Fotos: Gracielle Fonseca/FestivalandoFotos: Gracielle Fonseca/Festivalando

Roskilde, um festival-cidade

Entre o fim de junho e o início de julho, a quarta cidade mais populosa da Dinamarca é Roskilde, não a cidade em si, que fica a 270 km de Copenhague, mas o festival homônimo que ela abriga. Em uma área de 2,5 milhões de metros quadrados, Roskilde, o festival, é a morada de 130 mil pessoas por uma semana. Convenhamos que para um país cuja cidade mais populosa tem 570 mil habitantes habitantes (a capital Copenhague), não é tão difícil assim entrar na lista das cidades com mais gente. Mesmo assim, não deixa de ser significativo, principalmente porque é exatamente como uma cidade que o festival tenta se configurar: Roskilde se propõe como um espaço de convivência.

Há muita música com os grandes shows (este ano tem Stones), mas eles só começam pra valer cinco dias depois da abertura do camping e isso não afeta em absolutamente nada o povoamento dessa cidade temporária. Já um dia antes da abertura do acampamento, no sábado (28), o público fazia filas para pegar os melhores lugares para montar sua barraca.  Dois dias depois, cerca de 80% das áreas de camping já estavam ocupadas.

Na primeira visita que eu e Gra fizemos ao local do festival para reconhecer território, vimos que o pessoal entende que o Roskilde não se trata só de música. Por uma semana, o público vive numa cidade eternamente festeira. Como a Gra disse, é a Party City. Se não tem show ainda nos palcos, tem som alto, cerveja, gente fantasiada e pra lá de alucicrazy em cada bloco do acampamento.

roskilde_pessoas

Como passatempo pra esse pessoal, um monte de  atividades distribuídas entre as chamadas cities, cidades dentro dessa grande cidade. Na Game City, quadras de vôlei, futebol, basquete e rapel.  Na Relax City, um lago para nadar (voluntários checam e barram quem está sob efeito de álcool), instrutores de ioga e de alongamento. Na Street City, uma rampa de skate. Para abastecer esse pessoal todo, supermercado (sim, um supermercado lá dentro), muitas tendas de comida e lojinhas de conveniência com capas de chuva, pilhas e camisinhas.

roskilde_gamecity

Como nem tudo é festa, notamos já no primeiro dia de evento muito lixo, muito mesmo, e banheiros químicos em estado deplorável (a Gra foi a corajosa da vez e encarou um deles). Não deixa de ser curioso, já que se vê exatamente o oposto nas ruas da Dinamarca. Eu e Gra usamos um banheiro público limpíssimo no centrão de Copenhague, com papel e sabão.

roskilde_sujeira

É um grande contraste com o próprio espírito do festival, principalmente porque a partir do conceito de vida em comunidade do Roskilde são desenvolvidas ações para melhorar aspectos das cidades dinamarquesas. Como diz a organização, o festival é também um “city lab”. O centro nacional de arquitetura, por exemplo, testa protótipos e técnicas de
planejamento que vão ser aplicadas em Copenhague. Parte da arrecadação do festival é doada para instituições beneficentes escolhidas pelo próprio público. Tudo isso é uma herança da origem hippie do festival, que existe desde 1971.

Sobre esse aspecto, inclusive, chama atenção a ausência quase que absoluta de marcas no festival, seja em banners ou em ativações, como é tão comum nos dois grandes festivais brasileiros, Lolla e Rock in Rio.  A única marca presente é a de uma cerveja, patrocinadora solitária do festival. Há lojas de roupas, sapatos e acessórios, mas tudo se assemelha a um grande camelódromo/feirinha de rua e não a um shopping.

roskilde_camelodromo

Com essa filosofia, o Roskilde ostenta o rótulo de um dos maiores e mais antigos festivais da Europa. Foi fundado em 1971. Esta é a 44ª edição. Desde os anos 1990, o festival vem se agigantando em público, não sem o ônus de episódios que comprometeram o conceito bonito do festival. Em 2000, nove pessoas morreram pisoteadas no show do Pearl Jam (foi a primeira vez que ouvi falar de Roskilde, em algum programa da MTV). Em 2005, houve três casos relatados de estupro.

Bob Marley, Kinks, e Iggy Pop já tocaram em Roskilde. O Brasil  vem ganhando progressivamente mais espaço na programação dedicada ao que eles classificam com o preguiçoso termo ~world music~ (como se rock e pop fosse musica de outro mundo, coisa de ET). Milton Nascimento, Marcelo D2,Carlinhos Brown e Criolo já foram atrações do festival. Este ano é a vez de Emicida.  E também do Festivalando, que ainda tem muitas impressões pra dar sobre o evento. Na tag Roskilde a gente conta com detalhes de lupa o que esse festival-cidade tem de bom e, se for necessário, também de ruim.

Compartilhe este post

Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

4 comments

Add yours

Deixe uma resposta

Close