O Primavera Sound é um festival essencialmente urbano. Antes de tudo, porque acontece logo “ali”, no norte de Barcelona, em lugar de acesso fácil e trajeto rápido via transporte público, no Parc del Fórum. Mas também porque ele se espalha por Barcelona nos dias em que não há shows no Fórum, através do Primavera a la Ciutát.

Um festival dentro do festival, o Primavera a la Ciutát, ou Primavera na Cidade, para já se acostumar com a versão aportuguesada que viveremos em São Paulo, em novembro, é uma extensão da programação do Primavera, com shows de atrações do festival em casas de shows e clubes noturnos de Barcelona.

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Em 2022, 14 locais receberam quase 200 shows ao longo de quatro dias entre o primeiro e o segundo fim de semana do Primavera Sound, além de um dia de boas vindas na véspera do primeiro dia de shows no Fórum. Quem tinha ingressos para qualquer um dos fins de semana ou para os dois tinha direito à entrada nos shows (teoricamente, mas você vai entender que não é bem assim). Também foram vendidos entradas avulsas equivalentes a 15% da lotação de cada local para o público sem ingresso.

primavera a la ciutat 2022

Uma oportunidade única em muitas dimensões

Sendo um festival à parte do festival principal, o Primavera a la Ciutát oferece uma experiência à parte também, e ela vem com recompensas únicas. A oportunidade de ver artistas grandes em locais mais intimistas é uma das mais preciosas. Ver o Beck tocar no Razzmatazz para apenas 2 mil pessoas é uma experiência que ou se viveu no Primavera Sound 2022 ou em algum momento em meados dos anos 1990, no início da carreira do músico.

Porém, essa é uma vantagem que pode ter virado história. Na coletiva de imprensa de balanço do festival, os organizadores afirmaram que pode ser complicado repetir o formato deste ano, com artistas grandes na programação do Primavera a la Ciutát.

Mesmo que isso não venha a se repetir, ainda há outras recompensas com seu valor. Ter uma chance a mais de ver artistas cujo show talvez você perdesse em meio à programação abarrotada do fim de semana é o principal ganho. Não consegui abrir espaço para ver a Cassandra Jenkins no Parc del Fórum, mas ela foi a minha prioridade na programação de segunda-feira do la Ciutát.

Por último, mas tão valioso quanto está a oportunidade de circular por Barcelona por lugares que talvez você não passasse em um roteiro turístico tradicional ou redescobrir detalhes de lugares já conhecidos. Eu flanei pelas ruas do bairro Gótico na minha primeira viagem a Barcelona, mas foi só desta segunda vez, graças ao Primavera a la Ciutát, que eu fui perceber o Sidecar em uma das ruazinhas labirínticas da região, justamente o local do show da Cassandra Jenkins.

Nesse ponto, a programação justifica plenamente o seu nome e te faz, de fato, viver a cidade. Propositalmente, a cada dia da programação eu escolhi ir para um ponto diferente, justamente para explorar lugares diferentes de Barcelona.

primavera a la ciutat
Sharon Lopez
primavera a la ciutat
Dani Canto
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Clara Orozco

Imagens de cima para baixo: Razzmatazz, Sidecar e Poble Espanyol

Mas nem tudo são flores nessa Primavera a la Ciutát

Assim como o Primavera Sound no Parc del Fórum tem suas imperfeições, o Primavera a la Ciutát também tem as suas. Como adiantei acima, o ingresso de fim de semana te dá direito aos shows dessa programação paralela, mas não te dá garantia de que você irá assisti-los. A razão é simples: todas casas de shows têm uma capacidade, e ela é (beeeem) inferior ao público do festival. Não cabe todo mundo.

LocalCapacidade
Poble Espanyol5.000
Razzmatazz2.100
Para.lel 621.500
Sala Apolo1.200
La 2 Apolo800
Razzmatazz 2700
Boveda450
La Nau360
Red 58250
Sidecar250
Laut227
Upload212
La Têxtil200
Sala Vol150

De acordo com a organização, cerca de 40 mil pessoas passaram pelas casas de shows no circuito do Primavera a la Ciutát. O público total do festival foi de 500 mil pessoas, sendo uma parcela considerável com os ingressos de um ou dois fins de semana. É claro que a conta não fecha, e é claro que já se sabe de antemão que os locais estão sujeitos à capacidade.

Mas não deixa de ser uma frustração ficar de fora de um show, principalmente porque um dia de Primavera a la Ciutát pode envolver algum estresse e ansiedade:

  • Filas começando a ser formadas três, quatro horas da abertura das casas
  • Entrada por ordem de chegada na teoria, mas com prioridade para VIPs na prática
  • Entrada de público por vezes bloqueada, mesmo com gente saindo dos locais, o que teoricamente liberaria mais gente para entrar
  • Troca de mensagens intensa nos grupos de WhatsApp, com gente informando o tempo todo a situação da fila e da capacidade no lugar X ou Y
  • Necessidade de criar planos A, B e C para o caso de se ficar de fora de algum show

A organização do festival fez a sua parte durante e depois do Primavera a la Ciutát. Durante, criou um recurso no site e no aplicativo do festival que informava em tempo real a lotação das casas. Depois, enviou uma pesquisa de opinião para saber qual o melhor formato de acesso aos shows: ordem de chegada, reserva gratuita para cada show individualmente, venda de ingresso para cada show individualmente, ou um sistema misto, com parte dos ingressos vendidos antecipadamente e a outra parte disponível para quem tem ingressos de fim de semana.

Nenhuma das alternativas é totalmente livre de defeitos nem a ideal, mas é de se valorizar que o Primavera Sound tenha se disposto a ouvir o que o seu público pensa. Como um festival à parte que é, o Primavera a la Ciutát precisa e merece ser preparado com consideração cuidadosa, para continuar entregando uma experiência que, no balanço final, é das mais positivas.

Crédito da imagem principal: Christian Bertrand

Veja nos destaques do Instagram vídeos de momentos e dicas do Primavera a la Ciutat e também dos dois fins de semana do Primavera Sound

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