Intervenção sobre foto de Christian Hjorth/Roskilde Festival/Divulgação

A tradição viking mantida viva em Roskilde

Emblemáticos personagens da história escandinava, os vikings tocaram o terror em áreas costeiras na Europa entre os séculos VIII e XI com invasões, colonização e saques. Muitos saques. Diferentemente de seus ancestrais, os dinamarqueses são esse povo ordeiro e comportado, mas a tradição do saque ainda persiste em certo sentido, com uma lógica diferente, e tudo isso acontece no Roskilde Festival.

É prática comum de alguns frequentadores do camping no último dia do festival o “looting”, nada mais que “saque” ou “pilhagem” em inglês. Mais pacífico e mais, digamos, hum, ~ético~ que o saque praticado pelos vikings, consiste em fazer uma varredura nas barracas e tendas já esvaziadas e deixadas pra trás para pegar qualquer coisa que possa ser útil: de comida a cabos USB.

Algumas regras básicas do looting, o saqueamento viking festivaleiro: ele é feito já no início da noite do último dia de Roskilde, quando muita gente já foi embora, e só pode ser feito em barracas que estejam abertas ou em objetos que estejam jogados pelos cantos. Se a barraca estiver fechada, é proibido mexer nas coisas. Quem nos explicou tudo isso foi um grupo de dinamarqueses acampados na Dream City, uma espécie de área criativa do camping do Roskilde. Eles convidaram eu e Gra para acompanharmos o looting, e lá fomos nós.

Logo em um dos primeiros blocos do acampamento, achamos uma caixa com 24 latas de cerveja intactas. Encontraríamos mais outras duas caixas semelhantes mais pra frente, além de latas avulsas de vodka e refrigerante. Sacolas e carrinhos de supermercado deixados pelo caminho serviram para guardar os achados do looting. Cruzamos no caminho com um outro grupo que fazia o mesmo.

Peixes enlatados que custam 60 coroas dinamarquesas (cerca de 30 reais), pacotes de macarrão, garrafas de suco, biscoitos, torradas, patês e pacotes de chocolate em pó também foram devidamente deixados para trás, todos intactos e em perfeitas condições de consumo. Tênis, capas de chuva, chapéus, cadeiras, colchões infláveis também foram abandonados. O grupo que acompanhamos fez dois lootings em áreas diferentes e voltou com duas caixas, duas sacolas e um carrinho de compras cheio de comida, bebida e uma revista pornô. Rá. As bebidas serviram para uma festa de saideira dada no acampamento mais tarde naquela noite. A comida certamente foi dividida entre os moradores do camping.

looting_achados

Curioso foi notar ao final disso tudo que de saque essa prática tem apenas o nome. No lugar da lógica do roubo agressivo entra a lógica do reaproveitamento. Eles vão atrás daquilo que os outros não quiseram e que ainda pode ter algum (bom) uso. Bárbaros são os que deixam essa coisa toda para trás, principalmente a comida e também o lixo exorbitante no acampamento, e simplesmente vão embora para suas casas.

looting_gerais

A organização do festival tenta corrigir esse quadro com o Camp Aid, um estande espalhado por diversas áreas do acampamento no qual o público pode doar aquilo de que não necessita mais. Há também uma varredura semelhante à do looting feita por voluntários. Neste ano, segundo a produção do festival, foram coletados 1.600 sacos de dormir, 1.550 barracas, 1.450 colchões infláveis, 1.300 cadeiras, 1.150 cobertores e 120 latas de comida que vão ser doados para populações em risco social do leste Europeu, refugiados da Síria, sem-teto da Dinamarca e mulheres e crianças da Gâmbia.

Mesmo assim, o retrato do camping no último dia de Roskilde poderia muito bem se assemelhar a uma cidade devastada por uma invasão viking, dada a quantidade de lixo (MUITO LIXO), objetos revirados e destruídos. A única diferença é que os próprios moradores desta cidade é que escolheram deixar sua morada de uma semana nessas condições. Os saqueadores, os caras do looting, saem como os mocinhos da história, tentando converter o desperdício alheio em reaproveitamento coletivo.

Tão civilizados em sua vida cotidiana, os dinamarqueses, em Roskilde, ressignificam e invertem a lógica da selvageria viking.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

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