Eu e a Pri somos loucas por festival de música, sendo eles independentes ou comerciais. Às vezes, algumas das nossas ferramentas não valem para falar de  festivais independentes, por exemplo, o Festivalômetro, e daí parece que falamos pouco sobre esses festivais menores. Porém, nunca deixamos de ir. Vez ou outra, sobra uma brecha para contarmos sobre eles, como aconteceu hoje. Separamos três festivais underground do metal e punk que você deve ir em Belo Horizonte, pois são experiências inusitadas e riquíssimas que vivemos esse ano.

Tropa Metal MC – no Bar do Brinquedo

bar do brinquedo

Fui a esse festival pela primeira vez em 2015, à convite da minha querida amiga Vittória do Carmo, e posso afirmar que, sempre que possível, eu irei novamente. Foi um dos eventos mais legais presenciados na minha trajetória festivaleira. Ele acontece anualmente no Bar do Brinquedo, um lugar muito peculiar e inegavelmente reduto de admiradores do time Atlético Mineiro, ou galão da massa, para os íntimos. Mas o bar é também um reduto de pessoas que curtem metal, punk e seus subgêneros. Inclusive,  é reduto do pessoal do moto clube Tropa, que não tem muito a ver com esses moto clubes chatos que se reúnem para ouvir Born To Be Wild. Nada disso! O Tropa MC realiza esse  evento feito na tora e na raça, apoiando as bandas locais e underground de metal e subgêneros,  em um bar em Contagem, na região periférica da grande BH. Não é um evento para qualquer um, certamente. Se você se apega à questões estruturais dos eventos, se tem asco ao subúrbio e medo do inusitado, melhor não ir! É por isso que o underground é underground, feito por poucos e para poucos. Ele é imperfeito, como o underground tem que ser, afinal, perfeição é um valor bem capitalista.

A edição do Tropa Metal desse ano aconteceu em julho. É um festival que rola o dia todo e faz a rua do Bar do Brinquedo ficar tomada por pessoas. Os shows acontecem em uma pequena área fora do bar, local onde é montada uma tenda que se sustenta por engradados de cerveja vazios. E o pit, minha gente, a plateia fica em um barranco! Foi simplesmente muito foda e emocionante acompanhar os moshs que rolaram nesse desnível de terreno. O álcool, o metal e o mosh proporcionaram capotes espetaculares, sem feridos, e muito legais.

O ambiente ainda era alegrado por um galo pomposo que ficava ao lado do palco, sobre um engradado de cerveja, impondo toda a sua beleza e, de vez em quando, até competindo no gogó com os vocalistas das bandas. Gente, que festival nesse planeta tem um galo mascote que fica ao lado das bandas em todos os shows? Me diz, gente!

Quando eu cheguei ao Bar do Brinquedo, vi o som rolando, a rua lotada de pessoas, todo mundo misturado, moradores e visitantes. Pensei comigo: o metal mineiro não perdeu a sua força motriz, aquela que fez surgir as bandas mais importantes do metal nacional, na década de 80. Isso só não está dado para os olhos de qualquer um.

Rolaram muitas bandas legais, algumas vindas de outros estados, também. Mas vou destacar apenas uma, dado o dia histórico que vivi ali – e também dado ao fato de que essa não é uma resenha com objetivo de destacar os melhores shows. Eu simplesmente pude presenciar, nesse dia, um show de uma das bandas que muita gente ficava bradando por aí ser o “elo perdido do metal mineiro”. Queridins, esse elo nunca foi perdido, esse elo estava lá, lindo e soberano, executando ao vivo músicas que, de fato, representam o início de todo o movimento heavy metal dessa cidade. O nome dessa banda foda que estava lá é Sagrado Inferno. Não mais na formação original, mas com um ato de amor ao metal, Marquinho, o membro original, reergueu a banda junto aos seus dois filhos. Marquinho comanda a bateria, enquanto os filhos fazem baixo, guitarra e vocal.

Foi simplesmente arrepiante ouvir “Vida Macabra” e outros clássicos da banda, ao vivo. Pude constatar algo que eu já imaginava ser verdadeiro: vi a primeira banda de heavy metal da história de Belo Horizonte. Fato! Como todos aqui sabem, a linguagem é lugar de disputa. Pois faço clara aqui a minha posição nessa disputa: não vejo contra-argumento estilístico qualquer que supere o fato de o Sagrado Inferno ser uma banda de metal. Naquele início havia pitadas de punk em quase todas elas, certamente, como é o caso clássico das primeiras composições do Sepultura e Sarcófago. Mas não concordo com gente que fala que o Sagrado Inferno não era metal. Bitch, please!

Sinto-me deveras feliz de ter presenciado tudo aquilo! Que o evento prospere e mais pessoas legais tenham a oportunidade de presenciar.

Metalpunk Overkill

No centro da cidade, nos lugares mais sujos e obscuros você vai encontrar o Metal Punk Overkill. O festival já vai para a sua oitava edição, e é um dos eventos indepentendes mais fodas de BH. Um pouco da história desse fest já foi contada aqui, na nossa seção Leitor@ Festivaleir@, pela querida amiga e leitora, Patrícia Rodarte. O evento é produzido por um coletivo de pessoas, homens e mulheres que batalham no underground belorizontino.  Como definição, nada melhor que a própria fala dos atores à frente dessa empreitada: o metalpunk overkill é um evento produzido de forma underground e autogerida, tem como diferencial não buscar lucro, e sim proliferar barulho e atitude política.

Metalpunk Overkill, divulgação.
Metalpunk Overkill, divulgação.

Pronto. Agora você sabe que aqui não é lugar para quem está acostumado a tomar leite com pera. Uma das edições mais legais do Metalpunk Overkill aconteceu em um prostíbulo, no centro de Belo Horizonte. Essa foi a experiência que a Patrícia relatou aqui. Eu pude ir ao evento na edição desse ano, que foi no Mercado das Borboletas. Apesar de o mesmo espaço ser usado também para eventos um pouco menos underground, trata-se de um dos lugares mais legais de BH, com um clima de ruínas pós modernas.

Além de apoiar as bandas locais e de outros estados, a organização do Metalpunk sempre traz bandas do underground de outros países. Esse ano foi a Spermafrost, da Bélgica. Carahter, Venereal Sickness, Primitive, Terror Algum, Subterror e Necrobiotic foram as bandas nacionais que agitaram a edição de outubro de 2015.

Zines, espaços para a liberdade artística, pessoas que pensam diferente e estão abertas para trocar ideia. O Metalpunk Overkill é um evento para você que pensa além do que é dado. Compareça e entenda que, “o underground se faz com sinceridade, respeito e união”.

Exhale The Sound

Esse é para quem gosta de arte underground e “música torta”, como eles mesmos dizem. O Exhale the Sound tem jeito e cara de vanguarda. É um evento independente que acontece há três anos em Belo Horizonte, reunindo pessoas que também pensam a vida de um jeito menos óbvio.

A edição desse ano teve shows de aquecimento no bar A Obra, com presença de bandas muito legais, inclusive meus amigos de Fortaleza, da Siege of Hate – S:O:H. O primeiro dia oficial de festival foi na Casa dos Jornalistas, região central de BH, com presença de bandas com estilos diversos, mas todos com algo em comum: fugir do esperado, do convencional, seja post rock, metal, grind, sludge, punk, pós punk e hardcore. O encerramento aconteceu em um sítio no bairro Jaqueline, região metropolitana de BH. Psicina, camping, espaço para arte e música em um ambiente para relaxar.

Apesar do tom um pouco “asséptico” que o ETS tem em relação aos outros festivais que citei acima (muito mais pela escolha dos locais de realização), ele não é menos interessante. Principalmente pelos espaços de trocas político-ideológicas que ele proporciona. Por exemplo, havia uma intervenção de arte feminista ao lado dos banheiros “masculino” e “feminino” durante o dia de festival no sítio. Havia também cartazes sobre a luta feminista na Casa dos Jornalistas e vários zines, entre eles, um que tratava do assunto. Ora! Não é novidade para ninguém que, no geral, a subcultura do heavy metal e seus subgêneros musicais é misógina e machista. Mas no ETS percebi que existem esperanças para que isso se torne diferente. Luma Brant, artista responsável pela instalação fez um ótimo e inspirador trabalho.

feminista

Além dessa ótima experiência política, também é preciso destacar a admiração e felicidade pelos encontros artísticos proporcionados. Havia muitas obras legais mas, preciso dizer sobre meu encontro com Pedro Felipe. Esse artista muito foda simplesmente desenhou a capa de uma das minhas bandas preferidas, a americana Christian Mistress. O Pedro é um rapaz de sorriso largo e talento evidente. Basta dar uma olhada aqui na loja dele, para você ver a pequena parte da produção. Já sei que, quando eu tiver uma parede para chamar de minha, ela vai ter desenhos dele. Pedro faz parte daqueles artistas que Zbigniew Bielak falava que estão sedentos por desenhos que sejam feitos à mão, como uma forma de resistência à ditadura dos softwares.

Artes arquivo pessoal Pedro.
Artes arquivo pessoal Pedro.

Além de Pedro, teve também as obras de Júnior Cruz, que muito me impressionaram. Júnior eu não encontrei, pessoalmente. Mas já trocamos ideias nas redes sociais e ele foi muito massa. Seus desenhos de serigrafia e seus zines são objetos bem interessantes. Vale a pena conferir o trabalho dele. Veja mais aqui nesse portifólio.

Arquivo pessoal Júnior Cruz
Arquivo pessoal Júnior Cruz

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