Quando o metal encontra a cultura no ForCaos

O ForCaos é um dos festivais de metal e rock underground mais importantes do Nordeste. Nele se revelam novos nomes da música extrema local e regional, bem como se promove um dos espaços mais interessantes para o debate e formação de fãs mais críticos, pois a proposta do ForCaos vai além da música – o que é uma pegada bem marcante da Associação Cearense de Rock (ACR), organizadora do evento.

As atividades do festival se iniciaram com palestras e exibição de documentários. Esse ano, foram exibidos o Ruído das Minas: A Origem do Heavy Metal em Belo Horizonte, Mulheres no Metal e Cogumelo 35 anos. Todos eles acompanhados de debates promovidos entre os produtores e o público. Um festival de metal e punk que promove um debate sobre como tem se dado a entrada e participação das mulheres nas cenas extremas, assim como traz discussões para refletir sobre a história de outras cena no Brasil mostra um nível de maturidade e sofisticação muito intressantes. Inclusive, essa é uma prática que se vê em festivais como o Inferno Festival, na Noruega.

doc

Fora o próprio formato escolhido pelo festival, que mescla palestras e shows, a primeira característica do ForCaos que torna o encontro do metal/música underground com a cultura inadiável é o fato de o evento ser realizado em dois centros culturais: o Dragão do Mar Centro de Arte e Cultura e o Centro Cultural Banco do Nordeste. Isso faz com que o ForCaos seja um dos interlocutores mais importantes nessa conversa entre as diversas juventudes e os aparelhos locais de promoção da cultura.

dragão do mar 2

ccbnb

Como o próprio Coordenador de Programação Musical do Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB) , André Marinho disse, ” às vezes o jovem passa pela porta e nem sabe que pode usar aquele espaço, que é gratuito e feito para a comunidade”. Quando o ForCaos faz um festival para essas juventudes que gostam da cena extrema de músia dentro de locais como o CCBNB, ele dá um recado: esses jovens são bem vindos e podem ocupar aquele espaço, independente do tipo de música que curtem, da classe social ou credo ao qual pertencem.

Quando um centro cultural abre as portas para o metal, um encontro inusitado, mas muito fortuito com a literatura brasileira pode acontecer, por exemplo. Não é a toa que no primeiro dia de shows do ForCaos eu e muitos outros jovens que estavam lá tiramos algum tempo da nossa visita para entender melhor a de Graciliano Ramos, um dos escritores nordestinos de maior relevância. Se emocionar com cenas de Vidas Secas – (um dos livros mais lindos que já li!), ou se deparar com os manuscritos de Memórias do Cárcere com fundo musical de guitarras foi uma experiência linda.

graciliano ramos

No Centro Cultural Banco do Nordeste também há uma biblioteca, bem como espaços para oficinas e outras apresentações. Provavelmente, alguns jovens que compareceram ao evento não faziam ideia da grandeza do local, do que havia nele disponível e de que era tudo gratuito e aberto para eles. Agora muitos sabem, ainda bem!

O último dia de shows aconteceu no Dragão do Mar Centro de Arte e Cultura, que por si só já é uma grande referência histórica: o nome Dragão do Mar é uma homenagem ao jangadeiro Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, uma das figuras mais importantes do Ceará. Em nome da liberdade, ele organizou junto de seus companheiros uma greve para paralizar o tráfico de escravos naquela região.

 

O Dragão do Mar impressiona. São 14,5 mil metros quadrados de área para vivenciar a arte e a cultura, com atrações como o Museu da Cultura Cearense, o Museu de Arte Contemporânea, o Teatro Dragão do Mar, as salas de cinema do Cinema do Dragão – Fundação Joaquim Nabuco, o Anfiteatro Sérgio Mota, um Auditório e o Planetário Rubens de Azevedo. Durante a programação do Forcaos naquele domingo também pude conferir a exposição ELA, do artista pernambucano Bruno Vilela e parte da Sobrenaturezas Sobnaturezas, com curadoria de Valéria Laena e Bitu Cassundé, que mostra um belo recorte da arte popular cearense.

atracoes

Também nesse dia, no espaço da praça verde rolava o Festival de Circo do Ceará. Impossível não parar para ver tantas belezas!

circo

Da mesma forma que o encontro do metal com a cultura é promovido, essas parcerias ainda criam espaço para o exercício da tolerância: públicos diferentes, e também de diferentes idades se encontram. Mas eles não só se esbarram. Eles doam tempo para o conhecimento do outro. E foi isso que vi. Pessoas que não eram necessariamente da “tribo” alternativa também foram ver do que se tratava toda aquele “barulho” no anfiteatro do Dragão. Da mesma forma, elas puderam ver e tirar preconceitos sobre o público alternativo: havia música pesada, havia camisas pretas e “caras fechadas”, mas mesmo assim o centro cultural e o anfiteatro continuou intacto, belo e limpo. Será que era isso o que todos esperavam de um festival de metal?

Além de tudo isso que o ForCaos dentro dos centros culturais proporciona, não se pode negar que a localização dos mesmos no centro histórico da cidade conta milhares de pontos a favor para esse turismo musical e cultural ser inesquecível! Mas sobre esse roteiro cultural que se pode fazer no centro de Fortaleza falaremos em outro post.

O ForCaos nos dá uma lição valiosa: os centros culturais não devem ser colocados como uma última ou alternativa de back up para os realizadores de festival, mas sim como parceiros ativos, que podem fazer do encontro entre a música e cultura uma das ferramentas mais valiosas para promover a formação diversa entre as pessoas.

metal e cultura

Para saber mais sobre a programação de ambos os centros culturais, fique ligado nos sites:

http://www.bnb.gov.br/centro-cultural-fortaleza

http://www.dragaodomar.org.br/

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

6 comments

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  1. Leandro 5 agosto, 2015 at 08:43 Responder

    Fortaleza é a vanguarda do metal nacional em termos de festival pelo visto. Uma proposta muito mais interessante do que outras que vemos por MG mesmo. Por mais que o Camping Rock seja massa véio, falta em MG uma coisa mais bem pensada, menos “sexo drogas e rock’nroll” somente e mais “sexo, drogas, rock’n rol, cultura, sociedade”

    • Gracielle Fonseca 5 agosto, 2015 at 10:57 Responder

      Leandro, ainda não tive a oportunidade de ir ao Camping Rock, mas concordo que a iniciativa do ForCaos é bem diferente e pode até mesmo ter um formato vanguardista entre os festivais de metal brasileiros. Espero que esse festival cresça ainda mais e seja referência para os festivais nacionais!Obrigada pelo comentário bacana!

  2. Ediene 23 agosto, 2017 at 20:49 Responder

    Ola, Gostei do seu artigo sou uma amante das culturas diferente e sempre que posso estou fazendo pesquisa no Google e hoje tive oportunidade de conhecer seu site e e amei suas publicações. Quero ver mais artigos relacionados a esse assunto?

    • Gracielle Fonseca 24 agosto, 2017 at 07:40 Responder

      Que demais, Ediene! Ficamos muito felizes com seu comentário. Com certeza a gente sempre vai publicar coisas que envolvem cultura. Afinal, Turismo e festival de música não vivem sem cultura, não é mesmo? Certamente você encontrará mais posts legais como este aqui no site, incluindo coisas que vivenciamos em outros países. Um beijo e obrigada pela leitura <3

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