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A comunidade alternativa de Christiania: mais complexo do que os resquícios do “paz e amor”

Estávamos eu e e a Pri numa apotek ( farmácia em dinamarquês), quando entrou um grupo de brasileiros desbaratinados que logo nos reconheceram. Uma senhora se descolou do grupo e nos fez a pergunta: “Aqui, vocês sabem onde que é o bairro dos doidão?”. Olhei bem para a cara de coxinha da senhora que me perguntava, respirei e dei a informação, depois de confirmar que era da Christiania que ela falava – já era de se esperar que gente com esse tipo de julgamento não saberia se localizar mesmo, não só em um quarteirão, mas na vida…

A farmácia era em frente à estação de metrô de Christianshavn, o principal acesso para a Christiania. Caso esteja a pé ou de bike no centro de Copenhague, procure a Havnegade e Torvegade e venha sem medo. Você  gastará apenas 15 minutos apreciando uma linda arquitetura – mais clássica do que a moderna – ambas co-habitam a paisagem da capital dinamarquesa.

Essa foi minha segunda vez naquele lugar. A primeira foi em 2009 com minha amiga dinamarquesa Lene. Esse ano, um pouco depois do furacão Roskilde Festival, era a minha vez de apresentar à Pri. Entramos lá sabendo que há no mínimo duas visões predominantes sobre Christiania: o lugar em que você não gostaria que o seu filho fosse, ou o paraíso hippie, anárquico perdido. Ambas estão, obviamente, simplificadas ao extremo. É difícil achar algo tão parecido com a Christiania no mundo – é a Freetown (cidade livre), como os residentes a denominam. Isso, por conta do jeito que procuram gerir as coisas e também pelo tamanho da comunidade, que ocupa hoje uma área de 85 acres ( que dá muuuuitos metros quadrados, converte aí para ver…), em que residem e trabalham aproximadamente mil pessoas.

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Um pouco de história

Basicamente, a comunidade de Christiania foi instalada na área de antigas construções militares abandonadas, o conjunto do forte de Bådsmandsstræde. Em plena década de 70, muitos moradores dos arredores travaram brigas com o Estado ao derrubar os muros dessa área militar abandonada. A ideia era fazer um playground e espaço verde para os moradores dos prédios do entorno. A cerca foi derrubada e reconstruída algumas vezes. Até que em 1971 foi derrubada definitivamente por um grupo de pessoas que passou a ocupar o espaço digamos que, de forma mais efetiva.

pulando a cerca da christiania

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Após a circulação de um jornal alternativo, Hovedbladet, com um artigo que contava sobre essa área e possíveis ideias de uso do local, jovens casais e pessoas que não tinham aonde morar na Dinamarca resolveram fazer desses espaço a própria casa. Mas uma casa diferente, uma comunidade auto-regulada, em que cada indivíduo zela pelo seu próprio bem estar e pelo bem estar de todos. O jornalista que disseminou essa ideia, Jacob Ludvignsen, escreveu a declaração de liberdade de Christiania e conclamou pessoas para tentar fundar ali, do zero, um outro tipo de experimento social- como as partes mais tolerantes do governo dinamarquês intitulou a comunidade por muito tempo.

De 71 até aqui foram muitos confrontos com o governo, que inúmeras vezes tentou  retirar os moradores, fechar a comunidade. A especulação imobiliária em cima de uma região com centro histórico, lagos ao redor e área verde sem dúvidas foi uma grande pressão. Mas, os moradores de Christiania resistiram e, finalmente, em 2012 criaram uma fundação para comprar a área antes pertencente ao Estado.

famílias em christiania

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Afinal, o que tem em Christiania?

Casas com uma arquitetura única, espaços para shows de rock,blues, rap, folk, apresentação de DJs, idealistas,tatuadores, cientistas, jornalistas,artistas, escritores, punks, hippies, anarco-punks, pessoas comuns,  bares, refrigerante de flor (gostou da pitada ultra hippie do produto?), feirinha de artesanato, múltiplas nacionalidades, comida barata, confecções, ateliers, visionários, drogas. Diga-se de passagem, drogas não tão pesadas, uma vez que foram banidas por uma campanha interna contra dependência. Há também gente chapada, gente feliz, torneio de futebol, creche, loja de montagem e venda de bicicleta… Uma miscelânea cultural e de alguns serviços imprescindíveis para a subsistência da comunidade.

Tem práticas inovadoras de gestão de resíduos, uma sociedade ecologicamente orientada, mas tem também banheiros comuns, com sabonete não orgânico. Tem horta comunitária, mas tem também trailer vendendo pizza e fast food. Tem estação de rádio, sauna e piscina coletiva, mas só para os Christianites, ou moradores. Tem também lojas, lavanderia, ponto de doação ou reaproveitamento de roupas. Há prática de yoga e meditação, mas também há noções de prática de guerrilha… E mais um tanto de coisas, ideias e serviços. Ah, e já ia me esquecendo do mais lindo: cães, vários deles, lindos, por todas as partes!

Christiania

Múltiplas “entradas”

Não há uma experiência única de Christiania. São vários tipos de “entrada”. A entrada turistona: é um pouco estranha. Afinal, você chega em uma comunidade, como se fosse quase um zoológico habitado por seres diferentes. Só que lá não se pode tirar fotos. Você entra, anda, observa, mas não interage.

A entrada artística

Tem gente que vai fazer uma residência artística. Não faltam artistas e artesãos por lá. Você pode entrar em contato com um artista e simplesmente viver por lá e trocar experiências na área. Ou, como interessado por arte, você pode fazer um tour por lá focado nisso.

A entrada musical

Da mesma forma que acontece com músicos e DJs. Muitos deles são convidados para tocar em vários eventos que acontecem por lá, fazendo uma residência musical, ou simplesmente tocam e vivenciam alguns dias dentro da comunidade. Os interessados por música podem, na maioria das vezes, encontrar concertos gratuitos em eventos específicos, como os shows  de domingo.

Escape

Essa entrada acontece com frequência também, com objetivo mais voltado ao uso de algumas drogas que são vendidas abertamente na Pusher Street – onde é proibido mesmo tirar fotos. Esse é um lugar para o qual o governo dinamarquês faz vistas grossas, uma vez que o uso e comércio de drogas é ilegal no país.

Entrada residente

Você pode morar, ou querer morar em Christiania. É tão possível que no guia deles existe uma parte em que se explica como é o processo para se candidatar a uma casa. Basicamente, você vai morar em casas co-habitadas e viver sob os acordos da comunidade e ninguém é dono de nada. No website existem datas e indicativos de vagas para moradia, bem como os critérios necessários para ser aceito.

É claro, você pode mesclar uma dessas experiências ou mais ao mesmo tempo, e até vivenciar outras diferentes.  Mesmo não sendo um habitante, você é sempre bem vindo a usar os espaços com bom senso, sentar-se e jogar conversa fora, beber alguma coisa,  jogar ludo (ainda vou entender o gosto escandinavo por esse jogo, presente em vários lugares pelos quais passei por aqui).

Aqui um documentário para se ter um pouco mais de contato com essa comunidade e algumas das ideias que lá circulam:

Freetown, livre de quê?

Aí volto ao título. Mais complexo mesmo do que os resquícios do movimento flower power. Paz e amor precisam dar lugar a modelos de gestão que dêem suporte aos ideias de uma comunidade autogerida e, ao mesmo tempo, é preciso dialogar com o governo que a todo instante faz pressão sobre os membros dessa comunidade. 

Na Christiania não há hierarquias ou delegação de poder a outras pessoas. Tudo é decido por meio do consenso, formado a partir de reuniões dos vários conselhos. Ou seja, não é a democracia com a qual estamos acostumados, da esmagadora maioria sobre as minorias. Na política da comunidade,todas as opiniões possuem o mesmo valor.

Economia alternativa

Um caixa comum alimentado por doações, contribuições de moradores e pela receita dos negócios locais é usado para pagar as contas de água, esgoto e taxas municipais, assim como qualquer outro cidadão residente na Dinamarca o faz. Há uma política interna de geração de emprego dentro da própria comunidade, e os Christianites podem fazer uso de serviços como creche, asilos, oficinas e correios. Todo mundo paga aluguel, ao contrário do que pensam. É um preço simbólico, de 1200 coroas dinamarquesas, mas pagam. O dinheiro vai para o caixa coletivo e também para o pagamento da taxa de construção, tipo um iptu de Copenhague.

Para formatar ainda mais uma economia alternativa, a Christiania criou em 1997 a própria moeda (Løn), usada somente em transações efetuadas entre as pessoas que lá residem, uma vez que nós turistas, ainda usamos as coroas dinamarquesas para pagar por coisas dentro da comunidade. Ou seja, como milhões de turistas visitam o lugar anualmente, e usam a moeda do país, a economia de dentro da comundiade não fica assim tão alheia à do Estado.

Lá dentro dizem fazer as próprias regras. Contudo, na página da comunidade existe uma seção em que você é alertado sobre seus direitos, bem como sobre o que acontece quando você é pego pela polícia da Dinamarca. Ou seja, ainda estão sobre as regras lá de fora.

Arquivo pessoal 2009- saída da Christiania

Arquivo pessoal 2009- saída da Christiania

História em movimento

Por várias pressões, a comundiade sofreu mudanças, cedeu parte da administração da área para o Estado. Novas casas não podem ser construídas e a aceitação de novos moradores já passa por restrições há algum tempo.  Há regras, há procedimentos, há organização. O que fica muito longe das utopias anarquistas. Há um website, um guia para entrar na comunidade,  há sinal de TV, internet, há alguns poucos carros, modos de agir e pensar um pouco diferentes daquilo que se imagina em comunidade hippies.  O paraíso alternativo é a todo tempo ameaçado e moldado por conflitos. Internos e externos.

O que há de ruim nisso? Nada. É apenas a realidade e sua complexidade. Ainda acredito no que os Christianites afirmaram ser um dos principais objetivos da comunidade: promover reciclagem de bens, materiais e, sobretudo de ideias e ideais. Isso é o mais importante. E pode resultar em ótimas práticas do coletivo. Práticas que precisam ser recriadas e discutidas o tempo inteiro. Sem utopias ou grandes expectativas, a Christiania é sim um lugar muito especial, do olhar de quem teve uma experiência ainda limitada por lá.

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

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