Fotos Priscila Brito

Um Lolla mais aconchegante

Aconchego não é palavra que se aplica a festivais – o combo básico é pé na lama, muita andança, banheiro químico e outros perrengues. Mas nada impede que a inventividade e criatividade adicionem um tiquinho de conforto numa prova de resistência tal qual um festival de música e o Lollapalooza Brasil fez isto esse ano em algum grau, dentro dos limites áridos de São Paulo e do autódromo de Interlagos.

O que mais me saltou aos olhos no festival este ano foi a cenografia montada entre os palcos Ônix e Skol com assinatura da estilista e arquiteta Paula Raia (com certa soberba, digo que progressivamente vai ficar cada vez mais difícil me surpreender pois estou cada vez mais rodada em festivais e tenho visto muita coisa por aí). A princípio, e como foi alardeado, este foi o espaço dedicado a uma novidade desta edição, o Lolla Market, uma feirinha bem simpática e descoladinha com lojinhas de patrocinadores, outros comerciantes e um pouco de arte.

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Mas a novidade mesmo, pra mim, foi identificar ali uma grande área de convivência e de descanso para o público com tendas, redes e bancos. Tudo com um ar simples e fresco: mobiliário de madeira e samambaias, muitas samambaias suspensas (e eu vou me sentir acolhida sempre que tiver samambaias em um ambiente porque elas sempre vão me remeter à casa da minha avó, onde elas ficavam suspensas nos galhos de um pé de goiaba que tinha no quintal – mas que ela chamava de terreiro 🙂 )

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Ter um espaço mais amplo e bem trabalhado como este é essencial em um evento que dura quase doze horas e exige que você se desloque muito (quase um quilômetro da estação de trem até o autódromo e mais outros quilômetros acumulados caminhando várias vezes de um palco para outro), num dia sob sol forte, no outro sob chuva. Prova disso é que em nenhum momento vi esses espaços vazios. Se tem uma conclusão à qual cheguei depois de tantos festivais é que as pessoas querem sempre se sentar, e se elas podem fazer isso com um pouco de dignidade é melhor.

Eu sei que essas áreas de descanso não são inéditas, mas pela primeira vez achei que o espaço foi mais bem pensado e ocupado, mais caprichado, bem mais propositado e melhor distribuído, já que parte dessa ideia foi espalhada para outros pontos do Lolla: mesas foram posicionadas próximas aos palcos Ônix e Axe e no Chef Stage para o pessoal lanchar com um mínimo de dignidade – no ano passado, lembro que a única opção no Chef Stage era sentar no chão.

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Ah! Alguns detalhes fizeram deste Lolla uma edição mais colorida e lúdica também.

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Um desejo realizado
Escrevi aqui há algumas semanas que um dos meus desejos para o Lolla este ano era um som melhor saindo dos palcos. Achei que houve uma melhora sensível, principalmente nos palcos Ônix e Skol, lá do alto do morrinho. Se no ano passado eu precisei descer até perto do palco para conseguir ouvir direito o Vampire Weekend, neste ano eu consegui ouvir muito bem o show do Skrillex lá do alto. Jack White e Robert Plant também soaram bem lá no fundão.

Detalhes

Surpresa. Um palco extra-oficial do Lolla foi o karaokê montado por um dos patrocinadores. Pharrell estava prestes a subir no palco, mas umas dezenas de pessoas estavam aglomeradas para ver e aplaudir um anônimo cantando Tim Maia e Charlie Brown Jr.

Ajuda. A ideia dos voluntários é legal, principalmente por conta daqueles que estavam posicionados para dar informações ao público.

Banheiros. Sair de um banheiro químico e ter água para lavar as mãos é um alívio. Não é todo festival por aí que oferece isso.

Puxões de orelha

Dinheiro. O papo é que só se consumiria comidas e bebidas dentro do festival trocando dinheiro por Lolla Mangos, mas alguns ambulantes só aceitavam dinheiro. Dá para chegar num acordo? Vi gente desistindo de comprar água e cerveja porque teria que gastar duas vezes: os reais já tinham ido embora na troca por Mangos e ainda era preciso tirar mais dinheiro do bolso para comprar bebidas dos ambulantes.

Ruído. O som tem que ser alto nos palcos, mas não tão alto assim no lounge vip. Do palco Axe dava para ouvir a transmissão dos shows do palco Skol que era exibida para o público do lounge. O ruído era mais perceptível nos momentos de pausa dos shows, entre uma música e outra, mas quando o som era menos pesado havia interferência. Foi assim no Smashing Pumpkins: as distorções da banda abafaram o barulho na maior parte do tempo, mas quando Billy Corgan ficou no esquema voz e violão para cantar “Today” dava para ouvir o som que vinha do lounge.

Limpeza. Faltam lixeiras nas áreas mais próximas aos palcos. Quem leva comida para ver os shows não acha onde descartar os recipientes.

Transporte. Continua sendo péssimo ter que ver os últimos shows preocupada com o relógio e considerando se vale arriscar ficar até o final ou ir embora logo para garantir o trem/metrô. Não é pouca gente que larga o festival quando os headliners estão apenas começando o show, já que não há ampliação no horário de funcionamento do serviço e rola sempre aquele medinho de ficar trancado pra fora da estação. CPTM e produção, se entendam, por favor.

Balanço final?
Vou puxar a orelha quando for necessário (e a implicância com o transporte vai ser sempre necessária), mas Lolla e eu já é um caso de amor consumado, que neste ano foi revigorado pela beleza singela e confortável da grande área armada no ponto central do festival. Essa foi a grande experiência dessa edição pra mim, contra todas as engenhocas fabricadas por patrocinadores. Me surpreendam mais em 2016.

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Transporte7
Informações10
Hidratação e comida9
Conectividade5
Limpeza e banheiros8.5
Segurança8.5
O transporte sempre será um problema no Lollapalooza enquanto não houver um prolongamento do horário de funcionamento dos trens. A conectividade ruim não é um problema do festival, e sim de Interlagos, mas poderia haver uma negociação com os patrocinadores para criação de uma zona de wi-fi livre. A alimentação só não é nota 10 porque a água não é de graça, como em outros festivais, mas o Chef Stage é definitivamente um destaque super positivo do Lolla!
8

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora também coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Além de uma das mães do Festivalando, sou colaboradora da Mixmag e do Brasil Post e autora do Porque eu gosto de música. Também ajudei Paul McCartney a falar uai em pleno Mineirão.

2 comments

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  1. Gustavo 17 abril, 2015 at 08:55 Responder

    Eu concordo com sua consideração final. Foi um bom sinal pros patrocinadores verem que um ambiente gostoso e descontraído pras pessoas relaxarem, vale mais do que um postinho cheio de firulas mas que não trazem nenhum benefício extraordinário.
    Eu daria um outro puxão de orelha: apesar da área de convivência ter inovado (e agradado muito) é bom a produção atentar pro fato de que ano que vem ela precisa ser montada de forma a suportar um número maior de pessoas, mais locais pra se sentar, mais lugares com sombra, etc.

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