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Festivais unidos contra a vergonha alheia: o caso do cocar

Este ano no Lollapalooza, em São Paulo, topei com uma menina que usava um cocar indígena. A peça tinha acabado de ser lançada por uma grife nacional que se orgulha de ser brasileiríssima e estava à venda por desrespeitosos R$ 600. Lá na Dinamarca, no Roskilde, a Gra também topou com uma mocinha usando o acessório. Dois exemplos da reverberação de uma ~tendência~ do micro-universo fashion dos festivais, aquele mesmo onde coroinhas de flor e camisetas dos Ramones são astros e estrelas do figurino típico.

Mas como esse pessoal talvez não saiba que bancar o entendido de estilo posando com um cocar equivale a ofender uma cultura secular e historicamente dizimada e oprimida (muitas vezes nas mesmas terras onde hoje acontecem os festivais) na visão de seus originais detentores – os povos indígenas, nada mais que seis festivais, até o momento, proibiram em algum grau o uso da peça atendendo ao clamor de povos nativos, seus descendentes ou ativistas.

O alerta vermelho soou mais barulhento este mês, quando o gigantesco Glastonbury, um dos maiores festivais de música do mundo, anunciou que a venda do item será proibida a partir do próximo ano. A decisão atende a uma petição online que alega que o uso da peça é culturalmente ofensivo.

A medida repete ações tomadas por outros festivais, que estão reagindo à polêmica que se arrasta pelos últimos quatro anos, pelo menos, quando a ~modinha~ começou a se espalhar no Coachella (que por enquanto finge que não tem nada a ver com a história).

GQ.com/Style.com

Público no Coachella. Imagens: GQ.com/Style.com

O pioneiro foi o Tall Tree Music Festival, em Vancouver, no Canadá. Desde o ano passado o uso do cocar é proibido, e a organização reafirmou que a decisão será mantida enquanto o festival for realizado. Mais outros dois festivais canadenses engrossaram o coro este ano. O Bass Coast Festival, na Colúmbia Britânica, atendeu ao pedido de tribos locais e proibiu o uso do acessório. O festival acontece em Nicola Valley, região ocupada por várias reservas indígenas. O FozzyFest, que acontece na mesma região, adotou uma política de banimento extra-oficial. Seguranças foram orientados a gentilmente informar qualquer pessoa utilizando o acessório que o uso do mesmo não era permitido na área do festival.

Nos Estados Unidos, o festival Lightning in a Bottle decidiu pôr fim ao uso da peça após após atender apelo dos Chumash, que vivem na mesma área onde o evento acontece, na Califórnia. Em seu site, o Lightning divulgou um texto bastante direto e didático explicando porque o uso do cocar deve ser evitado.

Na Austrália, o Meredith Music Festival acabou de incluir os cocares na lista de itens proibidos. Além de itens que oferecem perigo ao público, como fogos de artifício e recipientes de vidro, estão vetados também cartazes, roupas e itens de vestuário que possam ter seu uso entendido como ofensivo, e os cocares se incluem neste grupo. Assim como o festival californiano, o Meredith também expôs em seu site as questões culturais e históricas envolvidas na decisão.

Mas como assim estão regrando o que eu vou usar ou não num festival?

Os argumentos são longos e sérios, mas tento aqui fazer um resumo do resumo feito pelo site Native Appropriations. Para começar, o uso do cocar é entendido pelos nativos como uma forma de estereotipagem, na medida em que dá a entender que qualquer cocar representa qualquer nativo, enquanto existem, só nos Estados Unidos, mais de 500 tribos distintas, com seus próprios conceitos, hábitos e valores.

Além disso, posiciona os pertencentes a essas tribos como uma espécie de peça de museu, que só se identificaria como indígena com o uso da peça, quando na verdade as formas de construção de identidade, seja por meio de elementos abstratos ou físicos, estejam constante e naturalmente se modificando, como ocorre em qualquer cultura.

Mais que isso, o cocar é um símbolo sagrado, cujo uso é reservado a cerimônias que celebram ritos de passagem ou eventos que tenham profundo significado para determinados grupos. Por fim, a apropriação por outros grupos da população é vista por algumas tribos como um símbolo da perpetuação de um histórico de dominação que ainda não teve seu fim.

Edward S. Curtis

Chefes Garfield, Jicarilla Apache (1904), e Joseph, Nez Perce (1903), retratados por Edward S. Curtis no início do século XX

Portanto, apenas PARE. Se há um grupo enorme de gente se sentindo incomodada com uma atitude desse tipo, pare. Não dê motivos para o outro se sentir ofendido ou desrespeitado.

Então, miga, se a vontade de bancar a fashionista de festival for muita, faz um favor: aposte na coroinha de flor mamãe-sou-fada, que é opção segura. Ou se quiser ousar e chocar a sociedade festivaleira com seu pretenso senso estético, faça a dinamarquesa, mostre-se ~antenada~ com a última moda na Escandinávia e arrisque uma pochete. Não ofende nada nem ninguém. Bom, talvez ofenda o bom gosto, mas aí é polêmica pra outro post, né?

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

5 comments

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  1. Beatriz 20 agosto, 2015 at 19:21 Responder

    Certissimo, é extremamente ridiculo isso, as pessoas só usam por “modinha” e não veem que estão ofendendo todo um povo.

  2. Hugor 27 abril, 2017 at 11:08 Responder

    Pior que usar cocar dessa forma, é quando esse cocar é feito com pena de aves que são abatidas para simplesmente servir de enfeites de forma banal. Os índios yawanawá do Acre, da criança ao cacique, todos exibem esses cocares em um festival anual. Já vi imagens de índios exibindo cocares feito com penas da harpia (gavião real) uma ave rara. Qualquer pessoa de bom censo sabe que faz parte da cultura indígena o uso de vários adereços, mas alguns se restringem às autoridades da tribo como o cacique e o pajé. No festival yawanawá o turista que quiser traz como suvenir um cocar, isso é contraditório, quando achamos que os verdadeiros preservacionistas da floresta são os nossos índios. Imagine se a população indígena fosse a de 300 anos atrás, e que fosse adotado essa moda, com certeza aves como harpia, araras e outras já estariam extintas.

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