A onda vem em sua direção. E você sabe que ela pode te derrubar. Vão te dar a mão para voltar para a roda? Talvez não, mas ainda é possível levantar sozinho. A maré, contudo, vai querer te levar embora junto com ela, para o pit? O mar arrebata com violência. Seu corpo contra a água que insiste em te transportar para o lado que ela quer. Gente junta e fluida também avança num redemoinho, te querem no centro do mar?

No epicentro do mosh seu corpo se abala e quase submerge. O embate é inevitável, e desejável? Furo a multidão e saio na outra crista, mas em breve alguém surfa sobre mim, sobre a água, sobre o embolado de pessoas que dançam com vigor. Chego à grade. Logo volto, pois a maré me envolve e pede compania para seguir em direção à areia, e no caminho eu e a onda derrubamos mais alguém.

Para e pensa, vacila e a maré te leva uma vez mais para o ponto de partida, naquela tentativa de transpor o quase instransponível – foi num estalo, longe de onde as ondas rebentam, no intervalo de um festival de metal que percebi essa metáfora discarada. Eu observava o mar como observara o mosh.

ForCaos 2015. Foto: Victor Rasga
ForCaos 2015. Foto: Victor Rasga

O meu encontro com o mar tem sido constante desde o início do Festivalando. Não por acaso,também o encontro com o mosh. Os mares da Dinamarca, Noruega, Suécia, Fortaleza e Rio de Janeiro, os moshs do Roskilde, Aalborg Metal Festival, Inferno, Sweden Rock, ForCaos e Rock in Rio. Em cada um deles há peculiaridades. Mas uma máxima é possível ser retirada desse encontro constante. Na beleza do mar há violência, na violência do mosh há beleza.

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O mar. Wikemedia Commons.

Para o mar e para o mosh, vale espiar antes de se atrever. Ambos exigem iniciação. Para nadar no mosh, é preciso entendê-lo antes. Para moshar nas ondas, é preciso algo mais do que bater pernas e braços.

Diante da violência oceânica e humana, é preciso estudar cada traço, saber aonde entrar. O mar pode te puxar para um buraco do qual será preciso fôlego para sair. O mosh também.
O mar e o mosh compartilham certo movimento. Não só circular, mas aquele de vai e vem, de tensão de superfícies. Compartilham também efeito, e às vezes causa. As pessoas dizem se sentirem energizafas depois de um banho de mar. Eu, contudo, saio do mar drenada. Do mosh, esgotada.

A tal sensação de “alma lavada” também é uma decorrente do encontro com o mar e com o mosh.  Ambos são um convite para o gasto de energia, para depois desencadear o transbordar de conforto com a endorfina. Da calma vem a contemplação. Depois de sair do mar-mosh, você já parou para contemplar o que emana de lá?

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Já pensou que no mar há um mistério, e no mosh também? Muitas vezes não conheço aqueles em que me proponho aplicar a força. Não conheço também o que vou encontrar dentro do mar. E assim como os fundos de areia que a toda hora se movem, remodelam, te engolem e criam espaços inusitados, o mosh também se remodela, ganha novos personagens e movimentos que mudam de acordo com o ritmo tocado, a velocidade da percussão, a intensidade do riff.

Quase a mesma imagem me chega à mente quando penso na saída do mar, na saída do mosh: o corpo caminha para fora, o corpo tem gotículas ( de água salgada ou suor?). O sorriso está no rosto. Às vezes o sangue também está no rosto, um rubro bonito e brilhante. O mar me encanta. O mosh também.

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Gauguin, Paul – Vahine no te miti (Femme a la mer)

*Contribuiu com fotos de “mosh pit” para esse post: Victor Rasga.

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