meca inhotim festival de experiênciasMECA Festival

MECAInhotim é um festival de experiências

Ah, experiência, essa entidade sagrada cuja benção é desejada por todos os festivais. Alguns não precisam fazer esforço algum para evocá-la graças à sua autenticidade e pelo simples fato de serem o que são (um beijo pro Roskilde Festival), outros usam seu santo nome em vão e outros são capazes de emular sua presença sem apelar para banalidades. O MECAInhotim, um festival com proposta ainda em construção, fez bonito e se juntou a este último grupo, se configurando muito mais como um festival de experiências do que como um festival de música apenas.

Vamos combinar que o local já facilitou metade do trabalho. Inhotim, um dos maiores museus de arte a céu aberto do mundo, impressiona pelo conceito e pelo visual sempre, mesmo depois de uma dúzia de visitas ao local. Fornecer para o público a possibilidade de imergir nesse grande cenário utópico com um cardápio variado de atividades para pensar, aprender e interagir durante um dia inteiro (com workshops e palestras integrados às galeiras e instalações do museu), reservando apenas as últimas horas de programação para a música, ajudou mais ainda a dar uma experiência de festival diferente para quem foi ao MECAInhotim.

Um festival de experiências

Eu e Gra madrugamos para chegar logo no início da manhã a Inhotim e pegar as primeiras atividades do dia. Logo de cara, já nos chamou atenção como o evento que nos esperava reservava um outro ritmo, sem a agitação, o vai e vem e a música non-stop que normalmente toma conta dos festivais (e que é igualmente boa, vamos deixar claro). No lugar disso tudo, silêncio, tempo para escolher o que fazer antes de se jogar nos shows e um parque inteiro para explorar, com um monte de obras de arte e natureza no meio do caminho.

Começamos a manhã com uma reflexão sobre o uso de recursos naturais em uma imersão dentro de uma grande estrutura inflável. Depois do almoço, passamos uma hora aprendendo sobre respiração e meditação em um workshop de Kundalini Yoga, sob o som da chuva, depois de uma longa caminhada ladeira acima até chegar em uma das galerias mais afastadas do parque. A propósito, espalhar as atividades pela grande extensão de Inhotim foi uma boa sacada, pois propiciou uma ótima oportunidade de explorar as atrações do local. Por outro lado, houve dificuldade em alguns momentos. Dentre elas, as longas distâncias entre os locais das atividades e a sinalização nem tão eficiente assim do museu. Mesmo com o mapa, achar alguns locais ficou parecendo uma caça ao tesouro).

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MECA Festival

A tarde terminou com uma sequência de pensatas no palco principal sobre música, cultura, economia e política no Brasil. Em tese, como anunciadas oficialmente, foram conferências, mas tiveram cara mesmo de roda de conversa, dada a informalidade espontânea. Parte do público subiu no palco (inclusive eu) e sentou-se em volta dos convidados sem cerimônias.

A música como um adendo

Os shows fecharam a noite mais como um complemento e arremate de tudo que tinha acontecido antes, até porque foram bem poucos proporcionalmente ao cronograma de atividades do dia e também porque a grande expectativa era mesmo apenas em torno de Caetano (mas vale destacar o fato de o público ter marcado presença debaixo da chuva incessante para ver Lei Di Dai, Mahmundi e Dônica).

Com uma resposta admirável à sua condição de atração principal, Caetano foi bastante generoso com o público. Antecipou sua aparição e subiu ao palco na reta final do show do Dônica (banda do seu filho Tom Veloso) para cantar “Deusa Urbana” e “Um Índio”. Não fez o público esperar mais ainda debaixo de chuva e começou seu show quinze minutos antes do previsto. Tocou aquelas que todo mundo gosta de ouvir (“Odara”, “Tieta”, “Leãozinho”), desenterrou pérolas nem tão óbvias assim para a formação musical do tropicalismo, como “Enquanto Seu Lobo Não Vem”, e entregou uma versão delicadíssima de “Tigresa”.

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Diogo Narita/MECA Festival

Sozinho com seu violão, Caetano fez o show sentado. Casou perfeitamente com o ambiente intimista criado pelo palco do MECA, sem grades e com o público grudado no palco (uma fã até subiu no palco para tentar abraçar o músico). Por outro lado, foi uma pena a estrutura ser tão baixa. Da metade do público para trás, praticamente só se via os cabelos brancos de Caetano. A falta de telão prejudicou ainda mais a visibilidade.

Acertando os passos

Depois de uma edição piloto no mesmo Inhotim no ano passado, com apenas dois shows, o MECA voltou maior com este formato bem próprio. Está sendo ótimo ver nascer diante de nossos olhos um festival local com formato diferenciado, incorporando na programação atividades que convidam a muito mais que o entretenimento, como a gente aqui no Festivalando já tinha experimentado em algumas ocasiões lá fora (mais uma vez, um beijo pro Roskilde Festival). Fica a torcida para que o MECAInhotim se estabeleça no calendário e acerte os passos daqui pra frente.

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MECA Festival

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MECA Festival

Para melhorar

Anunciar o festival com mais antecedência da próxima vez pode ajudar o público a se preparar melhor. O anúncio neste ano, com apenas um mês de antecedência, foi bem de supetão. Repensar a época do ano em que o festival é realizado também é importante. Novembro faz parte daquela época instável aqui no Sudeste, em que há chances iguais de estar um calor escaldante, cair um temporal com raios, ventos e trovões ou chover ininterruptamente o dia inteiro. Neste ano foi a vez da terceira opção e muita coisa da programação foi pensada para acontecer ao ar livre, sem levar em conta ou subestimando as probabilidades meteorológicas. A chuva claramente atrapalhou algumas atividades e obrigou o remanejamento de última hora de algumas delas, atrapalhando a experiência do público.

Vale também garantir um alinhamento maior entre os convidados das atrações e a programação divulgada ao público. Os responsáveis por uma atividade que participamos informavam ao público que ela começaria às 11h, mas, com o caderninho da programação em mãos, eu avisei que o horário oficial era 12h15.

Cabe, por fim, reconsiderar os modos de acesso ao evento. Muita gente reclamou muito do alto custo do festival e da obrigação de pagar por um combo único. Houve quem quisesse apenas ver os shows e desistiu de ir porque não viu sentido em pagar um valor que cobria uma variedade maior de atrações. Seria legal dar alternativas, com ingressos somente para os shows, somente para as demais atividades e um pacotão com direito a tudo.

Que venha mais MECAInhotim, mais maduro e com estrutura mais aperfeiçoada. O formato é promissor.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora também coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Além de uma das mães do Festivalando, sou colaboradora da Mixmag e do Brasil Post e autora do Porque eu gosto de música. Também ajudei Paul McCartney a falar uai em pleno Mineirão.

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