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No Lolla, tamanho é documento

Maior, muito maior. O Lolla assumiu neste ano contornos de um grandalhão em termos de espaço com a mudança do Jockey Clube para o Autódromo de Interlagos. A intenção da organização era essa mesma, tanto que esta foi uma das novidades mais propagandeadas na divulgação do evento. Como consequência da alteração, o Lolla ganhou mais cara de festival (principalmente para quem preza muito pela experiência proporcionada por espaços de patrocinadores) e perdeu um pouco em funcionalidade (principalmente para quem preza muito mais pelos shows).

Ganhou mais cara de festival no sentido de grande complexo de entretenimento. As áreas dedicadas às ativações de marcas ficaram mais bem distribuídas pelo espaço, dando um ar mais fluido e integrado a esse braço da experiência, bancado pelos patrocinadores e que ajuda a dar a tal cara de festival. Ao caminhar (e caminhar, caminhar, caminhar) pelo Autódromo, fosse em que ponto fosse, ficava claro que não havia ali só um amontoado de bandas tocando. Havia também uma série de atividades suficientes para te ocupar por um dia inteiro, fosse uma pista de patinação, um bar suspenso com vista para a área do festival ou uma loja de discos. Em 2013, no Jockey, os espaços de ativação de marca dos patrocinadores ficaram concentrados em um único ponto, e se você não decidisse explorar a área do festival por conta própria, provavelmente nem esbarraria nesses atrativos extra-musicais.

Perdeu em funcionalidade porque cresceu absurdamente a distancia entre os palcos. Segundo cálculos da Folha de S. Paulo, a distância entre os palcos Skol e Ônix ficou em 700m; entre Skol e Interlagos, 1,5 km; e entre Ônix e Interlagos, 2,5 km.  A caminhada entre um palco e outro poderia levar até meia hora, segundo o jornal. Vamos ser justos com a organização e reconhecer que a justificativa para a distância é bastante coerente e necessária: os palcos ficaram mais distantes para se evitar o vazamento de som entre shows simultâneos.

Mas como não se pode ter tudo nessa vida, o bônus veio com um ônus, principalmente para quem dá preferência aos shows que aos demais atrativos do evento. Se em 2013 a penalidade por assistir o Franz Ferdinand até o final foi perder apenas uma música do Queens of the Stone Age durante o deslocamento de um palco para o outro, este ano eu tive que abandonar shows com uns 15 minutos de antecedência para conseguir ver outros em outro palco. Já no sábado saquei que meu plano de ver metade do Soundgarden, metade do Jake Bugg, para depois partir para o Arcade Fire teria que ser abortado. Na hierarquia que separa meninos de homens, abri mão do Bugg marrentinho, fiquei o máximo que pude com Chris Cornell e deixei algumas músicas para trás para chegar a tempo de ver o Arcade Fire desde o começo. Ver os shows passou a exigir planejamento logístico e certo preparo físico. Sério.

E, claro, onde há mais espaço cabe mais gente. Isso significa uma briga menos insana por ingressos, mas também mais filas, mais lixo (principalmente quando você caminha, caminha e não encontra lixeiras bem distribuídas pelo espaço; atenção produção!) e mais dificuldade de escoamento de público quando a lotação chega perto da sua capacidade total, como aconteceu no primeiro dia de festival neste ano, com estimadas 80 mil pessoas. A dificuldade aumenta mais ainda quando a CPTM, responsável pela administração dos trens e metrôs de São Paulo, não colabora e não amplia o horário de funcionamento do transporte.

Era tanta (TANTA) gente pra ver o Muse que senti cheiro de encrenca e larguei o Matt Bellamy antes do bis para chegar a tempo de pegar o trem e fazer a transferência para a linha verde antes do metrô fechar. Muita gente teve a mesma ideia que eu, e o espreme-espreme na entrada da estação foi inevitável. Quem saiu após o fim do show deve ter pegado um espreme-espreme pior ainda. E quem quis descansar por pelo menos uns dez minutinhos e ir andando com mais calma acabou ficando sem transporte nenhum para voltar pra casa, conforme choveram relatos no dia seguinte.

No domingo, com o autódromo nitidamente mais vazio, me permiti ficar até o fim para ouvir o Arcade Fire fechar o show com “Wake Up”, mas apertei o passo novamente na caminhada até a estação por medo de perder o trem. Sou mineira, isso não pode acontecer. Rá. Mas falando sério, o fato é que achei apertado o espaço de tempo entre o fim dos shows e o horário de fechamento do metrô tendo em vista o tempo de caminhada até a estação e o embola-embola da multidão na entrada da estação, o que torna o processo um pouco mais lento.

Pra encerrar o blá blá blá: maior, o Lolla quis oferecer mais para o público. Conseguiu, mas não sem exigir um pouco mais do seu público também.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

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