" /> Sónar São Paulo: faltou atmosfera de festival, sobrou jeito de balada | Festivalando
sónar são pauloFotos: Eduardo Magalhães/Divulgação

Sónar São Paulo: faltou atmosfera de festival, sobrou jeito de balada

“Sónar Barcelona é uma instituição. É muito difícil reproduzir algo tão único”. Foi o que um amigo me disse no domingo pela manhã depois de ouvir minhas impressões sobre o Sónar São Paulo. O lineup enxuto e a montagem da programação já davam pistas de que ele estava certo antes mesmo do festival acontecer, mas era justo que se fosse ao mesmo para ter o veredicto. Pois aqui está: foi uma balada cult e a experiência de festival passou longe.

Houve bons shows, mas fiquei com a impressão de que se eles tivessem ocorrido sem a marca Sónar teriam o mesmo efeito final: um bom programa para um sábado à noite.

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A opção de concentrar os shows num único dia, varando a madrugada, numa casa de shows genérica, de um lado, e diluir a interessante programação de workshops, palestras e filmes (Sónar+D e Sónar Cinema) em dias úteis desfragmentou o festival e dificultou qualquer possibilidade de experiência mais imersiva no “universo Sónar”.

Durante toda a noite no Espaço das Américas fiquei pensando como o Sónar ganharia uma cara de festival de verdade se os shows tivessem sido distribuídos ao ongo do dia, no mesmo espaço onde eu pudesse intercalar shows com a participação em um workshop para construir um mini alto-falante, uma parada para ver um filme ou ter um insight em uma palestra (coisas que rolaram durante a semana no Sónar+D e no SónarCinema em horário ou dia ingratos para quem trabalha ou não mora em São Paulo).

Convenhamos, fora a opção pela programação fragmentada (me parece que para dar a impressão de um evento com programação extensa), nem a época do ano colabora para criar uma atmosfera de festival mais imersiva. Enquanto em junho, em Barcelona e em toda a Europa, os europeus desfrutam do verão num relaxado clima de férias e desbunde, aqui, em novembro, a gente se vira como pode com esse ritmo atribulado de fim de ano, entre a ansiedade por uma pausa no fim de dezembro e o cansaço acumulado daquilo tudo que a gente fez e ainda vai tentar fazer até o ano terminar. Só sobra tempo mesmo para um show no fim de sábado e, quem sabe, uma passada rápida naquela palestra inspiradora depois do trabalho.

A disposição do público para encarar uma maratona de shows típica de festivais também não era das maiores. A chilena Valesuchi, que abriu a noite, parecia estar ensaiando, tão vazia era a pista: só umas poucas dezenas chegaram para os primeiros shows – era mesmo uma balada. Perderam a oportunidade de ver na sequência um show menos óbvio, quando Evian Christ se valeu de muito som e um jogo de iluminação quase zero para imergir o público numa penumbra musical.

A casa só começou a lotar com a proximidade do show do Chemical Brothers, mas antes havia Brodinski que, involuntariamente, fez o esquenta da pista para o show mais esperado.

Sem decepcionar, o Chemical Brothers entregou um espetáculo audiovisual primoroso. Apesar de um uso meio over do recurso de feixes de luz, foi um show montado para se ouvir e se ver. Quem se ligou nas projeções enquanto curtia as músicas viveu uma outra experiência. Quem teve paciência ouviu os hits que interessam, esparsadamente distribuídos no set – “Hey Boy Hey Girl abriu o show sendo cantada como mantra pelo público. “Setting Sun” e “Block Rockin’ Beats” mostraram como quase 20 anos são muito tempo e quase nada.

Zopelar veio na sequência para acalmar a euforia e recalibrar a energia para a outra atração mais esperada da noite. O Hot Chip agradou tanto quanto o Chemical Brothers, deixou muita gente feliz com um caminhão de hits e, depois de horas, quebrou o gelo entre público e artista, nos momentos em que o vocalista Alexis Taylor trocou palavras com a plateia. Quem foi forte o suficiente ainda ficou para ver Pional encerrar a noite – ou abrir a manhã – até as seis.

O Sónar São Paulo tem edições confirmadas no Brasil até 2018. É tempo razoável para deixar de ser apenas uma versão pocket da matriz, sem atmosfera de festival e que tem nada mais que uma marca bem-sucedida para ostentar. À espera de edições melhores.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

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