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Como ir a Wimbledon e ver jogos com menos de 50 libras

A partida era Federer x Nishikori, na quadra central de Wimbledon, válida pelas quartas-de-final do torneio 2019. No assento 117 da fileira 304, no corredor R, eu era uma das espectadoras. Eu finalmente havia realizado o meu sonho de ir a Wimbledon, e com louvor.

O ingresso que me garantiu acesso à partida estampava o preço de 15 libras, enquanto o valor oficial da bilheteria era 160 libras. Horas antes, eu havia pagado 20 libras para entrar no All England Lawn Tennis Club (AELTC). Ou seja, gastei, no total, 35 libras para ver Federer bater Nishikori por 3 sets a 1 na grama sagrada da principal quadra do clube.

Bônus point: eu ainda levei de brinde uma partida de exibição da Navratilova, que foi anunciada após o fim de Federer x Nishikori. Ela fez um 2 a 0 em um dupla com Cara Black, jogando contra Ai Sugiyama e Mary Joe Fernandez.

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Parece sorte, alguém pode até achar que foi jeitinho, mas não é nada disso. É simplesmente um dos jeitos de conseguir ingressos para Wimbledon conforme as regras estabelecidas pelo AELTC.

De todas as formas possíveis, essa da minha experiência em Wimbledon é a mais barata de todas, definitivamente. Mas é uma das mais exaustivas também. Há um preço pra tudo, ainda que não necessariamente monetário, não é mesmo? Mas a recompensa supera todos os custos materiais e imateriais do caminho, eu garanto.

Como conseguir ingressos para Wimbledon

Há algumas formas de se conseguir ingressos para Wimbledon, mas vou me limitar a listar somente aquelas em que há respaldo direto do AELTC.

1. No dia dos jogos

Este é o caminho mágico que me levou para a quadra central onde Federar jogava as quartas-de-final. Ou seja, é o jeito de conseguir os ingressos mais baratos. Vou explicar em detalhes, no próximo tópico, como funciona este método.

2. Public Ballot

O Public Ballot é um sorteio que te dá direito a comprar no máximo dois ingressos pelo preço oficial da bilheteria para as quadras central, 1, 2 e 3. Os valores variam de 40 a 225 libras (tendo 2019 como referência). Preste bem atenção: os sorteados ganham a chance de comprar o ingresso e não os ingressos em si.

Para participar do sorteio é preciso se registrar e depois completar a inscrição no site oficial do Ballot nas datas determinadas, normalmente a partir de setembro. O sorteio acontece nos primeiros meses do ano seguinte.

Não exige esforço nenhum, é fato, mas requer muita sorte, planejamento e alguma dose de resignação. Antes de tudo, é preciso que você seja sorteada para comprar os ingressos. Se você tiver essa sorte, tem que obrigatoriamente comprar o ingresso à vista dentro do prazo determinado, do contrário uma outra pessoa será sorteada no seu lugar.

Mais que isso, você tem que obrigatoriamente comprar o ingresso que lhe foi designado. Em outras palavras, você não pode decidir se vai comprar para a final feminina ou para a primeira rodada de duplas. Tudo é pré-determinado pelo sorteio.

E, uma vez comprado o ingresso, ele não pode ser revendido. Sendo assim, você precisa estar com a viagem para Wimbledon assegurada, do contrário, vai arcar com o prejuízo do ingresso.

3. Ingressos de debêntures

É possível comprar ingressos diretamente dos membros do AELTC, os chamados ingressos de debêntures, os únicos cuja revenda é autorizada. Neste caso, é possível, sim, escolher para qual quadra e para qual fase da competição você quer o ingresso.

Além disso, por serem ingressos destinados inicialmente aos membros do clube, eles têm muitas vantagens. São os que garantem os melhores lugares, acesso a lounges exclusivos e lugares reservados em todas as quadras secundárias. Mas é claro que tudo isso tem um preço e ele não é pra qualquer um. Eu diria até que não é pra quase ninguém.

Só como exemplo, há ingressos para o torneio de 2020 sendo vendidos por 510 libras (quadra central, duplas), 1.280 libras (quadra central, quartas-de-final feminina) e até 8.210 libras (quadra central, semi-final masculina).

Como ir a Wimbledon e ver jogos do jeito mais barato

Para conseguir ir a Wimbledon e ter a chance como a minha de ver uma lenda do nível de Federer na quadra central pagando pouco é preciso batalhar pela cota de ingressos que é reservada pelo AELTC para ser vendida em cada dia do torneio.

São dois tipos de ingresso que se pode comprar no dia:

  • Os Ground Tickets, baratos e praticamente garantidos, pois são milhares por dia. Exigem algum esforço e planejamento para se conseguir
  • Ingressos para as quadras central, 1 e 2, em número bastante limitado, que podem ser comprados pelo preço de bilheteria (com bastante sacrifício e espera) ou por um valor irrisório (com ainda mais sacrifício e espera)

Mais detalhes importantes sobre cada um deles:

1. Ground Tickets

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Eles te dão acesso às áreas de livre circulação do clube e também a assentos não reservados nas quadras de número 3 a 18, conforme disponibilidade de lugares (há filas de espera em cada quadra quando elas estão lotadas).

Não há oficialmente um número exato de Ground Tickets. Sabe-se apenas que a capacidade do clube é de 39 mil pessoas e que os Ground Tickets representam alguns milhares desse total. Nesses 39 mil é preciso incluir também quem já tem os ingressos garantidos, membros do clube, convidados, etc.

Os Ground Tickets vão ficando mais baratos conforme vai avançando o torneio, já que a quantidade de jogos também vai diminuindo. Eles custam 25 libras até as oitavas-de-final, 20 libras nas quartas, 15 libras nas semi e 8 libras na final (valores de 2019).

2. Ingressos para as quadras principais (central, 1 e 2)

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Há 500 ingressos por dia de competição para as quadras central, 1 e 2 sendo vendidos na bilheteria. A distribuição entre as três quadras varia conforme o dia. Para as quadras central e 2, há ingressos disponíveis somente nos primeiros nove dias (até as quartas-de-final). Para a quadra 1, há ingressos todos os dias.

Os preços na entrada variam de 40 a 225 libras (valores de 2019) conforme a fase da competição e a quadra. Lá dentro é onde a mágica acontece: eles podem ser comprados por 15 libras (quadra central) e 10 libras (quadras 1 e 2).

Para comprar os Ground Tickets e os ingressos diários para as quadras central, 1 e 2, há um único caminho: enfrentar “A Fila” na entrada do clube. Assim mesmo, em maiúsculas – falo melhor sobre essa entidade de Wimbledon no box cinza mais abaixo. No caso específico dos ingressos de 15 e 10 libras, é preciso enfrentar “A Fila” da entrada e depois uma segunda fila no interior do AELTC.

As duas filas: “A Fila” da entrada e a fila de revenda

Como manda a lógica, se há uma fila na entrada, os ingressos disponíveis são vendidos respeitando a ordem de chegada. E se há apenas 500 ingressos por dia para as quadras principais, isso quer dizer que é preciso estar entre os primeiros 500 da fila para garanti-los já na entrada.

Isso implica ter que chegar cedo na fila, cedo podendo significar 4 da manhã ou mesmo passar a noite toda acampada esperando pelo dia seguinte. Tudo depende da fase da competição e das estrelas que vão jogar em cada dia. Independentemente da sua escolha, saiba que a entrada no clube só ocorre a partir das 10h30 e os jogos não começam antes das 11h30.

Uma vez esgotados na bilheteria os 500 ingressos do dia para as quadras central, 1 e 2, começam a ser vendidos os Ground Tickets. Se você só conseguiu o Ground Ticket e quer muito ver um jogo na quadra central, 1 ou 2, o último recurso é ir para a fila de revenda, em uma bilheteria localizada dentro do clube, onde são revendidos os ingressos a 15 e 10 libras.

A revenda ocorre porque, embora os ingressos de uma quadra sejam válidos para todas as partidas que ocorrerão nela naquele dia, há quem queira ver somente uma partida. E quando ela termina, a pessoa deixa a quadra, liberando um lugar. Essa saída é registrada e imediatamente identificada no sistema de revenda, disponibilizando um ingresso baratinho para ser revendido.

Importante

Os ingressos só começam a ser revendidos nessa bilheteria a partir das 15h. É óbvio dizer, mas isso significa que só é possível comprar ingressos baratinhos para as partidas do período da tarde. Mesmo assim, a fila já é formada logo quando as pessoas começam a entrar no clube, por volta das 10h30.

Outro ponto pra se ter em mente é que, como não há regularidade na liberação dos lugares, você pode conseguir o ingresso a qualquer momento do andamento de uma partida, então talvez não seja possível ver a partida do começo ao fim.

No dia em que estive em Wimbledon, a programação da quadra central era Djoko x Goffin e Federer x Nishikori. Entrei no clube, rodei um bocado, vi um jogo do juvenil e parei no Henman’s Hill para ver Djoko e Goffin.

Quando acabou o primeiro set, fui para a fila, que já estava grande. Nada da fila andar nos dois sets seguintes. Pelo menos, Djoko ganhou fácil a partida, o que reduziu um pouco meu tempo de espera. Quando Federer e Nishikori começaram a jogar, a fila foi andando bem ao longo do primeiro set. Minha vez chegou aproximadamente na metade do segundo set.

Depois de comprar o ingresso e me deslocar para a quadra central, ainda tive que enfrentar uma última fila menorzinha já no corredor do setor do meu ingresso. Você só pode ir para o seu lugar nos intervalos entre os pontos.

Quando cheguei, a bola estava em jogo e muita gente que havia ido no bar, banheiro ou acabado de chegar esperava para entrar. Peguei um restinho do segundo set e os dois sets finais da partida.

A Fila

Esqueça tudo o que você sabe sobre filas. Não existe fila mais organizada, sistematizada e civilizada que “A Fila” de Wimbledon.
 
Assim como muita coisa na Inglaterra, tudo em Wimbledon é uma grande tradição – o clube, a grama, o uniforme branco, o torneio. Pois adicione a essa lista “A Fila”, tradição que começou nos anos 1920, portanto, um costume centenário no qual as pessoas se organizam na entrada do clube para conseguir os ingressos disponibilizados no dia, diretamente na bilheteria.
 
E, como toda tradição, “A Fila” é cheia de regras, protocolos e códigos de conduta que precisam ser cumpridos estritamente. Ela tem dia e hora para começar e um guia de etiqueta de mais de 30 páginas. Ao chegar n’A Fila, você recebe um guia (um guia da fila!!) e um cartão numerado para indicar seu lugar, que é checado a todo momento. Há barracas de venda de bebidas, banheiros e promotores de marcas distribuindo amostras grátis de bebida, algum snack doce ou salgado.
 
ingressos para wimbledon
 
Dezenas de funcionários estão lá para vigiar e organizar a fila, de ponta a ponta. O final é marcado por um desses funcionários, que segura uma bandeira amarela com um “Q” gigante (“q” de queue, fila em inglês).
 
É muito mais que uma simples fila.

Planejando-se para ir a Wimbledon

Tudo é uma grande atração dentro de Wimbledon com o torneio rolando. Tem muitos bares, música ao vivo, algumas ativações de marca (inclusive pra galera que está na fila), a loja oficial, o museu. Fora os jogos, claro. Por isso, é interessante planejar bem a visita para tirar proveito de tudo com tranquilidade.

Chegue cedo de qualquer jeito

Se você só tiver um dia livre para ir a Wimbledon, chegue cedo na fila para ter tempo de aproveitar tudo. Para conseguir entrar no clube entre as 10h30 e 11h é preciso chegar na fila até umas 7h – eu cheguei umas 6h30 num dia de quartas-de-final e fui o número 2.248. Fiquei até por volta das 20h, quando as atividades se encerram.

O processo de entrada é um pouco demorado, pois há revista e a parada na bilheteria para comprar os ingressos. Quanto mais próximo do fim da manhã, maior vai ficando a fila, mais cheio vai ficando o clube e, a partir daí, é preciso respeitar a lotação máxima do local.

Uma vez que ele está cheio (com as pessoas que estavam na fila e também com as que já têm os ingressos diretos, fora convidados, etc), só é possível entrar gente quando sai gente. Pra quem chega mais tarde, Isso torna o tempo de espera na fila ainda maior e vai reduzindo o tempo livre lá dentro.

Um dia é bom (e pode ser épico), mais que um é ainda melhor

Eu fui em apenas um dia e foi épica a minha experiência. Mas eu certamente voltarei em Londres para ir a Wimbledon em mais de um dia, pois acho que cada fase da competição proporciona momentos diferentes tendo em vista as possibilidade de ingresso pra se conseguir no dia e as demais atrações do clube.

Pense estrategicamente no(s) dia(s) que você vai

A primeira semana tem uma enxurrada de jogos, enquanto a segunda tem menos partidas, porém há mais probabilidade de só ter as lendas jogando entre si – indicativo de partidas mais memoráveis. Há bons motivos para ir nos dois momentos; pense no que tem mais apelo para você.

Informe-se sobre “A Fila”

Uma vez decidido em que dia você vai, e dependendo dos seus planos, é bom se informar sobre o estado da fila externa. Para isso, existem contas não oficiais no Twitter que dão atualizações periódicas sobre o tamanho d’A Fila e a quantidade de pessoas esperando em cada dia do torneio.
Na fila de revenda, pague pra ver (em todos os sentidos)

A fila de revenda de ingressos pode tomar boa parte do seu tempo lá dentro. Isso não é um problema desde que você esteja de fato determinada a conseguir um ingresso. Sendo assim, só fique nela se você quiser mais do que tudo ver uma partida ou tenista em especial nas quadras principais. E, uma vez que decidir, fique até o fim de todas as possibilidades.

Enquanto eu esperava na fila, alguns voluntários do clube conversavam com a gente de modo a evitar a criação de expectativas. Alegavam que, como a partida do Djoko estava fluindo muito rápido, quem queria ver o Federer provavelmente ia perder o jogo inteiro até os ingressos começarem a ser liberados. Muita gente que estava na minha frente e atrás de mim acabou desistindo. Eu paguei pra ver (em todos os sentidos) e no fim acabei vendo mais da metade da partida.

Ao mesmo tempo, é preciso ter sensatez. Como os ingressos não são liberados antes das 15h, entrar na fila com a expetativa de conseguir um ingresso para uma partida que começou às 14h não tem muito sentido. A lógica é focar nas partidas que começam depois das 15h.

Detalhes práticos

Se você pretende ir a Wimbledon via “A Fila”, vá de metrô pela District Line (a linha verdinha) e desça na estação Southfields. A estação em si já te deixa no clima, pois fica toda decorada com elementos de Wimbledon. De lá são menos de dez minutos de caminhada até a fila e há sinalização por todo o caminho. Não tem erro.

A fila tem wi-fi aberto. Dentro do AELTC, há bebedouros, banheiros por todo o lugar e bares e restaurantes com preços para todos os bolsos. Mas você também pode levar comida e bebida (inclusive alcoólica), desde que respeitadas as quantidades pré-estabelecidas.

É preciso também respeitar o tamanho máximo de bolsas (40cm X 30cm X 30cm) e a lista de itens proibidos. Cartão e dinheiro são aceitos e há caixas eletrônicos dentro do clube. Todos os detalhes e políticas atuais no site oficial.

Match point!

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

2 comments

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  1. Renan Esteves 26 novembro, 2019 at 21:21 Responder

    Priscila, conhece algum site ou algúem que conseguiu ingressos em conta para o US Open? US Open é um torneio muito cobiçado por mim, principalmente pelo grande fato das finais, na maioria das vezes, acontecerem na data do meu aniversário. Imagina você se presentear com um ingresso de qualquer Slam que seja, justamente na data do seu aniversário?

    • Priscila Brito 27 novembro, 2019 at 10:43 Responder

      O que eu sei do US Open é que o qualifying é aberto ao público e que tem Ground Tickets também (não é a mesma coisa que ver as partidas, mas já dá um gostinho). Mas nunca pesquisei a fundo sobre como visitar.

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