mulher acampandoPh: Aleksandar Karanov via Shutterstock

Camping para mulheres em festival: algumas questões sobre a iniciativa

Ainda é preciso bater muito na tecla de que o mundo é um lugar bem injusto para as mulheres. As relações de gênero são desiguais e sustentadas por uma série de pequenos mecanismos em nosso dia a dia. Às vezes eles são bem óbvios, outras vezes não. Mas o mundo vem mudando um pouco – e guarde esse ‘um pouco’ aí, para entender o que vou dizer adiante. Aqui no Festivalando, a gente já te contou sobre pesquisas que mostram a desigualdade nos lineups de grandes festivais, também sobre boas iniciativas que surgiram recentemente para combater o assédio contra mulheres e pessoas que se identificam como tal. Até que outro dia eu me deparei com o anúncio do camping  para mulheres em festival,  o qual será implementado pelo Metaldays festival, em Tolmin, Eslovênia…

A primeira reação

Eu tinha achado o máximo quando bati o olho naquele anúncio. Pensei que era uma iniciativa de sensibilidade para com a causa, e que poderia estimular muitas mulheres a acampar no festival. Muitos festivais têm criado áreas seguras para mulheres, por exemplo, com atendimento médico e psicológico para vítimas de assédio dentro do evento. Então, pensei que a inciativa deste festival de metal fosse tão boa quanto a dos demais festivais, e que a finalidade era promover, de fato, um lugar seguro para as mulheres.

A novidade do Metaldays pode realmente gerar boas coisas, pelo menos enquanto o mundo é do jeito que é. Porém, não basta tomar iniciativas. É preciso saber como fazer, como divulgar, como interpelar as mulheres para as quais a ação é direcionada. E aí vem a minha crítica ao Metaldays, e ao mundo do metal em geral, que ainda se utiliza de representações de gênero muito equivocadas.

A segunda reação, depois de uma leitura mais atenta

Lembra de quando eu disse que o mundo mudou ‘um pouco’?Pois é, é um pouco, porque os processos de mudança são bastante complexos. É um eterno vai e vem. Não dá para achar que o feminismo segue numa escala ascendente, retilínea. Não é bem assim que a gente só tem sucesso na eliminação das desigualdades entre mulheres e homens. Não é bem assim que a tendência é sempre de melhorar. Nada na vida em sociedade é assim.

E foi na própria peça de divulgação eletrônica da inciativa do Metaldays que me vi diante do paradoxo. Observem vocês também:

Mídia postada na página oficial do festival Metaldays no facebook.

Single Girls Camping

Já começa a ficar problemático no título “Single Girls Camping” e piora milhões de vezes com a ilustração. A tradução do título é “Camping das garotas solteiras”, que vem acompanhada de uma ilustração de uma garota de biquíni, em uma pose e expressão sensuais.

O título e a imagem significam juntos. Não tem muito jeito de separar isso na hora de elaborar possíveis interpretações. E aí é que salta em nossa mente uma leitura de um camping de garotas disponíveis, solteiras, talvez a espera de um par… solteiras+pose sensual dá ideia de disponibilidade para relações sexuais, ou para ser objeto de prazer dos homens. É assim na sociedade em que vivemos.

Assim, por mais que a ideia seja proteger as mulheres de agressões e assédios durante a noite, o próprio cartaz já é um assédio! Imprime uma ideia e uma representação de mulher no metal que são preconceituosas. Já se perguntaram como seria a provável ilustração de um ‘Single boys camping”? Provavelmente, com um monte de cerveja, caixa de som e os caras estariam vestidos… fala que não seria assim?

E aí vem o texto da postagem em que a iniciativa é apresentada…

Primeiro, reproduzo o texto com algumas numerações, das partes onde faço meus questionamentos. Depois, a tradução. Logo, analiso os trechos numerados.

Original:

“Single girls camping!
Are you a single girl, travelling alone and want to meet and hang out with other girls at the festival? On the festival camping area, right next to the Ian Fraser “Lemmy” Kilmister stage (beginning of the camp), on the right hand side, (1)next to the first warm showers, there will be an area in the camp, that is near all the important facilities, offers secure access and additional light, (2)so we believe the spot is perfect for those, who maybe feel a little bit insecure in sleeping alone. Don’t be shy, join the Single girls camping area, enjoy and have fun!
See you all in Tolmin!”

Tradução:

“Camping das garotas solteiras!
Você é uma garota solteira, viajando sozinha e quer se encontrar e se divertir com outras garotas no festival? Na área de camping do festival, perto do palco Ian Fraser “Lemmy” Kilminster (início do camping), do lado direito, (1)perto dos primeiros chuveiros quentes, haverá uma área no camping, que está perto de todos os serviços importantes, oferece acesso seguro e luz adicional, (2)então, a gente acredita que o local é perfeito para aquelas que talvez se sintam um pouco inseguras em dormir sozinhas. Não seja tímida, venha para a área de Camping das garotas solteiras, aproveite e divirta-se! Vejo vocês todas em Tolmin!”

(1) perto dos primeiros chuveiros quentes, haverá uma área no camping que está perto de todas os serviços importantes, oferece acesso seguro e luz adicional.

Quando leio este trecho, me incomoda muito o estereótipo existente de que mulheres, em geral, não gostam de acampar. E esse estereótipo está implícito neste trecho. Ele vem de toda uma tradição do boy scouting, ou escotismo, uma atividade que, a princípio, era destinada somente a meninos. É recente a presença das garotas. Mesmo assim, dá um google aí e veja quantas representações de mulheres aparecem neste contexto…

O estereótipo se apóia na ideia de que as mulheres não gostam de acampar porque seriam demasiado frágeis para ficarem sem o apoio de serviços e facilidades da vida moderna, ou teriam medo da ‘vida selvagem’. Então, quando a pessoa do festival escreve um texto que enfatiza a localização do camping para garotas perto dos principais serviços, oferecendo inclusive luz adicional, não me vem outra coisa à cabeça senão a imagem de uma garota com medo do ato de acampar em si.  Não há relação alguma com o medo de agressores, os quais em momento algum são mencionados no texto.

(2) então, acreditamos que o local é perfeito para quem talvez se sinta um pouco insegura em dormir sozinha.

Este trecho aqui complementa o anterior, numa relação lógica de que a garota se sente insegura em dormir sozinha apenas quando não há luz no espaço e este não está perto de todos os serviços importantes. Mais uma vez, parece que a garota tem medo de bicho papão e da vibe de acampar, não necessariamente de ser estuprada, por exemplo. Afinal, assédio, estupro ou qualquer tipo de menção a possíveis agressores não é feita no texto. Ou seja, não há nenhuma responsabilização dos homens por esta insegurança que a garota sente em acampar!

Um camping só para mulheres é necessário?

Ph:DJTaylor viaShutterstock

Sim. Enquanto o mundo for do jeito que é, enquanto a gente viver esse modelo de gênero com base na heteronormatividade e manutenção da assimetria entre homens e mulheres, algumas medidas são necessárias.

Existem alguns festivais muito tranquilos em relação a isso. Por exemplo, os festivais escandinavos, onde a igualdade de gênero é cultivada. Porém, à medida em que os festivais estão mais internacionalizados, não é possível se responsabilizar pelo bom senso de homens vindos de outras sociedades. Portanto, é preciso pensar, de fato, em opções de áreas seguras para mulheres.

Só isso basta?

Não! Não adianta fazermos áreas seguras para que as mulheres tenham que ser confinadas do convívio com homens porque estes não conseguem se conter e respeitar. Portanto, os festivais também precisam investir em outros tipos de ação que possam fortalecer o respeito e fomentar a igualdade de gênero. É preciso educar os homens festivaleiros.

Existem ótimos exemplos, também, de festivais que promovem ações de empoderamento de mulheres e espaços de atendimento específicos, como é o caso do Women’s Safe Space, do Shambhala (Canadá). Além disso, recentemente, mais de 60 festivais da Associação de Festivais Independentes do Reino Unido assinaram um termo de compromisso para adotar boas práticas que visam coibir o assédio sexual e dar suporte às vitimas desse tipo de violência. Bestival, Parklife, End of the Road, Standon Calling, Kendal Calling e Boomtown Fair estão entre os festivais os nomes.

Com orientação de organizações pro fim da violência contra a mulher, tais como Rape Crisis England and Wales, Girls Against, Safe Gigs for Women e White Ribbon Campaign, os festivais ingleses começaram a treinar funcionários para lidar com episódios de violência sexual, além de criar espaços e serviços para atendimento a vítimas.

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

6 comments

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  1. Renan 13 julho, 2017 at 01:15 Responder

    Ótimo post. Acho que nos dias atuais ainda é preciso ter muita paciência, já que os direitos estão sendo ganhos aos poucos, mas estamos vendo mudança, mesmo que sejam pequenas. A iniciativa é boa, mas é preciso ajustes para que a medida tenha eficácia precisa. O banner eu achei ofensivo, principalmente pela imagem chamativa do cartaz. Quando li este post, lembrei do festival sueco que teve sua próxima edição cancelada por conta do alto índice de estupros, fato que se fosse por aqui, certamente teria passado batido. Acho que o caminho é esse, Gra. O mundo não vai mudar a curto prazo, mas sim com bons exemplos e com os homens deixando de ser egoístas e orgulhosos. No Brasil ainda vemos muito isso, com a mídia deturpando o feminismo e as mulheres solteiras de atitudes mais discretas. Mas as pequenas batalhas vão sendo vencidas para que vençamos a guerra, não é isso?

    • Gracielle Fonseca 13 julho, 2017 at 12:13 Responder

      Valeu, Renan! Pois é, falta muito para termos uma sociedade mais justa e diversa, mas estamos no caminho certo. Agora discutimos, homens e mulheres juntos, mulheres entre elas, enfim. Haver o espaço para o debate é fundamental. E sobre o festival sueco cancelado, o pessoal na Escandinávia está há séculos à nossa frente quando o assunto é igualdade de gênero. Não só pela própria cultura dos países, que vem de uma tradição Viking em que as mulheres também eram guerreiras, mas também pelas várias políticas que eles implementam, como cotas em serviços públicos, programas de incentivo a mulheres, há também uma enorme participação das mulheres na política da região. Ou seja, realmente, não dá para esperar que um festival brasileiro tome atitudes parecidas, pelo menos não por agora. Um abraço e obrigada pelo comentário!

  2. Miguel 13 julho, 2017 at 09:52 Responder

    Excelente análise! Ainda falta muito, mas quero crer que um dia chegaremos lá… Será que minha filha pequena se sentirá segura em um camping de festival quando ela crescer?

    • Gracielle Fonseca 13 julho, 2017 at 12:07 Responder

      Obrigada, Miguel! Eu realmente espero que sua filha possa se sentir segura e de fato estar segura nos campings de festival. É para isso que a gente sempre tenta discutir assuntos relativos às relações de gênero aqui no Festivalando. Um abraço!!

  3. Miguel 13 julho, 2017 at 17:02 Responder

    🙂 Sempre acompanho vocês, gosto de show, rock n’ roll e festival… mas com este post, ganharam ainda mais respeito lml

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