" /> Não era festival. Era cilada, cilada, cilada... | Festivalando
Bence Szemerey/Divulgação

Não era festival. Era cilada, cilada, cilada…

Toda fase final tem um chefão difícil de ser encarado e o Sziget, em Budapeste, na Hungria, cumpriu esse papel dentro da primeira temporada do Festivalando na Europa. Só que, diferentemente do que a gente imaginava, ele não foi um chefão que nos desafiou pelo tamanho e força (que são só de fachada). Ao invés de nos esmagar de uma vez só com seu jeito de gigante que a gente descobriu não existir, ele nos exigiu paciência para vencê-lo pouco a pouco.

O festival tem muitas falhas de estrutura e conceituais, que a gente vai detalhar em posts futuros, mas em resumo dá para dizer que ele peca pelo excesso. É nítida a ânsia do Sziget em ser um festival gigantesco e de te enfiar goela abaixo diversão a todo custo. Talvez não haja nada de errado nisso desde que a obsessão não te faça errar a mão e perder o foco. E o festival húngaro não consegue evitar essa falha.

Grande parte das 200 atrações e atividades prometidas por dia acontecem em espaços amontoados uns ao lado dos outros, muitas vezes com a música de um interferindo na do outro. Em muitos casos, é preciso pagar para participar dessas atividades extra-show. Os estímulos são incessantes e aleatórios (aulas de circo do lado de estandes de universidades europeias; uma instalação de arte do lado de um “fitness park”). No fim, o que se tem é um conjunto superficial de atrações com diversão pré-fabricada que não consegue envolver e engajar o público profundamente na alma do festival, se é que o público realmente se importa com isso, porque a impressão é que a maioria está ali em nome de um grande oba-oba e engole qualquer besteira que lhe for oferecida.

Fotos: Mozsi Gabor e Sandor Csudai (hipopótamo)/Divulgação

Fotos: Mozsi Gabor e Sandor Csudai (hipopótamo)/Divulgação

 

Como tudo pode ficar pior, a obsessão da organização no sentido de ocupar todo o espaço possível com elementos aleatórios deixa pouco espaço sobrando para as pessoas circularem. A sensação que se tem o tempo todo é a de estar no centro de uma grande cidade num horário de pico na época das compras de Natal. Não há espaços amplos para circulação e escoamento da multidão, que em uma semana chegou a 400 mil pessoas.

Ah, claro, tem a música e só ela salva. O line up é realmente bom, e foi ele que nos deu vidas extras para voltar à ilha da aleatoriedade durante uma semana, todos os dias, e, no fim, vencer esse festival. Além dos dois grandes palcos reunirem nomes relevantes que tocariam em qualquer outro festival sintonizado com o pop e o rock atuais (teve Queens of The Stone Age, Jake Bugg, Macklemore & Ryan Lewis, Skrillex), há boa oferta de shows de jazz, música latina, um curioso palco com bandas húngaras e artistas europeus que passam bem longe do mainstream.

Mas nem isso consegue tirar do Sziget o título de festival cilada dessa primeira temporada. É um grande jogo de PS4, com apelo visual, muitas cores e recursos, mas às vezes a gente só precisa mesmo de um gráfico simples à la Atari pra se divertir.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

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