Zoombie Ritual: entre o fiasco da produção e o amor das bandas pelo público

Hoje a gente publica aqui o último texto sobre o Zoombie Ritual, feito por nossa leitora Jaqueline Souza. A Jackie é publicitária, mãe dedicada e metalhead  apaixonada. Ela já contou pra gente como foi o primeiro dia do festival e os detalhes dos cancelamentos e problemas de produção ao longo do mesmo. Agora, ela traz o desfecho, com relatos de mais desrespeito ao público e uma lição do que os festivais não devem fazer! O texto está muito interessante e passa aquele sentimento de um festival que, apesar de todos os pesares, oscilou entre as misérias da falta de profisionalismo, e os prazeres de bons shows, entoados por artistas que amam o que fazem e se importam com seu público.

 

ZOOMBIE RITUAL: ENTRE O FIASCO DA PRODUÇÃO E O AMOR DAS BANDAS PELO PÚBLICO – por Jaqueline Souza

Sábado: esse foi o dia em que o Zoombie Ritual ultrapassou os limites da piada.jaqueline perfilDiante de tantos infortúnios em um único evento fica quase impossível não redigir um texto que antes de mostrar a parte positiva do festival (quando conseguimos encontrá-la) precisa sempre explicar todos os erros e problemas ocorridos dia após dia.

O dia que estava previsto para ser um dos melhores, o sábado, fez muita gente ficar de cabelo em pé, pois ao chegarmos ao local nos deparamos com uma cena deprimente. As pessoas estavam muito desanimadas, o salão onde os shows estavam acontecendo estava totalmente às moscas, o som completamente desligado. Sim, completamente desligado, sem rolar nem um sonzinho mecânico sequer para dar uma melhorada nos ânimos. A previsão era de que a primeira banda entraria para se apresentar às 13:00 h. Como estava bem cansada e um casal de amigos precisava se apresentar ao check in de outro hotel na cidade vizinha, decidi ir junto com eles e meu marido. Resolvemos almoçar por lá, a comida era muito boa por sinal. Isso fez com que nosso percurso mudasse um pouco e passássemos mais tempo nesse hotel. Chegamos à Fazenda Evaristo mais de 14:30 e nem sinal de banda tocando. Tudo desligado.

Percorremos o espaço e, entre uma conversa e outra, ouvimos o motivo de tudo estar a esmo. A equipe responsável pelo som do local estava fazendo uma espécie de “protesto”, pois até aquele momento a produção ainda não tinha acertado parte do pagamento acordado pela contratação dos serviços. Assim sendo, eles desligaram tudo e ameaçaram desmontar a estrutura e bater em retirada se o pagamento não fosse efetuado. Gente, que vergonha alheia desta equipe de produção! Sei que produzir um show não é fácil, um festival desta magnitude então… Porém, o amadorismo por parte da ZR imperou do início ao fim. E se não fosse o comprometimento de algumas bandas e, segundo algumas fontes, do Sr. Paulo da empresa Brutal Wear, nada teria acontecido e o restante do evento realmente teria sido cancelado.

Cada pessoa presente tinha uma versão para o que estava acontecendo e o cúmulo da falta de respeito da produção para com o público foi deixar todos sem nenhum esclarecimento oficial. Ninguém anunciou ou explicou nada do que estava acontecendo, simplesmente deixaram todo mundo esperando, o local terrivelmente sujo e o bar vendia apenas cerveja e guaraná. Água, durante muitas horas, era moeda valiosa. Para acabar com tudo o tempo decidiu não ajudar muito e veio a chuva, que então ajudou a tornar tudo ainda mais difícil e desgastante.

Fazenda Evaristo. Photo: Jaqueline Souza

Fazenda Evaristo. Photo: Jaqueline Souza

Por fim, já era quase 17:00h quando começaram a mexer nos backlines novamente. As luzes se acenderam e o som foi religado. Nenhuma explicação dada, contudo. Às 17:30 subiu ao palco a banda catarinense Frade Negro, os músicos agradeceram ao Paulo por ter conseguido fazer o som ser religado. Apresentaram seu heavy metal de forma direta, mas durante o som apareceram alguns probleminhas de equalização hora sumindo as guitarras hora sumindo os vocais. Fora os problemas técnicos, a apresentação deles foi normal. Mas, infelizmente, o público ainda estava bastante disperso e poucas pessoas ficaram presentes ali para assistir.

A segunda atração foram os paraguaios Kuazar, que entraram no palco destilando seus riffs thrash com muita energia. Rapidamente o local já estava lotado novamente. Parecia que muitos estavam aguardando por esta apresentação e o vocalista José Marinho Gonzales, que falava português tão bem que até pareceu brasileiro, intimou a todos: “Galera, vamos agitar que isso aqui está parecendo um velório!”. A banda realmente teve o poder de excitar o público. Conseguiram fazer com que a galera toda batesse cabeça loucamente com direito a grandes rodas e tudo mais.

A hostilidade anteriormente presente já estava indo embora, as pessoas pareciam mais contentes. Foi a vez da banda Tressultor, também de Santa Catarina, subir ao palco e apresentar o seu thrash metal com algumas pitadas de influência punk / hardcore e letras em português cheias de protestos políticos e títulos como “Ministério da Danação” e “Picadeiro”.

Uma das atrações nacionais mais aguardadas deste dia eram os paulistanos da Nervochaos , que haviam chegado ao local havia pouco, retornando de um show realizado em Santigo no Chile. Muito profissionais, cumpriam mais esta tarefa em Santa Catarina, mesmo com todo o transtorno que já havia ocorrido, atrasos e etc. Por volta das 20:30 a banda começa o seu show e como sempre vão direto ao assunto.

Nervochaos. Photo: Jaqueline Souza

Nervochaos. Photo: Jaqueline Souza

Logo no intervalo entre a primeira e a segunda música eles agradecem a presença do público e esclarecem: “Hoje a gente está aqui só por causa de vocês, é em respeito a vocês que estamos aqui, porque isso aqui já não é mais palhaçada, já virou um circo!”. Os fãs foram ao delírio. Mesmo tendo realizado um show de apenas 25 minutos (curtíssimo), mais uma vez eles fizeram uma apresentação digna de elogios, não só pelo som mas também pela atitude. Não quero soar baba ovo, mas esta mereceu um “Hail Nervochaos”.

Já era quase 22:00 h quando os austríacos do Belphegor, uma das mais aguardas do festival, iniciaram sua apresentação. A aglomeração tomou conta do local, todos queriam prestigiar a banda – que na minha opinião fez um show apático, talvez pelo cansaço de estarem numa longa tour e ainda precisar lidar com todos os problemas e atraso da produção daquele dia. Mesmo assim estavam ali cumprindo seu dever e respeitando seu público. Títulos clássicos como “Lucifer Incestus” , “Belphegor – Hells Ambassador” e “Rex Tremendae Majestatis” deixaram muitos com sensação de pescoço quebrado.

Belphegor. Photo: Jaqueline Souza

Belphegor. Photo: Jaqueline Souza

Quase 01:00 da manhã a principal atração do dia, o Terrorizer, subiu ao palco. Show único e histórico – a performance do mestre Pete Sandoval, lendário baterista, foi um show a parte. É impressionante vê-lo tocando. O público ficou insano, alguns tentando subir ao palco, o que infelizmente atrapalhava um pouco a banda. Mesmo assim a banda não perdeu o tom. Porém, a insanidade do público e falta de preparo da equipe de segurança acabaram mal. Houve um momento em que muitas pessoas invadiram o palco, alguns caíram e a grade de segurança que separava o público do palco foi rompida. Sorte foi não haver ninguém ferido gravemente após tal episódio. Apesar de tudo isso, o trio formado pelo ícone Pete Sandoval, Lee Harrison e Sam Molina demonstrava tanta tranqüilidade que pareciam estar em casa. Simplesmente memorável.

Depois de uma breve pausa foi a vez dos noruegueses Blood Red Throne. A banda esteve circulando a América do Sul e fez shows no Peru, Colombia, Equador, Chile e Brasil ao lado do Nervochaos. Por alguns momentos pensamos que não haveria a apresentação deles, pois na programação fajuta do festival a previsão era que eles tivessem entrado antes do Belphegor. A ordem da entrada de várias bandas não foi respeitada, o evento não cumpria com nada do que era informado. Então, ver o Blood Red Throne subir ao palco foi uma surpresa boa. O show foi um dos pontos altos da noite, com destaque para a atuação brutal do vocalista Yngve Bolt.

O encerramento desse dia de shows aconteceu com a apresentação dos belgas do Enthroned. A banda que já passou pelo Brasil outras vezes e tem um público cativo no país fez um show interessante, com um setlist bem diversificado. O show iniciou com músicas do seu lançamento mais recente, o álbum “Sovereigns”, mas não deixou faltar clássicos como “Ha Shaitan” e “Evil Church” presentes no disco “Towards the skulthrone of Satan”, “Through The Cortex” do álbum “Tetra Karcist” dentre outras.

Ao terminar o show do Enthroned saímos de lá já sabendo que o domingo seria um dia mais curtos, pois estavam previstas apenas duas apresentações: Mystifier e Heandhunter D.C, ou seja, este dia entrou para a história como o dia em que a Bahia literalmente salvou a pátria.

Domingo…

Fico contente em contar que no último dia do evento ainda havia uma grande concentração de pessoas na Fazenda Evaristo. Mesmo com tanto desgaste o público do metal extremo brasileiro se manteve ali, firme e forte até o final. Dois grandes nomes do metal extremo nacional salvaram o encerramento do festival com uma postura digna de muitos aplausos.

A primeira a se apresentar foi o Mystifier, que já estavam no local desde a quinta-feira confraternizando e prestigiando as demais bandas. A entrada de Sorcerer Dourden ao line-up da banda em 2013 foi uma feliz aquisição. O show mesclou músicas de seus três álbuns e teve como ponto alto a descida de Beelzeebubth tocando em meio ao público, separado apenas pela grade de proteção. Muitas pessoas cantavam as músicas e agitavam sem parar. Mais uma prova concreta de que o metal extremo brasileiro tem muito poder.

Mystifier. Photo: Slanderer Possessed

Mystifier. Photo: Slanderer Possessed

Para encerrar o domingo e dizer adeus à minha primeira experiência com o Zoombie Ritual Festival, tive o prazer de assistir na íntegra o show do Headhunter D.C. Imaginem um show poderoso: Sérgio Ballof mostrou, a meu ver, que é um dos melhores e mais carismáticos vocalistas do death metal brasileiro. Ele encerrou o festival pedindo ao público, mais uma vez, que não desistissem da cena nacional. Que mesmo diante de tanta frustração tirássemos algo de positivo desta experiência e que refletíssemos profundamente sobre o assunto.

Ta aí, esta reflexão realmente é algo que deve acontecer! Acredito que o Brasil sofre de um mal crônico de falta de profissionalismo, e não é só no metal não. O país sofre também com o problema da “memória instantânea”: daqui a poucos dias este assunto já terá sido esquecido e a maioria das pessoas que se sentiram lesadas pelo festival não terão corrido atrás de seus direitos legais, o que contribui para que amadores e oportunistas continuem ilesos, praticando seus atos covardes e enfraquecendo a imagem da cena brasileira.

O meu recado é que, caso você tenha comprado o seu ingresso e se sentido enganado, corra atrás dos seus direitos! Se você comprou ingresso, não gostou de ver tantos cancelamentos, mas ainda assim encarou a experiência como uma forma de curtir as bandas nacionais e confraternizar com os amigos, Ok!Só não se esqueça de que além de headbanger você é também cidadão e consumidor.

Até o momento não consegui formular uma opinião concreta sobre o episódio Zoombie Ritual 2014. Ainda estou digerindo e não elucidei se tudo que deu errado aconteceu por dolo ou culpa. O problema é que, de um jeito ou de outro, algo se faz claro que o Brasil e os fãs de metal saíram perdendo nessa história.

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1 comment

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  1. caio 23 dezembro, 2014 at 13:54 Responder

    É sempre assim mesmo. Os picaretas reinam e no final quem segura as pontas são os que menos são prestigiados pelo público. Muitas bandas destas que estavam aí são bandas que estão na batalha a anos e nunca conseguem fazer um show honesto.São sempre as enganadas as que tomam cano, mas estão sempre prontas para tocar. Até que os membros começam a sair de tanto dar murro em ponta de faca e as bandas se acabam.

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