turismo musical em manchesterPriscila Brito

Turismo musical em Manchester: nos passos dos Smiths, Joy Division e Oasis

Visitar Manchester mexeu mais comigo emocionalmente do que visitar Liverpool. Fiquei meio sem entender de início. O apego que eu tenho aos Beatles chega a ser etéreo. Um sentimento que parece não ser desse mundo, tão maior que tudo. Já minha relação com os Smiths, Joy Division (e o New Order que dele se derivou) e o The Cure (que não é de Manchester, mas entra nesse combo pós-punk) sempre foi mundana, concreta, quase crua de tão real.

Bingo! Aí está a resposta para a minha incompreensão lá do começo. Enquanto os Beatles me pegaram de um jeito que eu até hoje não sei explicar, eu me agarrei a essas outras bandas porque por muito tempo encontrei nelas algum tipo de ressonância daquilo que vinha de dentro de mim mesma. Uma letra ou melodia vindo dessa turma sempre ajudou a deixar tudo mais palpável pra mim.

Lá se vão uns 20 anos desde que minha história com elas começou. Mudei muito desde então, mas ninguém muda integralmente. Tem uma faísca que nunca se apagou daquela menina que se fiou no que cantavam Morrissey (uma pessoa decepcionante hoje, e isso dói horrores), Ian e Robert (que já tinha me deixado mexida um mês antes dessa passagem por Manchester quando vi o The Cure no Rock Werchter). Por isso, essas obras ainda fazem sentido pra mim.

Mais ou menos como tudo o que eu visitei nesse roteiro de turismo musical em Manchester. Os lugares que um dia fizeram parte da história dessas bandas não são aqueles mesmos lugares em sua totalidade. Uns mais, outros menos. Mas ainda faz muito sentido percorrer estes caminhos se o som que vem de Manchester diz algo pra você.  E ainda é uma ótima maneira de circular pela cidade e conhecê-la.

Turismo musical em Manchester: alguns lugares por onde passar

Se você quer saber os endereços que interessam para fazer um roteiro de turismo musical em Manchester, segue:

Lugares citados no texto na sequência:

  • Salford Lads Club, aquele do encarte de The Queen is Dead e no clipe de Stop Me If You Think You’ve Heard This One Before
  • Strangeways, bairro e prisão, referência no título Strangeways Here We Come
  • Haçienda, aquele clube lendário
  • The Boardwalk, clube que recebeu o primeiro show do Oasis
  • Epping Walk Bridge, daquele ensaio fotográfico do Joy Division em 1979

Lugares que não se encaixaram no texto, mas fazem parte da história e merecem entrar em um roteiro de turismo musical em Manchester

  • Manchester Cathedral, também usada como cenário do ensaio de 1979 do Joy Division
  • Manchester Music Walk, calçada com inscrições que remetem a pontos importantes da história musical da cidade
  • Free Trade Hall, onde Tony Wilson viu um show dos Sex Pistols, o que o levou a se tornar o agitador da cena musical de Manchester, que virou o que virou. Hoje o lugar é ocupado por redes de hotéis de alto padrão
  • FAC251, clube que leva adiante o legado de Tony Wilson na antiga sede da Factory Records, gravadora que foi um dos pilares dessa cena toda
  • Sifters Records, a loja de discos citada em Shakermaker, do Oasis

Se você quer história carregada de emoção de fan girl, pode continuar nesta página.

Uma playlist pra acompanhar este roteiro em Manchester

Smiths

Comecei minha peregrinação tecnicamente fora de Manchester, em Salford, considerada parte região metropolitana, mas que tem muito mais pinta de um subúrbio de Manchester. Ou nem isso, já que o tram leva só uns dez minutos pra chegar até lá.

O destino era o Salford Lads Club, popularizado pela foto do encarte de The Queen Is Dead e pelo clipe de Stop Me If You Think You’ve Heard This One Before. Em sua origem, o clube de garotos de Salford foi criado ainda nos anos 1920 para oferecer atividades recreativas para os meninos da região e, com isso, mante-los distantes de arruaças e possíveis contravenções ou infrações.

Fiz uma caminhada de uns dez minutos a partir do hotel em que estava, ali mesmo em Salford. O caminho foi bastante caseiro. Entrei em ruazinhas bem residenciais, pacatas, com alguns adolescentes andando a esmo e crianças voltando da sua escola.

O céu estava nublado, garoava – depois de ter chovido a manhã inteira – e ventava o suficiente pra atrapalhar meu cabelo e meu celular indicar 17 graus. Mas teoricamente era um dia de verão. Numa dessas você já começa a entender porque saiu tanta melancolia daquele lugar. Não é fácil ser feliz com um não-verão desses.

Stop Me If You Think You’ve Seen This One Before

turismo musical em manchester

Da direção de onde eu cheguei no clube, ainda tive que passar por uma ruela pra terminar de chegar no clube, enfim. O único sinal de vida que tinha ali era de uma merceariazinha daquelas típicas de bairro, bem de frente pra casa de tijolos com a placa que todo fã de Smiths conhece.

Enquanto não saía nenhum cliente da mercearia que pudesse tirar uma foto pra mim, fiquei contemplando a fachada. Não é nada, é só mesmo uma construção com uma placa onde um dia aqueles caras posaram pra uma foto que sequer era a principal do disco. Mas aquilo ali ecoou tanta coisa na minha memória que parecia um portal pra outra dimensão. Uma dimensão só minha, que só eu sei como acessar quando começa a tocar There Is Light That Never Goes Out.

Se eu tivesse ido num sábado, teria ido mais adentro nesse portal mágico. É nesse dia que o clube ainda abre as portas para os lads dos arredores e também para os fãs de Smiths, que podem visitar a sala que um dia a banda usou para ensaiar e hoje é uma espécie de memorial com itens do grupo.

Strangeways, here we come

Foto tirada naquele que é o principal ponto de turismo musical em Manchester e o segundo da categoria mais visitado do Reino Unido, perdendo apenas pra Abbey Road, saí de Salford pra cruzar o centro todo de Manchester rumo ao noroeste da cidade. Destino: Strangeways, uma região e também o nome antigo de uma prisão no mesmo local (hoje o nome é HM Prison Manchester).

A área é tão carregada quanto pode ser um lugar que abriga um presídio de segurança máxima. Um bocado ranzinza também, acentuada pelo céu que persiste em ficar cheio de nuvens carregadas. Mas não chega a ser mal encarada.

strangeways manchester

HM Prison Manchester, antiga Strangeways Prison. Peter McDermott/Wikimedia Commons

No meio disso tudo, a prisão parece fora de lugar. Lembra mais um castelo e ninguém que desconhecesse a real função do prédio adivinharia que se trata de uma prisão. Não era o meu caso e a prudência me mandou ir embora daquele lugar que, apesar de dar nome ao primeiro disco dos Smiths que eu ouvi – numa versão em LP porque era mais barata naquela época em que os CDs ainda faziam sentido e um download no Napster era movido a lenha, não me deixou tão confortável quanto o Salford Lads Club.

Nota: Os caminhos da prisão e do rock inglês não se cruzaram apenas no disco dos Smiths. Em 1998, Ian Brown ficou detido em Strangeways por quatro meses cumprindo pena por crime de ameaça. Ele ameaçou cortar as mãos de uma aeromoça durante um voo. Inicialmente ele ficou em uma prisão de menor periculosidade mas, mesmo sob protesto da sua defesa, foi transferido para o presídio de segurança máxima. Lá dentro ele compôs Free My Way, So Many Soldiers e Set My Baby Free.

Madchester

Depois do toró que me levou embora mais cedo pro hotel naquela tarde, no dia seguinte fui pra região de Deansgate e além. A primeira parada era o histórico Haçienda, ou melhor, apenas a fachada do que restou dele.

Aquele que foi um dia lugar pra 24 hour party people e canalizador da Madchester, a cena que se desdobraria no movimento das raves, hoje é um prédio de flats. Destino semelhante ao do The Boardwalk, a poucos metros dali, na descida, à direita. A casa que recebeu o primeiro show do Oasis hoje é um prédio de escritórios. Ao menos uma placa lembra o passado glorioso do lugar.

Joy Division

Seguindo pela Princess Road, principal via nos arredores da Haçienda e que leva para fora dos limites de Manchester, o rumo agora é um dos cenários mais conhecidos onde o Joy Division já apareceu: Epping Walk Bridge, que se tornou icônica depois daquele ensaio fotográfico no inverno de 1979.

É um caminho meio hostil pro pedestre, com vias largas, viadutos e carros em velocidade mais alta. Chegar até a passarela, cuja entrada está quase escondida em um campus universitário, é quase como entrar num vácuo.

A passarela é ampla, vazia, quase deserta. Mesmo com o barulho dos carros passando lá embaixo e o vento forte vindo de cima, ela parece isolada. Me fez lembrar daqueles planos silenciosos, pesados de Control, a cinebiografia do Ian Curtis.

turismo musical em manchester

Já que ninguém passava, coloquei minha bolsa no chão, bem no centro, o celular em cima dela, levemente inclinado, temporizador ligado. Corri o bastante pra ficar a uma certa distância  da câmera. Uma, duas, três tentativas, o vento ora derrubando o celular, ora jogando meu cabelo pro alto, até que o registro saiu por meio da minha estratégia MacGyver.

Se alguém me viu de longe fazendo isso, deve ter pensado “ela perdeu o controle”. Mas por trás desse esforço meio bobo, meio desnecessário de materializar esse momento estão prazeres desconhecidos que só fazem sentido dentro da desordem em mim que essas bandas, há muito tempo, e esta viagem pra Manchester, tantos anos depois, ajudaram a organizar.

Gostou deste post? Temos muito mais pra você!

Receba nossas dicas, histórias e novidades de viagens para os melhores festivais de música do mundo.

Compartilhe este post

Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

No comments

Add yours

Deixe seu comentário