hard rock caféUsa-Pyon via Shutterstock

O Hard Rock Café, a memória afetiva rocker e um novo formato de festival

Era 1996 e minha mãe me levou no shopping pra comprar umas roupas. Escolhi um moletom azul marinho com a logomarca do Hard Rock Café London bordada em fios prateados brilhantes. Provavelmente não era original. Eu não fazia ideia do que era esse Hard Rock, mas há muito tempo eu queria uma blusa assim.

Sim, queria porque tinha rock estampado e naquela época eu já havia sido possuída pelo espírito do rock. Mas, principalmente, por causa da maldição capitalista que te faz querer ter uma coisa pela simples e ao mesmo tempo complexa presença de uma marca. Todo mundo tinha! (quer dizer, o fato de eu não ter fazia parecer que todo mundo tinha)

Eu não usei muito a blusa, portanto ela acabou sendo doada. E eu ainda passaria muitos anos sem saber de fato o que era o Hard Rock Café. Fui sacar mais ou menos uns dez anos depois daquele passeio no shopping, quando, em 2005, foi aberta uma filial da rede de restaurantes em Nova Lima, na região metropolitana de BH, e a inauguração virou notícia na cidade.

Ela funcionou por uns dez anos, mas eu nunca fui. Àquela altura a memória que eu tinha da marca já tinha se pulverizado. Afinal, ela sempre tinha sido pra mim isso mesmo, uma marca e nada mais. Além disso, ela ficava num bairro no fim do mundo, o que contribuiu pra que tudo continuasse como sempre foi.

Em 2013, fui pra Londres, onde o Hard Rock Café foi fundado, em 1971. Eu não sabia disso na época e mesmo que soubesse não teria feito muita diferença. Não só pela fragilidade da lembrança que eu tinha, mas porque, musicalmente falando, só queria saber dos Beatles em Londres (se eu soubesse que o Paul havia feito um show de esquenta pra turnê do Wings de 1973 no restaurante da Old Park Lane talvez eu tivesse dado alguma atenção…).

Corta pra 2017.

Eu estava em San Diego aproveitando uma folga do meu fellowship, andando aleatoriamente pelo centro da cidade. Até que eu vejo um Hard Rock Café na esquina. Foi como se eu tivesse de repente voltado pra algum lugar dos anos 1990, pois no meu imaginário era lá que o Hard Rock tinha ficado.

Já tinha passado da hora do almoço e eu não tinha comido ainda. O único restaurante que tinha me chamado atenção era um lugar chamado O Rei do Gado – assim mesmo, em português, um motivo a mais pra eu achar que eu tinha mesmo voltado pros anos 1990. A churrascaria não era uma opção pra mim. Então, quando vi o hambúrguer vegetariano no cardápio disponibilizado na entrada do Hard Rock, decidi que era ali mesmo que eu iria comer.

Memória afetiva

Enfim, exatos 21 anos depois daquela blusa fake comprada num shopping de BH, muito prazer, Hard Rock Café. Senti estar entrado num lugar muito familiar lá em San Diego. Tinha um top usado pela Madonna num canto, uma guitarra autografada pela formação clássica do Guns em outro.

Nas TVs de plasma passava “I Think I”m Paranoid”, do Garbage, com a Shirley Manson usando o vestido de poá que eu era louca pra ter em 1998. Na sequência, um monte de clipes que eu via na MTV depois que chegava da escola. A MTV, meus CDs (e mp3), minhas referências, tudo junto num lugar só.

Enquanto eu comia o hambúrguer veggie de couve-flor, tudo começou a fazer sentido. Aquela marca se converteu em um museu de muitas boas memórias de quem um dia eu fui e acabei me tornando. Não dá pra entrar em detalhes, mas o fato é que algumas decisões importantes da minha vida, bem pensadas ou não, foram de certa forma influenciadas pela minha relação com a música.

Sem a longa demora desse primeiro encontro, o retorno a um Hard Rock Café levou só um ano. Procurando coisas relacionadas à música pra fazer em Curitiba durante a viagem que eu e Gra fizemos para o Coolritiba, descobri que a cidade tem uma filial, a única do Brasil no momento.

Entre pôsteres do Arctic Monkeys, Alice Cooper e o figurino da Britney em “Baby One More Time”, tomei um drink chamado Fruitapalooza (significa?). Juntas, vimos clipes do Rammstein intercalados com Lady Gaga e pagamos de rock star no fim da noite.

hard rock café curitiba

O resto é história (do Hard Rock Café)

Pra chegar ao ponto de ter sua marca replicada em um moletom de uma loja aleatória de BH, o Hard Rock Café percorreu uma longa história. Quase tão longa quanto esta que contei. Foi fundado em 1971, em Londres, por dois norte-americanos que sentiam falta de comer um hambúrguer como o dos Estados Unidos.

Em 1979, já tinha entre seus clientes mais assíduos Eric Clapton. Naquele ano, ele entregou ao dono uma de suas guitarras. O músico queria que o instrumento fosse colocado sobre o seu assento habitual para marcar seu lugar. Assim começou a formação da memorabília que hoje é uma das marcas da rede e soma mais de 80 mil peças distribuídas pelos 200 restaurantes em 68 países.

E o que os festivais têm a ver com isso?

Além da rede de restaurantes, a marca Hard Rock hoje também inclui hotéis e resorts all inclusive. Nos hotéis, há todo um clima rock star lifestyle. Tem playlists para os hóspedes, seleção de vinis, aulas de guitarra (com modelos Fender) e outros serviços inspirados na porção mais mainstream e extravagante da cultura rock.

Em alguns deles, os festivais completam o “cardápio”. No resort da Riviera Maya, no México, são cativos o Rock Getaway, One Big Holiday (cujo anfitrião é o My Morning Jacket) e Cancun Jazz Festival. No hotel de Las Vegas (que também é um cassino), o festival “residente” é o Psycho Las Vegas.

Espero não precisar de mais outras duas décadas para conhecer essa nova vertente do Hard Rock.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

6 comments

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  1. Renan Esteves 14 maio, 2018 at 05:21 Responder

    Aqui no Rio também tinha um Hard Rock, mas teve o mesmo fim da unidade mineira. Eu sei que essa unidade de Curitiba foi inaugurada em 2015 e é a única do Brasil. Lendo essa sua matéria sobre o Hard Rock Café, aqui no Rio o Medina criou o Rock In Rio Café, que foi inspirado nesse modelo do Hard Rock. Foi criado em 1997 e teve Slash e Iron Maiden participando da festa de inauguração, além de ter rolado um show do Jon Bon Jovi naquele mesmo ano. Mas tempos depois o lugar fechou, pois era muito sofisticado e começou a dar prejuízo.

    • Priscila Brito 14 maio, 2018 at 15:54 Responder

      Acho que o problema do Rock in Rio Café foi timing, pois 1997 coincide com o hiato do festival. Ele tinha acontecido pela última vez em 1991 e só voltaria a acontecer em 2001. Se o mesmo empreendimento fosse lançado hoje, com o RIR em plena atividade nos últimos anos, o resultado poderia ser diferente.

  2. Renan Esteves 14 maio, 2018 at 18:36 Responder

    Concordo com você. Depois de 2001 nunca mais ouvi falar nele. Nem me lembro quando fechou, mas deve ter sido no meio da década passada. Além do lugar ser longe e de atingir um poder aquisitivo bem acima de toda a população carioca. Pelo lugar ser sofisticado demais, acabou sendo um tiro no pé do próprio dono. O tiro de misericórdia veio quando ele resolveu tirar o RIR da gaveta, aí o RIRC babou de vez.

    • Priscila Brito 15 maio, 2018 at 10:01 Responder

      Em BH a localização também foi um dos grandes problemas (tecnicamente, nem em BH era e sim em Nova Lima, na região metropolitana). Tanto que o shopping onde era o Hard Rock Cafe também acabou não dando certo. O de Curitiba já não tem esse problema, pois é bem central, mas o preço é alto.

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