deles conseguiram a proeza de se transformarem em objetos de desejo (Coachella) e adoração (Tomorrowland), e tem que oferecer muito mais para se destacar na multidão (lembre-se de que eles se multiplicam como gremlins e é muito fácil ser apenas mais do mesmo).

Futuro do Rock in Rio

Sontachi – I Hate Flash/Divulgação

E acho que talvez parte do esforço de levar o Rock in Rio para fora poderia, na verdade, ser convertido em investimento para o Rock in Rio no Brasil, a fim de melhorar o festival pra gente aqui, porque esse festival é nosso, é aqui onde as pessoas se descabelam para conseguir um ingresso, é onde tem gente que construiu toda uma história de identificação. Logo, é pra gente que ele deveria ser feito em primeiro lugar.

Medina, meu bem, vem viajar com a gente, vem ver o que os festivais estão fazendo hoje mundo afora pra pegar um fôlego novo e um ar fresco pra encarar mais 30 anos de Rock in Rio 😉

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

11 comments

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  1. Allan Almeida 29 setembro, 2015 at 14:56 Responder

    Cara, de fato, o rock in rio precisa se renovar.
    Esse ano foi minha terceira edição seguida do RIR e eu curti muito os shows que fui, já estou com saudade, mas ficou uma sensação de saturação em algumas coisas.
    Fórmula repetida.
    Os brinquedos são basicamente os mesmos, os brindes também. A comida é ruim em maioria e cara.
    A organização dos banheiros é ótima, isso, sem dúvidas. No geral, aliás, a organização é boa em questão de filas e compras mas acho que realmente falta um tanto de experiência de festival. Acho que começar o festival às 14h (abertura dos portões) e já engatar uma porrada de shows com 15 a 30 minutos de intervalo fica meio cansativo e também deixa a programação do espectador “engessada”.
    Fora algumas boas surpresas novas no line-up (como Royal blood e Mastodon no palco mundo e Halestorm, Deftones e Lamb of god no sunset – as ultimas duas, inclusive nem são surpresas fora do festival), fica uma sensação de que são sempre os mesmos medalhões fazendo shows parecidíssimos e acompanhados de bandas com menor expressão que o público nem se importa em procurar conhecer.
    O show do Queens of the stone age pra mim foi um baita exemplo disso. Uma boa banda, excelente tecnicamente ao vivo, música animada e público morto com expressões blasé em sua maioria.
    O desafio pro pessoal do medina é o seguinte: a cidade do rock é um espaço construído com áreas pré determinadas, o que dificulta pra fazer coisas diferentes, mas é preciso renovar a cara do festival.
    Salvo exceções, uma foto tirada em 2011, 2013 ou 2015 é praticamente a mesma, o que causa também uma sensação de repetição, mais do mesmo.
    Lógico que isso tudo são coisas menores frente ao line-up, que é o principal.
    Mas se a idéia é entretenimento ALÉM da música, tudo isso são coisas para serem revistas.

    PS: Os shows do sunset são mesmo por diversas vezes mais divertidos que os do palco mundo.
    Acho que o tamanho do palco mundo inclusive, joga contra diversas atrações.
    Um duo como o royal blood ou atrações solo como Rod Stewart ou até a Rihanna, sem parafernálias, cenários nem nada, tem uma imensa dificuldade visual de preencher o espaço de um descomunal palco daqueles. É imenso MESMO e acaba se tornando um adversário em escala de tamanho com alguns artistas.

    • Priscila Brito 29 setembro, 2015 at 19:11 Responder

      Em termos de organização, nos quesitos técnicos, o Rock in Rio realmente se sai bem como você disse, Allan. Tanto que aqui no nosso Festialômetro, que avalia os festivais do ponto de vista da estrutura, o Rock in Rio tem uma nota boa. O que falta mesmo é uma emoção a mais. E isso que você colocou sobre o tamanho do palco mundo é muito pertinente. É grande demais e tem artista escalado pra tocar nele que realmente não dá conta de dominar o espaço…

  2. Aninha✠ (@aniinharj) 29 setembro, 2015 at 16:58 Responder

    Infelizmente notei muitos pontos negativos… Tudo no festival era voltado para patrocinadores! Para quem era VIP o festival estava excelente! Chuva de publicidade para todos os lados, mais stands e menos espaço para o publico geral. A rock street intransitável! Acesso complicado… Chopp caro, quente e difícil de pegar! Filas e mais filas no bob’s… Os brinquedos nem se fala! Em 2013 ainda consegui ir na roda gigante, esse ano, nem isso. A organização do Rock In rio 2015 deixou muito a desejar. Esse ano também tive a oportunidade de ir ao Lollapalooza e fiquei muito feliz com a organização!

    • Priscila Brito 29 setembro, 2015 at 19:17 Responder

      Aninha, você falou uma coisa que eu não tinha pensado: como os stands dos patrocinadores acabam ocupando mais espaço ainda num lugar que já tem espaço limitado (conforme eu pontuei no texto). Difícil! Eu tenho acompanhado o Lolla nos últimos três anos e tenho visto como ele mudou nesse intervalo de tempo. Tem um certo esforço para oferecer novidades e coisas diferentes a cada ano. São detalhes a princípio pequenos, mas que fazem diferença. Espero que continue assim e que o Rock in Rio tome alguma posição a esse respeito também.

  3. Franklin 29 setembro, 2015 at 18:46 Responder

    Excelente post, Priscila, grande review 😉 No post coletivo que fizemos pro Pulso, respondi: “O Rock in Rio poderia aprender a olhar um pouco mais para o futuro como olha hoje para seu passado.” Fico feliz por saber que estamos juntos nesta percepção. Keep going!

    • Priscila Brito 29 setembro, 2015 at 19:22 Responder

      Obrigada, Franklin! Tomara que o Rock in Rio também esteja junto com a gente nessa percepção. Pensar no futuro é uma urgência pra qualquer pessoa/negócio/instituição nesse mundo tão veloz como o nosso.

  4. Fabio Arêas 1 novembro, 2015 at 12:01 Responder

    Na verdade, falando por mim (pois é o meu quarto RIR), o que quero em primeiro lugar num festival como o Rock in Rio, é ter ótimas atrações, um line up bem montado, coisa que esse ano não aconteceu… achei essa edição a mais “blé” de todas q eu fui! Teve toda essa saturação de patrocinadores distribuindo brindes inúteis; esse ano, talvez por está muito repetido, não senti a sensação de “um mundo melhor”, no máximo aquela de “já vi isso antes”! O grande problema do Rock in Rioé que eles (organizadores) descobriram que o festival/disneylândia deles é mais importante que as atrações, não importa se é U2 ou Patati Patatá que irá tocar no Palco Mundo, irá esgotar todos os ingressos (em 2013, p exemplo, tinha gente lá que nem sabia quem era Bon Jovi, estava lá p “pegar uns brindes, tirar umas selfies p fazer a coleta de likes e dizer #eufui”)! Estou muito desesperançoso (nem sei se existe essa palavra rsrsrs) em relação ao RIR 2017, acho que será mais do mesmo (em relação a experiência no festival), além de ser inferior em relação as atrações! Infelizmente… queria muito que alguém da organização lesse esse site (e seus comentários), pois digo isso pq sou apaixonado pelo festival e estou vendo ele se tornar algo que não me motiva a me programar durante um ano, p sair do interior da Bahia só p vê-lo!

    • Priscila Brito 1 novembro, 2015 at 17:13 Responder

      Existe a palavra desesperançoso, sim, Fábio 😉 E te entendo bem. A sensação que tenho é que a organização está muito acomodada. Eles enfiaram na cabeça essa ideia de “maior festival do mundo”, vendem esse rótulo com uma crença e uma convicção que não sei se é ingênua ou mentirosa (porque eu realmente me pergunto se eles acreditam mesmo que o Rock in Rio é o maior festival do mundo), e acham que não é preciso fazer mais nenhum esforço pra sustentar essa condição. Queria muito também que eles vissem os comentários deste e do outro post que fizemos: https://festivalando.com.br/a-experiencia-sintetica-e-um-vacuo-social-no-rock-in-rio/ Existe uma insatisfação, sim, com o festival. Se tem muita gente que ainda vai é por falta de opção. Mas o mercado de festivais está crescendo loucamente, tem um monte de festival gringo chegando aqui no Brasil. Tem que começar a ficar esperto.

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