popload festival 2017Fotos: Fabrício Vianna e Oswaldo Corneti

Mixed feelings: o Popload Festival das minas, das surpresas, do sol e da treta das pulseiras

Teve muitas mulheres no palco, teve surpresa, teve calor no Popload Festival 2017, que deixou aquela impressão de mixed feelings, com acertos notáveis e arestas para aparar.

Neon Indian abriu os trabalhos, numa aparente estratégia para levar mais público para o início do evento, mas a tática não funcionou. Alan Palomo fez um show delicioso pra pouca gente – a maioria ainda estava em casa ou protegendo-se do sol no pequeno bosque no extremo oposto do palco, de onde ouvia-se pouco e via-se nada dos shows.

O sol seguiu sem dar trégua, acompanhado a força do Ventre, com o protesto feminista e anti-discriminação da baterista Larissa Conforto, e do Carne Doce e a performance potente de Salma Jô.

popload festival 2017

No fim da tarde, o som mais leve do Daughter casou com uma trégua do calor e o início da noite marcou uma segunda etapa dos shows, que vieram numa crescente épica. PJ Harvey atrasou vinte minutos, pouca coisa perto dos treze anos que levou para voltar ao Brasil (ou de um vida inteira pra quem nunca tinha tido a oportunidade de vê-la ao vivo). Mostrou que é deusa, uma entidade superior, afinadíssima e serena, potencializada por uma big band primorosa.

O show surpresa de AlunaGeorge, com participação especial de Iza, antecipou o astral festeiro do Phoenix. A banda fez com prazer o show que todo mundo queria ver. Quando Thomas Mars disse que ama estar aqui e que não falava aquilo da boca pra fora, era verdade mesmo. O show que vimos do Phoenix no Governors Ball deste ano não foi nem metade do que o que a banda fez no Popload. O fato de o show terminar com uma jam e o vocalista se esbaldando no crowdsurfing como quase não se vê mais (assim como no Chile) foi a reação mais concreta a esse prazer de estar aqui. Um encerramento catártico.

Porém, já sabemos, festival não se faz hoje apenas de shows. Para além da música, o Popload Festival 2017 foi assim:

popload festival 2017

O Popload das minas

Vez ou outra a gente aqui no Festivalando se depara com a discussão em torno da baixa proporção de mulheres no lineup dos festivais (considerando artistas solo ou bandas com mulheres na formação). Por essa razão, foi impossível não notar como o lineup do Popload esse ano escapou do padrão de desigualdade. Mais da metade das atrações tinha ao menos uma mulher na formação (Ventre, Carne Doce, Daughter e PJ Harvey).

O show surpresa promovido pela Heineken fez a soma aumentar, com a adição de mais duas mulheres (AlunaGeorge e Iza). Não sabemos se foi intencional ou puro acaso um lineup mais feminino; tanto faz. O resultado final importa mais.

Surpresas podem ser melhores que ~experiências~

Um dos esportes preferidos da gente aqui no Festivalando é gongar patrocinadores de festivais por usarem sua presença nos eventos pra distribuir brindes bobinhos ou fazer dinâmicas vazias com o verniz equivocado da ~experiência ~. Pois bem, é preciso reconhecer quando eles fazem um bom trabalho.

Foi super acertada a ação da Heineken, que levou AlunaGeorge e Iza como atrações surpresa do Popload. Na verdade, foi mais ou menos surpresa. Os fãs foram espertos, encontraram pistas e a organização deu uma deixa nesse retweet. Um grande container que durante o dia todo parecia apenas um outdoor de led se transformou no Hidden Stage durante a noite.

O painel frontal revelou ser duas portas de abertura lateral e lá dentro estavam as surpresas musicais. Como naquelas promoções de supermercado, deu pra sair do festival com sensação de ter levado vantagem. Pague seis e leve oito!

popload festival 2017

Detalhes que importam

Banheiros com água corrente, papel e sabão. Bilhetes de metrô pra quem chegou antes. Pista premium que ocupa apenas uma das laterais do palco, deixando a outra lateral livre para os fãs que também querem ficar perto do palco, mas não querem ou não podem pagar o dobro do ingresso. Um festival é tanto melhor quanto mais se esmera em detalhes estruturais e o Popload se destacou na comparação com outros nos detalhes citados acima.

popload festival 2017

Tem que ver isso aí: o que poderia ter sido melhor no Popload

A capacidade do serviço de alimentação

Estava muito bem bolada a feirinha gastronômica, mas faltou preparar-se para os picos de público. Durante a tarde, quando o festival ainda estava vazio, tudo correu bem. À noite, quando o público apareceu de verdade e o festival encheu, os restaurantes tiveram dificuldade pra lidar com a demanda. Foi preciso encarar filas muito grandes, espera de até 30 minutos para receber os pratos e opções do cardápio já esgotadas. Ficou a sensação de que cinco restaurantes não eram o bastante para matar a fome das pessoas.

A estrutura para enfrentar o calor

Previsão do tempo existe pra gente se preparar de antemão para os possíveis efeitos do clima. O calor de mais de 30 graus previsto pro feriado (agravado pela aridez do concreto do Memorial da América Latina) poderia ter sido amenizado pela organização do festival com algumas medidas.

Faltaram:

  • Áreas de descanso com sombra (alô, patrocinadores! Vocês podem colocar uns guarda-sóis ou tendas com a marca de vocês pra galera descansar na sombra)
  • Vendedores circulando no meio do público para vender bebidas
  • Distribuição de água para quem fica na grade, praxe em outros shows e festivais

Mais que isso, acima de todas as coisas, faltou oferta gratuita de água em bebedouros, tão comum nos festivais lá fora, mas por aqui só levada a sério pelo Rock in Rio.

A gestão da crise das pulseiras

O Popload foi mais um festival brasileiro que aderiu às pulseiras cashless neste ano, mas não sem passar por tropeços. O principal deles foi a demora na entrega do acessório, prometida para outubro, um mês antes do festival, mas iniciada efetivamente apenas dez dias antes do evento.

Como era de se esperar, quem comprou o ingresso (inclusive com meses de antecedência) irritou-se com razão. Teve gente que pagou taxa pra receber em casa, mas teve que retirar em ponto físico; teve gente que nem viu sinal do e-mail de rastreamento da entrega; teve gente que veio de outro estado e correu o risco de não receber a pulseira antes de viajar pra São Paulo. Fora os relatos de erro no sistema de ativação e as reclamações da falta de resposta do SAC para os e-mails do público.

Claramente houve algum problema (ou até imprevisto) no planejamento original para liberação das pulseiras. Mas a falta de clareza da organização nas redes sociais diante do ocorrido aprofundou a irritação das pessoas diante da demora na entrega das pulseiras. Faltou reconhecer que havia um problema, faltou pedir desculpas para as pessoas pelos inconvenientes. Não dói fazer isso, gente!

A comunicação entre pessoas, marcas e organizações nunca foi tão direta como hoje. Não há desculpa para agir como se nada de errado estivesse acontecendo. Não adianta construir uma imagem cool se nem todas as práticas seguem essa filosofia.

Só mais uma coisa

Da próxima vez, coloquem o nome do festival na pulseira 😉 No meio desses problemas todos isso virou um detalhe menor. Mas o mínimo que se espera é que o objeto que dá acesso ao evento, seja ingresso de papel ou pulseira, tenha de fato o nome do evento. Detalhe básico, né?

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

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