Qual é a comunidade dos seus sonhos no Roskilde?

Para mim não foi difícil escolher. No primeiro dia de reconhecimento de área do Roskilde Festival aqui na Dinamarca, depois de já termos passado pela Street City e Game City, finalmente adentramos a Dream City – o festival é assim, cheio das “cities” criadas por eles para identificar as diversas atrações para além da música, distribuídas na área em que ele acontece. Na Street City ficavam atividades como Graffiti, pistas de skate e shows de Rap . Já na Game City, jogos como futebol, basquete, vôlei, ping pong,escalada,  uma academia, slackline e outras atividades físicas. A Dream City era o lugar para experimentos de arquitetura, reciclagem e criação de comunidades criativas, ao invés dos acampamentos simples – e, tomamos liberdade inclusive de apelidar a área desse camping mais simples como a party city.

Já era tarde e estávamos cansadas. E eis que, de longe, a primeira coisa que avistei ao entrar na Dream City  foi um pentagrama e uma espécie de cruz invertida musical – uma epifania metálica, ridiculamente estereotipada, mas incrivelmente empolgante no meio daquele mar de dubstep, música pop e festas intermináveis que me deixaram meio de saco cheio das Orange lands. Parecia vazia e silenciosa a minha já então favorita comunidade. Deixamos para voltar outro dia.

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Eram mais de 30 comunidades dos sonhos, situadas na Ágora H do camping site. Certamente não conseguiríamos visitar e saber da trajetória de todas. Mesmo de longe foi possível perceber a criatividade dos habitantes sonhadores. Camp energized, o qual usava formas alternativas de obtenção de energia, como a captação solar e também a energia vinda de uma plataforma na qual os visitantes dançavam. TrashCamp, que era todo trabalhado no estilo saloon western, e propunha reciclagem de lixo – aliás, muitos camps tinham como mote a coleta e reciclagem de lixo! O que me deixou muito confusa, pois o festival continuava muito sujo, por mais que esse povo limpasse e reciclasse!

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Algumas coisas nos chamaram muita atenção. A Dream City tinha nada mais nada menos do que uma biblioteca, uma cozinha coletiva e também um correio, para correspondências dentro do festival. Não pude deixar de notar o unicorny camp – com dois unicórnios gigantes na entrada, seria impossível! O pessoal de lá trouxe palestras e filmes relacionados ao universo gay.
A Johankat’s geodome também chamava atenção pela bonita forma e localização central na Dream City. Trata-se de um experimento de arquitetura e design com materiais reciclados. Mas eles mesmos recusam o conceito de reciclagem e substituem pelo conceito de re-decoraçao a partir de aproveitamento de materiais.

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No terceiro dia do festivalando no Roskilde, voltamos ao local da epifania, o Blast Beast Camp. Tirei uma foto da frente do lugar, assim como fiz em todos os demais camps. A diferença é que os meninos e meninas da metaleiragem dinamarquesa nos chamaram para uma cerveja. Aceitamos a armadilha de satanás. Conversamos sobre o Sepultura, Sarcófago, Mutilator e outras bandas oitentistas brasileiras. Também apliquei algumas bandas novas do Brasil que estavam no meu celular. Ouvimos trocentas vezes a música “everybody dies”, da banda The Hell, que pareceu ser uma espécie de hino do camp esse ano.

Deu para sacar também o tanto que esses dinamarqueses entendem de Brasil. Estava conversando com a Janet, minha mais nova amiga do metal, e outra amiga dela nos interrompeu: “mas ela não é brasileira? Por quê você não está falando espanhol com ela?”… pffffff. Janet é uma dinamarquesa muito simpática que trabalhou como recepcionista durante todo o ano passado no Uruguai. Apesar de metaleirissima, ela morre de saudade do clima latino americano.
Mas de onde saiu o projeto do Blast Beast? Foi o que perguntei ao Anders, arqueólogo e fã De Amon Amarth que diz ter deixado os cabelos loiros crescerem por causa do Ozzy. Anders, que apesar de toda a metaleiragem tem apelido de Hippie, contou que há 14 anos o mesmo grupo de amigos vai ao festival. E a ideia e conceito do Blast Beast camp, que tem como missão espalhar a cultura metálica pelo Roskilde, é também um blog e projeto de outros 3 amigos, que fazem releases de bandas e shows de metal. E o espírito descontraído do festival também não falta a esses trevosos que são pura simpatia e loucura. O Blast Beast promoveu o hilário “stop mosh” – imagina brincar de estátua, mas só que com heavy metal no talo; oficina de “true corpse paint” – o nome ridículo dispensa quaisquer outros comentários; e o quiz do metal.

Tal como qualquer outro camp, o Blast Beast teve uma planta apresentada à organização, e 100 dias antes do festival para construir a comunidade sonhada.
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Os integrantes participaram de workshops de aproveitamento de energia, engenharia e arquitetura, bem como reciclagem de materiais. Tudo para deixar o camp bonitinho, do jeito que satã gosta. No makers space eles mesmos fizeram o potente alto falante que tocaram provavelmente as músicas mais interessantes entre todas que foram tocadas naquele camp site.

Qualquer um que compra um ingresso para o Roskilde pode apresentar uma proposta de comunidade dos sonhos para a organização dos festivais. Eu já me senti representada. Quanto às demais comunidades que não conseguimos ver, Det er ligemeget (significa “isso não importa” em dinamarquês… outra expressão que cansamos de ouvir esse povo falar!). Nos divertimos bastante com o que vimos!

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário no mundo sobre Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Comecei a ir em festivais de metal internacionais em 2009. Desde então, viajar em busca da música, essa outra paixão, tornou-se um projeto profissional que hoje chamamos de Festivalando.

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