" /> A música influencia o paladar: experiências sensoriais no Roskilde Festival | Festivalando
Taste the change of frequency. Josefin Vargo’s project. Photo: Jesper Ohlsson

A música influencia o paladar: experiências sensoriais no Roskilde Festival

É possível sentir o gosto do som? Essa é a pergunta que Josefin Vargö, uma food designer sueca fez para o público presente no Roskilde Festival 2015 no experimento Taste the change of frequencies ( saboreie a mudança de frequências) , que tem como propósito saber como a música influencia o paladar – bom, espera né, tem uma tanto de informação truncada aqui. Primeiro de tudo, WTF é uma food designer? Resumindo a ópera, é uma pessoa que vai se ocupar das relações do ambiente em que você come, bem como das suas exigências alimentares e de todo o contexto que envolve a alimentação, como por exemplo, a situação em que você se alimenta.

Josefin Vargö eAyhan Aydin. Photo: Jesper Ohlsson

Josefin propôs um experimento para investigar as relações das frequências musicais com as nossas percepções sobre os sabores de alguns alimentos. Numa cabine que ficava em meio à Art Zone, no Roskilde Festival, Josefin instalou players de música com fones de ouvido, e serviu três tipos diferentes de bebidas, para que cada um dos visitantes pudessem degustar. Os alimentos foram escolhidos com a ajuda do meal ecologist Ayhan Aydin. A primeira bebida era um suco de cenoura, a segunda, uma cerveja de malte clara, e a terceira, uma cerveja de malte escura.

As músicas eram duas faixas que tocavam uma na sequência da outra, com a mesma duração. Não era importante a ordem dos sons para poder entrar no jogo, mas era ideal que se começasse a brincadeira toda com a degustação do suco. Perguntei à Josefin o motivo, e ela disse que era pelo fato de ele ter um sabor mais suave e, portanto, as cervejas poderiam se sobrepor muito caso começássemos por elas.

Como a gente ama e topa qualquer experiência nessa vida, não nos contentamos em apenas entrevistar pessoas, mas tivemos que ver para crer se a tal pergunta faria algum sentido. Um som, na verdade, pode sim ter muitos gostos para mim. Pode ser amargo, pode ser doce, pode ser salgado como o suor. A música e o paladar pareciam ser ligações possíveis. Na verdade, desde pequena eu faço umas ligações meio bizarras com paladar e outros sentidos. Eu costumava falar com minha mãe que uma alface que ela insistia em comprar tinha o “o gosto do cheiro” de percevejo, aquele inseto verdinho e fedorento, sabe?

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Mesmo assim, a princípio confesso que fiquei um pouco incrédula na situação, pois não conseguia perceber diferença alguma nas provas que fiz do suco, durante uma música e outra. Ah, é importante descrever também como era a música, né? Uma era com uma frequência mais baixa, um pouco mais grave, e a outra era extremamente chata, numa frequência alta, mais aguda.

Com o meu suco de cenoura nada havia mudado, até que na terceira golada saquei: na frequência menor parece que ele ficava mais doce, e na música chata, de frequência intensa, aparentava mais na boca um certo amargo.

Com as cervejas a relação foi logo de cara, praticamente a mesma. Porém, na cerveja preta, parece que ambas as músicas não conseguiam, necessariamente, modular o amargo inerente àquela bebida. De qualquer forma, fui, experimentei e posso dizer que sim, faz muita diferença. Então perguntei à Josefin: posso dizer que o som chato, de frequência mais intensa, tem gosto amargo? Ela explicou que existem várias pesquisas, com diferentes conclusões e que para aquele momento seria cedo para já definirmos uma conclusão para o experimento do Roskilde.  Por exemplo, a minha conclusão ia contra as feitas em um estudo de Oxford, em que as frequências mais altas ressaltariam os sabores doces, e as baixas, os sabores amargos. Enfim, meu cérebro e sentidos devem ser meio tortos…

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Ela também falou de como é possível pensar na música ambiente de refeitórios e restaurantes, e isso pode ser muito importante para garantir melhores experiências de paladar para os consumidores. Pensei como deve ser tudo isso no contexto de um festival, em que você precisa se sentar e comer às vezes em ambientes muito caóticos. Eu, por exemplo, faço minha refeição festivaleira na hora que dá, no intervalo de um show e outro. Geralmente estou escutando, na verdade, heavy metal, bem pesado… já sobre a relação dos estilos musicais com sua experiência gastronômica, existe uma pesquisa brasileira que não fala nada bem do som pesado…

Segundo a pesquisa de dissertação de mestrado de David Wesley Silvada, da Faculdade de Engenharia de Alimentos(FEA) da Unicamp, rock e chorinho podem te fazer aceitar menos um tipo de alimento do que outro. Por exemplo, fizeram alguns bolinhos, uns com açúcar e outros com stévia ( adoçante natural). Ouvindo rock, o bolinho com estévia fica uó. Já o com açúcar é bem aceito. Como uma das conclusões preliminares, a pesquisa aponta que talvez não seja muito legal a empreitada de comer de forma saudável ouvindo esse tipo de música. Logo, seria o rock um estimulador da obesidade e hábitos alimentares ruins??? afff!! Ainda na mesma pesquisa, foi percebido que as músicas românticas e clássicas tendem a aumentar a aceitação de determinados alimentos. Que coisa, hein?

De qualquer forma, todos esses são estudos preliminares e, ainda não há nenhum consenso científico a respeito de qual música seria ideal para acompanhar as nossas refeições, ou se existiria um tipo de música para cada tipo de refeição, etc. Parece que existe um campo grande para ser investigado, não é mesmo?

Ficou curioso e quer saber mais sobre o trabalho da Josefin, então dê uma olhada no site dela 😉

Tá vendo como a gente acha importante o festival ter algo mais para além de entretenimento? Olha que tanto de coisa legal essa simples degustação fez pensar! Acho que esse é mesmo um grande motivo para a gente amar o Roskilde Festival, que a cada ano traz diferentes possibilidades de vivência em festival.

 

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário no mundo sobre Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Comecei a ir em festivais de metal internacionais em 2009. Desde então, viajar em busca da música, essa outra paixão, tornou-se um projeto profissional que hoje chamamos de Festivalando.

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