Voluntário ReAct. Photo: ReAct Facebook group

Como é ser voluntário em festival #2

Não é à toa que sempre batemos na tecla da experiência aqui. Poder viver e contar da melhor forma possível todos os desdobramentos das nossas peripécias é essencial para a gente garantir que vocês, nossxs leitorxs, possam captar informações importantes e que possam ajudar na tomada de decisões festivaleiras, por exemplo. Por isso, fui lá e dei minha cara a tapa em um dos trabalhos voluntários mais complicados em festival: ser uma das “catadoras” e “incentivadoras” da coleta seletiva diária do Roskilde Festival, o famoso maior e mais antigo festival open air da atuliadade na Europa. (Para saber como você se candidata e se qualifica para ser voluntário, leia esse texto aqui).

O Roskilde é também o festival mais sujo de todos, infelizmente. Não captei ao certo tudo que faz parte do tal do Orange Feeling, apesar de ser a minha segunda vez no festival. Mas uma coisa eu posso afirmar com certeza: o cheiro de merda e a sujeira sem fim fazem parte da tal “sensação laranja”.

voluntária roskilde

Já contamos para vocês o quanto é complexo todo o processo para se voluntariar em um festival como o Roskilde. Não é da noite para o dia e pode exigir de você mais comprometimento do que se pensa. Da mesma forma, não vai ser moleza, mesmo.
Eu escolhi ser voluntária no time ReAct, responsável pela separação do lixo do festival para reciclagem. Para começar, independente de qual dia é o seu turno, existe um encontro obrigatório, às 7 da matina de domingo, logo na primeira manhã de festival. Por mais que o encontro dure entre 1 e 1hora e meia, é um pé no saco ter que acordar cedo para escutar mais informações sobre o funcionamento do seu trabalho, etc.

Esse encontro é muito importante, apesar de um pé no saco. Foi lá que descobri que, apesar do título do trabalho no banco de dados do festival ser ” incentivadora da limpeza”, na verdade você é uma catadora, só que de um tipo diferente: além de catar o lixo e separar nas estações de reciclagem, você deve conversar com as pessoas, tentar fazê-las entender a importância de separar o lixo… e vou te contar que, mesmo sendo os frequentadores desse festival na maioria habitantes do que se intitula primeiro mundo, poucos estão pouco se lixando para tais questões, pelo menos durante o festival.

Além disso você também tem a tarefa de distribuir sacolas de lixo, para garantir a separação. Infelizmente, muitas vezes você acaba vendo essas sacolas servir de capa de chuva improvisada, enfeite…

Como funcionam os turnos?

Cada voluntário do ReAct deve fazer quatro turnos de 8 horas, sendo que um deles é obrigatório que seja no domingo, ao fim do festival – o dia mais pesado da limpeza, sem dúvida alguma. Os demais três turnos são escolhidos dentro de um banco de dados. Você recebe a resposta dos dias que vai trabalhar a poucos dias antes do festival, quando os organizadores finalizam a planilha, cruzando os dados de preferência de cada um e manejando os conflitos de interesse.

O ReAct gerencia 12 estações de reciclagem em todo o festival. Todas elas funcionavam de 8 da manhã às 5 da tarde. No domingo soubemos que nossa estação seria a do camping P, mas não soubemos de antemão que trabalharíamos com pessoal reduzido. Éramos apenas 8 e, até o final da jornada seríamos 6 – duas americanas se cadastraram sem ter permissão de trabalho ou visto de estudante na Dinamarca, portanto tiveram que abandonar o posto de traballho.

Todos sempre nos reuníamos em alguma base de voluntariado antes de cada turno (existem várias em todo o território do festival). Nessas bases encontrava-se todo o suporte necessário para o trabalho ( as ferramentas e demais aparatos), a coordenação, chá, café, água, banheiros e local para descanso. No entanto, você só vai usar essa estrutura no início e fim do dia.
Em cada turno todos montamos juntos a estação de trabalho: decoramos, colocamos a sinalização e abrimos os depósitos – isso tem que ser feito todos os dias pois, caso deixássemos os equipamentos no local, os residentes do camping poderiam pegá-los para fins mais diversos: travessos ou sem noção? Acho que fico com a última alternativa… felizmente, o mesmo caminhão que dá suporte em cada estação para a coleta dos grandes resíduos servia de transporte para toda a parafernália. O foda era carregar para o caminhão, montar e desmontar todos os dias.

preparacao react

Durante a jornada, nos dividimos da seguinte maneira: dois permanencem na estação durante todo o dia, para garantir que os resíduos que chegam serão corretamente separados. 2 saem no caminhão, para ficarem atentos aos grandes resíduos, como as cadeiras, tendas e pavilhões de ferro e plástico. Os mesmos, geralmente, também esvaziam as lixeiras e trocam os sacos de lixo. Os demais saem em duplas pelo camping, andam, catam lixo, distribuem sacolas e conversam com os moradores do acampamento no festival.

Ao meio dia e meia todos param para almoçar. São aproximadamente 45 minutos, mas é a única parada. Os coordenadores pedem que fiquem duas pessoas na estação, as quais almoçam mais tarde. O melhor conselho que se pode dar é que os voluntários comprem a comida no caminho para a base de voluntários, do contrário perde-se muito tempo apenas no deslocamento. Os cupons para a alimentação são entregues apenas ao fim do dia. Portanto, vá preparado com alguma grana para comprar seu primeiro almoço. Quanto ir ao banehiro durante o turno, os voluntários acordam entre si e vão nos banheiros mais próximos da estação – infelizmente, os piores e arrepugnantes banheiros químicos da área de camping… um nojo, terríveis como sempre!

Depois que todos estão alimentados, volta-se ao trabalho. Mas dessa vez o enfoque é maior nas lixeiras e na distribuiçäo de sacos de lixo e conscientização dos residentes. Às 16.30 todos os voluntários voltam para a estação, aonde esperam os caminhões que esvaziam os depósitos. Em seguida começam a desmontar a estação. Todo mundo volta junto dentro do caminhão para a base, todos bem cansados!

A organização

líder react

Os coordenadores e líderes de equipe geralmente são muito bem preparados. Amáveis e super animados, competentes na hora de dar informações e nos passar firmeza na tomada de decisões. Algumas vezes o que parece ser um pouco desorganizado pôde ser interpretado como apenas uma resposta flexível dos mesmos para lidar com um certo tipo de situação, como a que ocorreu com meu grupo, por exemplo,quando ficamos com apenas 6 pessoas trabalhando. Tivemos que nos desdobrar em várias funções. Ou seja, trabalhar duro e dobrado.

Apesar de bem organizado, o esquema ainda teve algumas falhas. A primeira, no sistema de aplicação para o voluntariado, que deveria deixar clara a exigência da permissão de trabalho ou cpr para a candidatura aos postos. Segundo, o fato de não haver um coordenador constamente em cada estação também foi um ponto negativo, pois várias questões simples, como a falta de água ou de uma luva, poderiam ter sido resolvidas de forma bem mais rápida.

Minhas impressões sobre o trabalho

fim do dia

Ser voluntário em festival é algo bem duro. No primeiro dia existe um choque – todo mundo pensa que ser voluntário é executar um trabalho mais leve, só para ajudar um poquinho e pronto. Mas não. É de fato um trabalho muito pesado e, chegado o quarto dia você já não aguenta mais o estresse e fica até mesmo pouco animado para curtir o festival.

Você precisa trabalhar, e bem, enquanto todos estão se divertindo bastante. Certas vezes, é preciso trabalhar até mesmo durante os shows favoritos. No caso dos catadores, ainda era preciso sacrificar-se andando bastante pela área de camping. É definitivamente aquele tipo de trabalho que se pode chamar de “sol na moleira”. Você sua, fica sujo, odoroso. Pode ficar com dores por carregar alguns objetos maiores e pesados camping a fora. Bem como pode se deparar com situações desconfortáveis e até humilhantes – como eu, que fui claramente vítima de preconceito, e conto logo em seguida como foi.

Minhas impressões sobre os residentes do camping P do Roskilde Festival 2015

Não se pode fazer uma generalização, pois certamente havia muitas pessoas legais e conscientes no camping em que trabalhei. Mas digo sem dó que a maioria se trata de crianças deslumbradas com um momento fora da sociedade do lego- em que tudo se encaixa, fora da vida das agendas, regras e obrigações organizadas, do comportar-se bem e ser politicamente correto, mostrar-se evoluído com relação a todo o reino animal.

Fiquei muito decepcionada com o que vi. Tinha um certo pensamento quando vi a sujeira do Roskilde ano passado.Achava que o local estava sempre sujo, portanto as pessoas não paravam de jogar lixo no mesmo. Porém, percebi que não é bem assim. Nós voluntários não paramos de limpar. O fazemos o tempo todo e as pessoas percebem nossos esforços – algumas, pelo menos. Da mesma forma, há lixeiras com fartura, e não faltam sacos de lixo para a distribuição nas barracas.

Há sim um problema com a tal liberdade e o Orange feeling. A sociedade comportada vai pra catarse no álcool e em outras substâncias, faz loucuras, bebe mais cerveja e joga sem dó a latinha no chão, ou às vezes na cabeça de um catador, que está ali como alguém pouco reconhecido.

A sujeira ou a disputa de quem suja mais é a graça? Para mim é a queimação de filme. A diversão não é inimiga da limpeza. De forma alguma. Mas parece ser no Roskilde.

Além disso, algumas coisas que são tidas como travessuras de festival na verdade são ridículas. Roubar ferramente de trabalho dos voltuntários, bater na nossa cabeça com colchão inflável… coisa infantil e sem graça! E aconteceu, comigo, inclusive!

E a pior situação de todas foi, sem dúvida, quando uma garota virou para mim e disse: “ei, latina, já que está catando o lixo, pega o meu sapato e me entrega por favor?”. Respondi a ela como deveria, e falei que o sapato já podia ir para a reciclagem, na verdade, pois estava um lixo. Foi preconceito, foi crime. Era o final e de tanta raiva não peguei o nome da criatura e nem quis lembrar o rosto. Mas a conduta correta seria ter chamado um coordenador na hora e encaminhar uma queixa à polícia. Essas coisas acontecem, e podem acontecer, mesmo quando você tenta contribuir para que o festival deles fique mais legal.

sacos de lixo

Ser voluntário no Roskilde serviu para que eu me jogasse em mais uma experiência e superasse o esperado. Serviu também para derrubar algumas visões românticas e entender que, no fim das contas, somos apenas animais domesticados.

Se vale a pena? Ainda acho que sim. Você também tem muita diversão com os colegas de trabalho, ganha ingresso de graça, comida, e ainda tem festinhas para os voluntários todos os dias na base, depois dos duros turnos. Não é de todo ruim, mas as pessoas devem estar cientes do que as esperam. Cada experiência é uma experiência diferente, no entanto.

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

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