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O roteiro de Washington que ninguém te contou: tour da capital do hardcore

A proximidade com o poder corrompe alguns enquanto desperta instintos revolucionários em outros. Talvez isso explique o surgimento de cenas de influência punk e hardcore de relevância histórica (não só, mas também) em capitais federais. Se nos anos 1980, aqui no Brasil, tivemos a turma da Colina de Brasília, com Aborto Elétrico e Plebe Rude, um pouco antes, no fim dos anos 1970, Washington D.C viu nascer aquela que é considerada uma das principais cenas de punk e hardcore dos Estados Unidos, a chamada harDCore.

Se você vai visitar a cidade, esse é um roteiro de Washington que deve ter em mente. Mas está liberado conhecer também a Casa Branca, Lincoln Memorial e afins rs.

Nova York teve os Ramones (nada mais a dizer), San Francisco teve o Dead Kennedys, mas ambas as cidades desempenham um papel de destaque no cenário musical dos Estados Unidos desde sempre. Nada novo no front, não é? Isso coloca ainda mais peso na cena que se formou no centro político que é Washington D.C no fim dos anos 1970, se desdobrou nos anos 1980 e deixou ecos pelo menos até a primeira metade dos anos 1990.

Puxaram a fila Bad Brains, Minor Threat e State Of Alert (banda de Henry Rollins antes de se mudar para a Califórnia e se juntar ao Black Flag). O Minor Threat ainda deixou uma semente maior ao se firmar como um dos precursores do straight edge, subcultura punk e hardcore que prega a abstinência de qualquer tipo de droga, como uma resposta aos excessos do punk. O Fugazi manteve a sequência nos anos 1980. Lá no finalzinho da década, uma tal de Dain Bramage, posteriormente rebatizada Mission Impossible, tinha na bateria um moleque chamado Dave Grohl (!). Nos anos 1990, o riot grrrl promoveu uma mudança relevante de protagonismo, com Kathleen Hanna à frente do Bikini Kill e de um dos principais movimentos feministas na música.

roteiro de washington

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Um pequeno parêntese

Apesar de tanta história, Washington peca por não conservar a memória dos espaços e lugares que receberam todos esses personagens. A não ser que se faça uma pesquisa antes (como eu fiz, mas que você não vai precisar mais fazer 😛 ), é possível caminhar pelas ruas da cidade sem nem desconfiar das histórias musicais por trás das construções que abrigaram os personagens dessa cena.

Os lugares relevantes dessa história são hoje apenas isso mesmo, lugares e nada mais, sem referências ao seu passado musical. O que não descarta a visita por curiosidade, muito pelo contrário.

Roteiro de Washington: esqueça a política e aumente o volume da playlist hardcore

O passeio se concentra nos bairros de Mount Pleasant e Columbia Heights, a noroeste de Washington. Bem longe do lazer e da sofisticação de Georgetown, ao sul, e do apelo turístico-político do centro. A primeira parada é o número 1830 da Irving Street. É uma casinha idêntica às muitas outras que preenchem essa longa rua residencial e quase deserta. Mas que mais de duas décadas atrás foi o ponto de encontro do Bikini Kill.

No meu mundo dos sonhos, eu teria tocado a campainha e dado de cara com a Kathleen Hanna, deusa que me inspirou a criar o primeiro blog da minha vida. Era uma página na hpg.com.br de fundo lilás com textos sobre as bandas do riot grrrl. Mas a casa parecia abandonada e fiquei tanto tempo parada na porta imaginando se ela teria escrito “Rebel Girl” naquela varanda que fiquei com medo de levantar suspeita na vizinhança.

Seguindo para o leste, no número 3047 da 15th Street, um grande prédio na esquina esconde o fato de que no início dos anos 1980 ele sediou pequenos festivais com as primeiras grandes bandas dessa cena, em eventos encabeçados pelo Bad Brains. Nos anos seguintes, ele seria uma espécie de incubadora para novas bandas. Naquela época, era o Wilson Center. Hoje, lá funciona uma charter school, um modelo de escola nos Estados Unidos que recebe recursos públicos mas tem gestão privada, fórmula que certamente seria questionada por todas aquelas bandas.

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Hardcore na igreja

Rumando para o norte, chegamos ao número 1525 da Newton Street. É a igreja de St. Stephen. Sim, uma igreja. Naquela época, ela sediava shows beneficentes liderados pela banda Positive Force, além de outros eventos de arte e ativismo.

O hardcore no quintal da igreja é história, ma ativismo segue presente. No dia em que estive lá, um cartaz na calçada acolhia imigrantes árabes com boas vindas. Um aviso na porta informava os dias e horários em que as celebrações são feitas em espanhol, para atender a considerável comunidade latina.

Resquícios de alguma memória

Para fazer justiça e não deixar a impressão de que Washington despreza totalmente seu legado hardcore, vale citar que a DC Public Library, biblioteca pública da cidade, criou um arquivo público sobre o tema. São fotos, fanzines, gravações diversas, cartazes, flyers. Ele ainda está em processo de conservação. Por isso é necessário fazer um agendamento caso você queira ver os materiais de perto. Mas há um portal onde você pode ver alguns dos materiais que já foram digitalizados. Fora os materiais, de tempos em tempos são realizados shows e debates sobre o assunto.

Memória mais viva e pulsante de todas é o 9:30 Club. Ele foi aberto em 1980 e funciona até hoje com alguns dos mesmos princípios da época de efervescência do hardcore na cidade: mostrar bandas emergentes. Nos seus primeiros anos, foi reduto de muitas das bandas citadas aqui. Hoje, tem uma programação que mistura bandas que podem ser the next big thing com nomes já estabelecidos. Por uma média de US$ 30, você pode ver um show lá.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

3 comments

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  1. César 16 outubro, 2017 at 19:03 Responder

    Adorei essa reflexão: “A proximidade com o poder corrompe alguns enquanto desperta instintos revolucionários em outros.” Isso me leva (sem querer fugir do tema) à seguinte questão: Por que tu achas que o ‘rock’ se desenvolveu tanto na Inglaterra/Reino Unido? Será que tem algo a ver com isso ou se ou que outros fatores poderiam ter contribuído nesse processo? Valeu!

    • Priscila Brito 16 outubro, 2017 at 23:33 Responder

      Oi, César. Pergunta difícil. Vou responder na condição de fã de rock inglês e pessoa curiosa, que tenta entender as coisas. Eu acho que eles conseguiram se apropriar culturalmente do rock de tal maneira que desvinculou a ideia do rock como gênero importado dos EUA. Tem também uma coisa que sempre me chamou atenção e ficou mais evidente quando fui pra Inglaterra, que é o fato desse tipo de música lá ser encarado de um jeito muito sério e respeitoso na hierarquia cultural. Acho ainda que aquela safra dos anos 1960, que historicamente chamam de British invasion, pode ter papel nisso também. Boa parte do cânon do rock foi estabelecido pelas bandas britânicas desse período (inclusive a própria ideia de banda de rock, pois nos EUA os primeiros grandes expoentes do gênero eram os cantores solo – Chuck Berry, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Elvis). Enfim, isso tudo pode ter feito com que o rock se firmasse por lá como o gênero musical nacional por excelência.

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