Antes de entrarmos na nossa boa notícia, de que existem festivais contra o racismo no metal, é preciso fazer um pequeno preâmbulo, pois a ocasião pede. Boa parte da comunidade heavy metal é racista, machista e homofóbica. Sim, EM GERAL É. E não só as experiências pessoais dizem isso. Uma leitura mais perspicaz dos produtos culturais que circulam no meio já dá boas pistas. Olhe as capas de revistas e cds para ter algumas pistas. O número dos que ignoram a discussão, dos que acham que foi só uma brincadeira e também de quem apoia o racismo, abertamente, é um bom indício, também. Exemplo não falta em comentários na internet.

E não adianta tampar o sol com a peneira. Aliás, as coisas têm começado a ser descortinadas recentemente, ganhando grande repercussão. Foi no episódio da última Dimebash (jam e celebração em memória de Dimebag Darrel, guitarrista [foda!] do Pantera, assassinado durante um show), que Phil Anselmo, ex-vocalista do Pantera, à frente da Down, Superjoint Ritual e Philip and the Illegals resolveu nos fazer o ‘favor’ de colocar essa questão em pauta. Phil Anselmo foi um babaca – ainda amo o Pantera e tudo que a música da banda me proporcionou. Mas o Pantera não é o Phil. Ainda me debato muito entre gostar de certas músicas e não gostar dos musicistas que as produziram. Parece que mais um entrou para essa minha lista de desafetos mal resolvidos.

Nesse momento, vejo de forma positiva o que ocorreu, pois é mais uma oportunidade para levantar várias coisinhas escondidas nos escombros e catacumbas metálicas. Dentre elas, os preconceitos. Muita gente fala que estamos fazendo uma tempestade num copo d’água. Mas olha, não estamos não. A declaração de Phil é grave, vai contra os Direitos Humanos, é sim demonstração de opressão e racismo – por favor, sem essa aqui de que não se dá a mínima quando gritam “black power” – estude a história das comunidades negras no mundo e você  vai se deparar,na maioria das vezes, com escravização, subjugação, desrespeito, desprezo, preconceito. Os brancos não têm sido oprimidos massivamente como os negros, nem de longe! Por isso, “white power” é opressão, e “black power” é libertação. Se não deu pra entender, a gente desenha, também.

A coisa boa é que nem toda a comunidade heavy metal é tosca. Então, aquela generalização do início fica amenizada aqui. Mas só amenizada, pois ainda acho que ela representa boa parte da realidade. Em 2014, descobrimos que existe um projeto, uma organização contra o racismo no metal. Descobrimos isso durante um festival desse gênero musical, e ainda que os próprios festivais eram apoiadores do projeto, assim como bandas, pessoas, artistas, zines, websites. Metalheads Against Racism é uma iniciativa fantástica (ou era para ser, já que andam meio parados) que veio dizer que não, não aceitamos esse tipo de coisa e não achamos legal essa palhaçada! Infelizmente, desde 2007 o site da organização não é atualizado, devido ao grande volume de trabalho, e por ainda ter poucas pessoas envolvidas no desenvolvimento da ação. Entretanto, o site está no ar e os apontamentos são válidos:

Na primeira página, afirmações simples de quem tem o conhecimento mínimo da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

“Unindo Metalheads contra o racismo, nós declaramos:

1. Nós acreditamos que todos os seres humanos são iguais.

2. Nós acreditamos que o multiculturalismo não é anti-natural e nem perigoso.

3. A Cena Metal não está aberta àqueles que propagam a idéia que alguns povos são inferiores a outros devido à sua raça ou cultura. Nós não permitiremos que o Heavy Metal transforme-se num fórum para suas visões racistas”.

E na lista de quem concordou e assinou embaixo estão os festivais Wacken Open Air, nosso queridinho metálico da Alemanha, o suíço Back to Rock, o antigo Celtic Metal Festival da Áustria, e algumas bandas importantes como Eluveitie, Hirax, entre outros mais de 500 membros – bom, 500 é expressivo. Mas, sério mesmo que é só isso no mundo todo? Aí ficam algumas impressões: ou de que os metalheads são de fato preconceituosos, ou de que não gostam de se posicionar.  Até quando, queridxs? Mas, também tem o problema da atualização do site. Acho a ideia muito boa para ficar parada, e realmente espero que resolvam o problema.

Além de colocar o banner do projeto em algumas de suas páginas, os festivais também cedem espaço para que os militantes possam entregar panfletos e divulgar as ações, que são muito necessárias, pois o preconceito está, sim, no meio. Eu mesma já levei um “sua latina”, com intenção de desacato durante um festival na Europa.  Mas saí sambando na cara da pessoa, pois é lindo ser latino-americana!

Se você acha toda essa movimentação desnecessária e talz, dê só uma olhadinha nos arquivos de “hate mail” que a galera do Metalheads Against Racism recebeu em seu tempo de atuação. Babe, não é pouca coisa, não. Dê um sacada aqui.

Outras iniciativas têm aparecido, em reação ao episódio protagonizado por Phil Anselmo. Ontem, colocaram no ar uma petição para tirar o show da banda Down, um dos projetos musicais no qual Phil Anselmo está a frente, do line up do Download Festival, um dos muitos festivais em que o vocalista vai [mesmo?] dar o ar da [graça?] esse ano.  Eu assinei, pois acho que ficar fora de um grande festival é uma penalidade mínima para o tio Phil. Na verdade, fiquei abismada pelo fato de que a petição continha apenas 340 e poucas assinaturas até o momento que me juntei ao coro.  Caso  isso seja importante para você, aqui está o link para assinar a petição.

Espero que os metalheads pelo mundo possam se posicionar com relação a isso, e lutar contra essa vergonha que é o racismo, seguindo o exemplo dos grandes festivais que aderiram à campanha. Na verdade, é muito fácil se associar. Vai lá na página do Metalheads Against Racism e manda um email para o endereço indicado por eles. Qualquer pessoa pode fazer isso. Já os websites, webzines e outras mídias podem baixar o material de divulgação também no site do projeto, como fizemos aqui:

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Mas, me parece que agora o lance é pressionar para que eles voltem à ativa, ou então, colocar em prática uma iniciativa similar, pois é mais do que importante nesse momento! A página do projeto no facebook também continua no ar.

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