Voluntário no Roskilde Festival. Official press Roskilde/Photo: Andreas Houmann

Como é ser voluntário em festival #1

Pelo que se vê escrito por aí, todo mundo parece achar que ser voluntário em festival é moleza, que é só ir lá, ser sorridente , trabalhar pouco e ganhar o ingresso. Confesso-lhes que até nós tendíamos a pensar que era mais ou menos assim. O que acontece, no entanto, é que eu e a Pri ficamos um pouco preocupadas com a propaganda irrestrita de incentivo à essa prática sem testar, sem viver essa experiência para contar para vocês. Escrever um guia “como é ser voluntário em festival ” a partir dos releases ou informações que os próprios festivais fornecem é de boaça. Quero ver acordar com chuva às cinco da matina e ir catar lixo feliz (sqn) sentindo o “Orange feeling” dos resíduos de pelo menos 50 mil pessoas residentes na área de camping de um Roskilde da vida…

Essa é a história da minha vida essa semana no Roskilde Festival 2015. Decidi fazer parte da comunidade de mais de 30 mil voluntários que fazem com que o festival aconteça todos os anos. A partir de agora você vai ter um relato honesto e bem vivido de uma experiência e tanto – que está longe de ser fácil, e bem perto de ser muito legal. Mas só dá para saber quando chegarmos ao fim! Vou contar primeiro como é o processo, desde o momento da candidatura ao voluntariado, até o momento em que você é aceito, assim como todo o treinamento pelo qual você tem que passar. Ao fim da experiência vamos trazer um segundo post para te contar como foi tudo isso.

Ser voluntário na Roskilde é motivo de orgulho para muita gente. Conversei com pessoas mais velhas que estão aqui como voluntárias e elas encheram a boca para falar “eu construo esse festival há anos”. Há também uma grande cultura do trabalho voluntário no país, o que faz disso ser algo meio que óbvio para um dinamarquês fazer. Aliás, muitos dos voluntários eram dinamarqueses. O Roskilde é o festival mais antigo e um dos maiores da Europa, portanto, há um grande carinho com esse produto nacional e uma enorme vontade de fazer ele inesquecível para muita gente.

Não só por esse motivo, no entanto, decidimos experimentar o voluntariado na edição do Roskilde de 2015. O fizemos pois também é sabido que o ingresso para o festival custa caro pra caramba e, além disso, ser voluntário em festival é uma prática muito comum entre os jovens europeus. Assim, o que não falta é conselho falando para você ser voluntário e vir para os festivais de graça – o que não quer dizer que seja ruim, por favor, não queremos aqui cortar o barato! Porém, é preciso ponderar muitas vezes sobre essa decisão. Ser voluntário no Roskilde exige muita responsabilidade, comprometimento e pontualidade, afinal, você vai trabalhar com os reis da organização… e acho que não é só aqui que devemos ter nosso comprometimento. Seja no Roskilde ou num festival do Brasil, a tarefa de ser voluntário deve ser tratada com seriedade.

Como se não bastasse o grande desafio, ainda escolhi ser voluntária em uma área que considero o calcanhar de aquiles do Roskilde Festival: lixo! O lixo do Roskilde nos incomodou muito, tocou a nossa alma! Afinal, é chocante ver uma nação de primeiro mundo desperdiçar tanto e fazer tanta zona num lugar só! Entendo que todo mundo quer esquecer da vida no Roskilde, mas como que esse povo consegue acampar nesses chiqueiros, gente? pois vira chiqueiro, ainda mais quando chove e vem a lama!

Pois bem, coração festivaleiro valente que sou, procurei por uma vaga no time da limpeza e reciclagem, Se é para brincar, então brinca direito e contribui com alguma coisa, né não? Escolho ser voluntária com o time ReAct, que mantém, organiza e gerencia 12 estações de reciclagem espalhadas pelo camping do festival. Vou contar passo a passo agora como é isso.

Photo: ReAct official group

Photo: ReAct official group

Como se candidatar para ser voluntário no Roskilde?

A primeira coisa que você deve ter em mente é uma área de afinidade – seja pelo fato de você ter certa experiência em tal área, ou por ser algo em que você realmente gostaria de trabalhar, afinal, alguma coisa boa vai ter que existir no fato de você ficar no mínimo 4 dias trabalhando enquanto todos os demais estão curtindo o tal do orange feeling na alta. Tendo isso em mente, vá para o site do Roskilde,acesse aqui o link para se registrar no cadastro geral de voluntários. É importante saber que, se candidatar em uma determinada área não vai garantir que você consiga ser voluntário nela. Tudo vai depender da demanda e ordem de chegada.

Nesse cadastro vão te pedir email e um telefone para contato. Não pedem mais que você tenha um CPR, que é tipo um cpf, um registro de cidadao aqui na Dinamarca. Porém, não se pode fazer qualquer tipo de trabalho na Dinamarca sem esse número. Portanto, você só poderá ser voluntário no festival de fato caso tenha a permissão de residência no país com o visto para trabalho ou estudos.

Logo em seguida,você vai marcar suas áreas de prioridade e quanto tempo de trabalho você espera/ deseja dedicar ao festival, antes, durante ou depois, ou em todos os momentos, caso você seja muito loki ou tenha aquele super espírito voluntário.

O que acontece quando sou aceito?

Uma vez aceito, você vai receber um email da organização, bem como do projeto que decidiu te ter como voluntário. Geralmente, é enviada uma carta de apresentação do projeto, em que você começa a se familiarizar com ele. Os projetos também costumam manter grupos fechados no Facebook, onde divulgam-se muitos avisos importantes.

 

Mas não é só isso. Você precisará se qualificar dentro das funções que for desempenhar, além de se informar de uma maneira geral sobre regras e comportamentos esperavountario e-learningdos de um voluntário no Roskilde. Você vai ter um curso on line geral sobre como ser voluntário e como agir em determinadas situações. Esse curso geralmente é composto por vídeos e por uma provinha on line. No meu caso, além desse curso também tive que dedicar pelo menos 4 horas do meu dia para fazer um curso sobre reciclagem de materiais, também on line. Ao final, provinha e certificado, sem o qual você nem toca a sua pulseirinha de voluntário.

certificado

Você também vai ter que se cadastrar num sistema de gerenciamento de turnos. No mesmo você vai colocar os dias e horários em que deseja trabalhar. Contudo, nada é garantido. Pode ser que você tenha que fazer turnos bem na hora dos shows mais legais… é a vida!

como escolher escala

Além disso, reuniões presenciais serão demandadas. Portanto, prepare-se para estar em pleno domingo, primeiro dia de festival, às 7h45 da matina na base dos voluntários para instruções.

Quanto tempo vou ter que trabalhar?

Você terá 4 turnos obrigatórios, cada um de 7 horas, contando que você para 1 hora para almoçar.

Algumas vantagens

Você terá vouchers para alimentaçäo e bebida para cada um dos dias de festival. Sua pulseira te dá acesso a algumas partes dos bastidores e você pode ver o festival enquanto ele é montado. Vluntários possuem um lounge especial, com descontos em bebidas. Banho de água quente e acampamento num lugar tranquilo e restrito aos voluntários.

O que acontece se eu zoar o bagulho

Faltar a algum dos turnos sem justificar com devida antecedência, portar-se de maneira indevida, etc são formas de zuar o bagulho. Com isso, você pode realmente se dar mal e será obrigado a pagar o valor do ingresso para todos os dias de festival, mais uma multa. Ou seja, vai morrer em 3.500 Dkk, ou 1750 reais. Além disso, você vai entrar numa espécie de lista negra e ser banido da rede de voluntários do Roskilde por 3 anos.

Se compensou tudo isso? Aguarde as cenas do próximo capítulo 😉

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

2 comments

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  1. Como é ser voluntário em festival #2 - Festivalando 22 julho, 2015 at 06:00 Responder

    […] Não é à toa que sempre batemos na tecla da experiência aqui. Poder viver e contar da melhor forma possível todos os desdobramentos das nossas peripécias é essencial para a gente garantir que vocês, nossxs leitorxs, possam captar informações importantes e que possam ajudar na tomada de decisões festivaleiras, por exemplo. Por isso, fui lá e dei minha cara a tapa em um dos trabalhos voluntários mais complicados em festival: ser uma das “catadoras” e “incentivadoras” da coleta seletiva diária do Roskilde Festival, o famoso maior e mais antigo festival open air da atuliadade na Europa. (Para saber como você se candidata e se qualifica para ser voluntário, leia esse texto aqui). […]

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