Priscila Brito

Hyldeblomst, a flor que os dinamarqueses bebem

Se você for a um supermercado na Dinamarca, vai notar que ali na seção de bebidas, em meio a sucos de laranja e de maçã, vai ter um monte de garrafas grandes e pequenas, de plástico e de vidro, e embalagens tetra pak, com um mesmo termo estampado no rótulo: hyldeblomst. Hyldeblomst Saft, Hyldeblomst Lemonade, Hyldeblomst Drink. São sucos prontos para beber ou concentrados (porque o pessoal nas bandas de lá adora um suco concentrado), em versões mais artificiais ou orgânicas, feitos à base da flor de sabugueiro, a tal da hyldeblomst.

A bebida tão popular na rotina dos danish – dada a variedade de opções e de marcas que a comercializam – é uma combinação bastante simples de água, açúcar e as flores de sabugueiro. Em resumo, é praticamente um melado. É doce, muito doce. Para as formiguinhas de plantão, um deleite. Para paladares que toleram menos o açúcar, como o meu, é no máximo uma experiência gastronômica. Provei da versão pronta e da concentrada e tive a mesma impressão.

A versão pronta que bebi foi a Sobogaard, vendida lá em Christiania, a mega comunidade com princípios hippies e colaborativos fundada em 1971 e que é um dos pontos turísticos de Copenhague. 100% orgânica, a bebida é vendida em uma garrafinha verde, com rótulo vintage, quase uma tubaína dinamarquesa. A Gra comprou disposta a dividir comigo, mas no primeiro gole eu desisti e deixei ela terminar sozinha. Não achei a versão que comprei no supermercado muito diferente. Acrescentei água mais que o recomendado na solução concentrada e mesmo assim não achei que o sabor açucarado foi atenuado. Se eu tivesse arriscado a água saborizada que vi no supermercado (sim, tem até água mineral com sabor de hyldeblomst), talvez tivesse provado algo menos enjoativo.

hyldeblomst_colagem

Ficou faltando experimentar também as versões caseira e alcoólica para tirar a prova. Quem faz em casa costuma macerar as flores e colocá-las em uma solução de água com açúcar para que o sabor das pétalas seja transferido para o líquido por infusão – eu colocaria pouco açúcar, certeza. As flores são retiradas e algumas gotas de limão são adicionadas para dar sabor e também para ajudar na conservação. Para beber, mistura-se a solução com água. Em sua versão alcoólica, há quem misture a solução – caseira ou industrializada – a água com gás e rum, quase um mojito escandinavo 😛

O hábito de usar a flor-de-sabugueiro na culinária está diretamente ligado ao papel da espécie na mitologia nórdica. Hyldeblomst, a flor, é uma referência à deusa Hylde Moer, cujo espírito habitaria o sabugueiro, segundo a mitologia. Hylde protegeria contra o mal, daí o hábito de plantar o sabugueiro no quintal de casa. Os frutos e flores, por sua vez, seriam as bençãos dadas pela deusa aos humanos. As flores também chegaram a ter uso medicinal, assim como as folhas, dados seus efeitos diuréticos e anti-inflamatórios. A julgar pela minha experiência, hoje o uso é anti-medicinal, dada sua ameaça para as taxas de glicose.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Sou uma das mães do Festivalando e fiz Paul McCartney falar uai no Mineirão. Só porque eu gosto de música. Nas horas vagas, faço coisas sérias e tento salvar o jornalismo.

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