Fotos: Priscila Brito/Festivalando

Onde a firula não tem vez

Ir a um festival e perceber que, além da música, é possível viver muito mais que a experiência ao vivo (Roskilde), que dá para simplesmente relaxar (Popegoja) ou se encantar com o ambiente ao redor tem sido um dos bons aprendizados nessa primeira temporada do Festivalando. Mas suspeito que, lá atrás, quando um sujeito aleatório resolveu criar essa história de festival de música, a única coisa que ele queria era juntar um pessoal pra tocar, e era isso que estava faltando até o momento nessa maratona: um evento em que existisse a música e nada mais.

Finalmente, encontrei esse formato no Resist to Exist em Berlim, na Alemanha. Estamos falando de um festival de punk, logo natural que não houvesse espaço para firulas (que de vez em quando fazem bem, sim, mas sem perder o foco). Uma média de 14 bandas tocando por dia, alternando-se em dois palcos sem intervalo algum entre os shows, absurdamente pontuais.

Se Dee Dee Ramone ainda estivesse entre nós e se atrevesse a fazer a famosa contagem do “1, 2, 3, 4!” para marcar o início de um show assim que o outro terminasse, seria interrompido no “1, 2…”, tão rápida era a transição de um show pro outro. A falta de firula era tanta que a passagem de som de uma banda ocorria enquanto a outra se apresentava, e com um espaço de pouco mais de 20 passos entre um palco e outro, o som acabava vazando. Mas, mais uma vez, estamos falando de um festival de punk, e talvez o que menos importasse era um grupo “sujando” o som do outro por alguns minutos.

O importante era seguir o mantra do “music non stop” reverberado pelo Kraftwerk décadas atrás, porque essa é uma das essências do Resist (a outra, política, é assunto para um futuro post). Quando, no sábado, uma ameaça de tempestade obrigou a interrupção parcial dos shows por cerca de meia hora, ficou mais claro ainda o foco exclusivo do festival na música. Se não havia um som para ouvir, não havia mais nada o que fazer. E isso é um grande ponto a favor do evento a essa altura da jornada do Festivalando.

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De resto, havia umas duas barracas para vender cerveja (porque no fundo o pessoal estava lá pela cerveja também), outras três para vender comida (porque uma hora a gente tem que comer) e mais umas outras poucas para reverberar a filosofia punk por meio da venda de camisetas e discos, muitos discos. Ou seja, mais música. Nada de atrativos-distrativos nem da parte da festival, nem da parte das bandas, nem da parte do público.

resist_colagem2Nenhum banner sequer com a logomarca do festival, nada de cachês para os artistas (o evento não tem fins lucrativos e trabalha com voluntários). A logo do evento era vista apenas em camisetas e pulseiras de edições anteriores usados e ostentados pelo público, num claro sinal de que há uma platéia cativa criada nos últimos dez anos que se orgulha de participar do evento. Celulares e câmeras eram quase inexistentes, e encarados até com certa aversão – não foi fácil fotografar a área do festival diante dos olhares um tanto quanto ariscos do pessoal para esses já onipresentes objetos que às vezes desvirtuam nossa atenção do que realmente importa.

Justo, justíssimo o comportamento dos punks de Berlim, que no Resist to Exist não deixam virar peça de museu as imagens em preto e branco que temos de seus ancestrais punks setentistas em Londres e Nova York. Responsáveis por uma resistência peculiar de uma das subculturas mais interessantes do século XX e necessárias até hoje para provocar os valores e valore$$ do nosso mundinho, eles ajudam também na resistência do formato mais puro que um festival de música pode assumir.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

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