Priscila Brito

Cantando com as mãos e ouvindo com os olhos em Montreux

Como viver a experiência de um show quando uma deficiência auditiva impede que se tenha acesso ao elemento central de uma apresentação ao vivo, o som? Da mesma forma com que deficientes auditivos se comunicam: com a linguagem de sinais. Parece simples, parece óbvio, mas quase ninguém tinha pensado nisso até então a não ser a intérprete de sinais Laura Schwengber.

Com suas mãos cantantes (singing hands), a alemã tem se especializado em fazer a tradução de shows para a linguagem de sinais e quem esteve no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, este ano, viu uma amostra desse trabalho tão sutil, bem sacado e necessário. Dividindo com músicos o espaço do palco montado no Parque Vernex, Laura traduziu com gestos, expressões e movimentos de corpo a íntegra do show de jazz pop da fofa cantora israelense Ella Ronen.

Um pouco mais cedo, a moça de 24 anos contou em palestra um pouco de seu trabalho. Ela traduz shows em alemão e inglês, os dois idiomas de sinais que ela domina – a linguagem de sinais, assim como qualquer outra forma de comunicação, é definida culturalmente e, por isso, não é universal. Cada país ou mesmo região desenvolve seus próprios códigos linguísticos e isso vale para a linguagem falada ou gesticulada.

Laura explicou que tenta não só reproduzir com os gestos o que a letra diz, como também se preocupa em transmitir a emoção por trás da música. Para isso, além de sinalizar com as mãos, dança, capricha nas expressões faciais e interage com os músicos no palco. Antes do show ela conversa com os artistas para saber quais sensações eles pretendem transmitir ao vivo para incorporar isso à sua performance.

Das muitas recompensas que Laura recebe justamente por esse trabalho genial, ela cita a declaração que ouviu de um senhor alemão, que lhe disse que, finalmente, aos 67 anos de vida, ele podia finalmente dizer que havia de fato assistido a um show. Como ela resumiu: “a música é um presente para qualquer pessoa, e a linguagem de sinais aplicada nos shows é como uma tesoura que ajuda a abrir a embalagem”.

Abaixo, trechos do show da cantora Ella Ronen e, por que não, do show de Laura também:

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

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