O Forcaos 20 anos é duplamente especial. Não só pela comemoração das duas décadas de existência. Mas, também, pelo fato de ter assumido o posto entre os festivais de metal a colocarem as mulheres à Frente. E assim, o Nordeste dá show de civilização mais uma vez – lembram do Abril Pro Rock deste ano, não é? Equidade de gênero nos lineups dos festivais de metal nordestinos é algo levado a sério. Por isso, no Forcaos 2019 haverá um dia dedicado às bandas formadas por mulheres. No entanto, existe algo que foi determinante para que um dia como este chegasse: a participação delas foi e será, também nesta edição, muito para além dos palcos.

O Forcaos sempre foi delas e com elas

Coletivo Girls To The Front/ Divulgação

Quando conheci o Forcaos, em 2015, a professora Abda Medeiros se encarregou dos debates da programação e de outras várias funções de produção. Na equipe também haviam várias outras mulheres. Muitas delas sempre estiveram ali, construindo o festival junto com eles, desde o início, como afirmou Amaudson, um dos organizadores.

Já na edição de 20 anos, o festival contará com a participação do Coletivo Girls To The Front. Hoje formado por 11 mulheres, amigas e produtoras, o GTTF já realizou 5 edições do festival homônimo. O coletivo surgiu da inquietação de ver a indústria musical limitando a participação feminina nas cenas à exploração de atributos físicos e as relegando a postos subordinados. Assim, o Girls To The Front – nome inspirado na frase usada por Kathleen Hanna nos seus shows com banda Riot Grrrl Bikini Kill têm como maior objetivo combater o machismo dentro da cena rock underground autoral cearense e abrir mais espaço para as mulheres nos palcos.

Com a participação do GTTF no festival, as mulheres estarão oficialmente à frente do Forcaos 20 anos, na curadoria e produção. E posso dizer que, é justamente por isso que esta edição promete. Conversamos com as mulheres do Girls To The Front para saber mais detalhes:

Forcaos 20 anos: entrevista com o coletivo Girls To The Front

F: Que recado vocês querem dar com essa edição do Forcaos com um dia do lineup dedicado com bandas com mulheres em sua formação?

GTTF: Queremos passar a mensagem que juntas, já somos a revolução! As mulheres devem ocupar os espaços que lhe são de direito,seja produzindo, seja como musicista, seja como público…estamos todas em busca de mostrar que o mundo mudou e não vamos mais baixar a cabeça, vamos lutar de cabeça erguida e mostrar que aqui é sim nosso lugar e sabemos fazer muito bem tudo que nos é inviabilizado pelo sistema patriarcal. Somos Vorazes!!!

F: Queria saber o que entndem como empoderamento na música e por que acha importante pautar o empoderamento em festivais?

GTTF:O empoderamento feminino na música já é um ato de revolução em si, onde a mulher grita, utilizando seja voz ou qualquer instrumento, sua sede por justiça e equidade dentro desse sistema que nos subjulga por sermos mulheres. Os Festivais que têm como base o empoderamento feminino são um alicerce nessa luta, onde além de voz, se dá espaço. É um lugar onde energias se renovam e onde nos sentimos confortáveis para sermos quem realmente somos na essência.

F: Como avaliam o cenário/contexto de festivais e iniciativas culturais no país – e também comparando com o nordeste -, no quesito de equidade de gênero?

GTTF: Acredito que ainda é no estilo Faça vc mesma, pq estamos ainda muito longe de uma igualdade de espaço dentro da cena. Então arregaçamos as mangas e fazemos acontecer no melhor estilo Girls To The Front (risos). A nossa cena tá linda demais, apesar de termos ainda muita resistência na falta da representatividade, tem muita banda das antigas e novas na luta e fazendo bonito. Poderia ressaltar aqui por exemplo, uma banda de Maceió, chamada Oldscrastch que tocou no terceiro Girls To The Front, com um som nervoso e letras que tratam das nossas angústias e desejos em forma de um punk da melhor qualidade

F: E nessa curadoria que vocês fazem, tanto no GTF e pro Forcaos, como vc descreveria o cenário de bandas de mulheres?

GTTF: O cenário está crescendo porque está juntamente com o empoderamento e representatividade no meio geral. Apesar de estarmos ainda na mira do machismo, conseguimos através do festival, incentivar mulheres a terem suas próprias bandas, cantar gutural, tocar o que quiser.

F: Quais atividades vocês estão programando pro Forcaos para que, além da música, possam reverberar o que acreditam como empoderamento?

GTTF: O Forcaos tem tudo pra ser lindo demais, ficamos logo com a abertura e no dia mundial do Rock, uma super responsabilidade que agarramos com muito entusiasmo. Teremos 6 bandas, todas com mulheres na formação, uma feirinha de economia criativa, tb com mulheres micro empreendedoras, DJ, sorteios de kits e rifas, tudo pra garantir que no festival, mulheres de vários eixos se encontrem, se acolham.

Forcaos 20 anos rola em 5 dias e 4 casas diferentes

Ouse/ Divulgação – atração confirmada dia 13/07 Forcaos 20 anos.
Hell Lotus/ Divulgação – atração confirmada para o dia 13/07 Forcaos 20 anos.

A edição deste ano do Forcaos vai rolar em cinco dias. O primeiro, 13/07 acontece no Pirata Bar é comandando por bandas com integrantes mulheres. No lineup há artistas como Menstruação Anarquika, Ouse, Coldwish, Hell Lotus, Land of Lemuria e Corja. Já o segundo dia será 14/07, com shows no Theatro Jose de Alencar. Ainda, rolam shows na Vila das Artes, em 19/07. E nos dias 21 e 28 de julho, o festival toma conta da casa Havana 1884.

forcaos 20 anos
Land of Lemuria/ Divulgação – atração confirmada no dia 13/07 Forcaos 20 anos.

O lineup para os demais dias de festival ainda não foi confirmado. Pois como muita gente já deve ter visto, tá rolando uma vaquinha para viabilizar a edição deste ano. Amaudson “Bodim”, um dos organizadores do festival nos dá mais detalhes a seguir.

Vaquinha Forcaos 20 anos

A edição de 20 anos do Forcaos precisa de nós para acontecer. Apesar de já ter os palcos parcialmente definidos, ainda é necessário arrecadar dinheiro “para fortalecer o cast, financiar passagens, cachês de nomes que ainda estamos negociando”, afirma Amaudson.

Segundo o organizador, a cultura tem sido alvo de corte em todo o país. Assim, infelizmente o festival sofreu as consequências deste ano. Além dos cortes, não foi possível utilizar os equipamentos culturais da cidade, tal como o centro cultural Dragão do Mar, onde estivemos para uma das edições do festival, em 2015.

Resiliência

Bem humorado, Amaudson está confiante na vaquinha. Afirma ter recebido solidariedade de músicos e pessoas de todo o país. No entanto, fala que as dificuldades para a realização do festival sempre existiram. “Costumo dizer que todo ano temos um plano A para o evento. Mas geralmente, exercitamos o alfabeto inteiro(risos)”. Amaudson avalia que o cenário é adverso. Entretanto, “os tempos difíceis estimulam a criatividade, a união e a resistência”.

Em seus 20 anos, o festival teve que vencer diversos obstáculos. Então, este ano passa por mais uma prova, mas contanto dessa vez com a ajuda do seu público. Porém, quando perguntei sobre as consequências futuras dos cortes e possível fim do festival, Amaudson foi assertivo: “Enquanto tiver gente para carregar e produzir conosco, estaremos aqui firmes e fortes”.

Como contribuir?

Todo mundo pode contribuir com qualquer quantia para o financiamento do festival. A meta é de 17 mil reais. No entanto, apenas 1,600 foram arrecadados até o momento da publicação.

Para contribuir, basta fazer um cadastro neste site e pagar para engordar a vaquinha. Além do financiamento coletivo online, o festival também está vendendo camisas e chaveiros da edição comemorativa para arrecadar fundos para 2019.

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