Festival de metal fofinho e aconchegante: pode, produção?

A gente esteve em festival de heavy metal na roça (Roça n’ Roll), gigantesco (Wacken), sob medida (Brutal Assault), enrustido (Rock in Rio). E agora, acabamos de voltar de uma outra categoria de festivais de metal, a categoria fofis-cozy-piquitito, que acabei de inventar aqui para o Aalborg Metal Festival – AMF14, e te explico o porquê. De cara, esse festival guardava muitas diferenças com relação aos demais. A primeira e bem surpreendente veio de brinde com a pulseirinha do evento:

pulseirinha

Sim, cor-de-rosa e com glitter, para sambar na cara, ou melhor, bater o cabelo na cara de todo preconceito do mundo macho-metal. Desde o “empulseiramento”, na entrada do festival, ele me ganhou por conta disso. Esse é um ato de fofura sem limites. Afinal, a cor de uma pulseira não diz nada sobre a sexualidade de ninguém. Mas, em um meio tão dominado pelos homens (não digo todos, mas a maioria machista pra caramba), essa pulseira rosa e brilhante certamente dizia muita coisa, pelo menos sobre os padrões estabelecidos entre esse público até então.

O local do AMF14, a Studenterhuset (casa de estudantes),em Aalborg, já denunciava pelas dimensões que este seria um festival para os chegados, para pouca gente – o número de pessoas não saiu da casa das centenas, garanto, apesar de não haver dados oficiais sobre o público. Além disso, ao entrar no local do festival me deparei com alguns rostinhos que vimos no Blast Beast Camp, um camping especial de metaleiros armado lá na Dream City do Roskilde Festival (que também acontece na Dinamarca). Eles estavam lá, bem festivaleiros e entrosados. Essa visão logo me despertou aquela sensação de ” estar em casa”, pois trouxe à tona lembranças de ver nos festivais de metal em Minas, especificamente em Belo Horizonte, as mesmas pessoas de sempre – tocando e conversando.

Outra coisa que dava o aspecto de “tudo em família” para o festival, era o fato de a maioria dos músicos terem circulado calmamente entre o público, e até serem público em alguns dias. Tive a oportunidade de trocar ideia com o baterista do Black Dahlia Murder, Alan Cassidy, e tambémo baixista do Aeon,Tony Östman, sem quaisquer esforços de carteirinha de imprensa.

O AMF14 foi um festival do aconchego, até porque era um festival realizado fora da época das altas escalas de temperatura. Enquanto estive lá, 6 e 10 graus eram constantes. Todo aquele bronzeado, ou falta dele, denunciados pelas poucas roupas, e cheiros de verão não compareceram. Todo mundo trabalhado nas camadas de roupas e casacões ( sonho gótico!), pelo menos até a entrada. Eu estava lá, com meia de fleece, vestido, blusa de fleece por cima do vestido, casaco de couro e super cachecol. Figurino muito diferente dos shortinhos e blusinhas cropped que circularam nos festivais de verão.

roupas

Mas o mais terrível a respeito disso foi que apenas na metade do segundo dia de shows eu descobri onde eles guardavam os casacos. Pouco acostumada a essas situações, fiquei carregando trocentos kilos de roupa na mão até encontrar o lugar, pois como é de se imaginar, lá fora o frio dói nos ossos, mas lá dentro a coisa ferve. Depois de guardar toda a indumentária de um quase inverno, fiquei mais a vontade ainda, e me senti na casa de algum amigo mesmo, quando você simplesmente pede para guardar suas coisas num lugar e poder se divertir melhor ( no entanto, eram um serviço, no qual você entregava a roupa + 10 dkk, ou 5 reais, e ganhava um número para resgatar sua roupitcha no final).

Outras coisas me chamaram atenção lá dentro da Studenterhuset: vários sofás espalhados em um vão, cercados por livros e, no canto, uma cafeteria! Virou uma cafeteria/bar, com vários drinks e cervejas. Mas ainda sim era possível pedir um café ou um chá, em pleno festival de metal! Sentar-se à mesa com um café ou drink para ter conversas agradáveis ou ler alguma coisa era totalmente possível. Era possível, da mesma forma, pedir alguns comestíveis. Esses, no entanto, eram bem escassos. Do lado de fora do festival havia uma barraquinha de cachorro quente ( mas um cachorro quente tão caro (equivalente a 20 reais) e ruim que, infelizmente, deixou o Aalborg Metal Festival feio no quesito comida. Mas, de qualquer forma, você poderia caminhar por menos de 5 minutos e conseguir desde comida japonesa até os típicos fast food do Burguer King e Mc Donalds. A cerveja era boa, mas cara, por volta de 15 reais 500ml. Havia shots de bebidas pelo equivalente a 5 reais, pelo menos.

cafeteria

Para corroborar ainda mais com o sentimento aconchegante de estar entre amigos em uma noite agradável, vi pessoas compenetradas em jogos de tabuleiros, e também de cartas.Todos disponibilizados na biblioteca do festival. Sentei-me por lá durante um tempo. Não li nada. Meu nível de Dinamarquês ainda é muito precário.Fiquei só a descansar e observar. De repente vi essa família linda aqui, e achei ainda mais reconfortante estar naquele festival!

família aalborg

Eu não fazia parte de nenhuma das panelinhas dinamarquesas do metal, assim como nunca fiz parte das panelas metálicas nas cidades em que vivi no Brasil. Mas, nem por isso deixei de ter essa sensação de acolhimento, de estar em casa quando mais tarde acabei me juntando a um grupo de amigos que insistiram em me apresentar o caraoquê do AMF14. Sim, um festival de metal com caraoquê! E foi muito interessante ver como os dinamarqueses se divertem com isso, e como não estão nem aí se acabaram de sair do show do Marduk , banda true black metal, e estão no momento consecutivo cantando Living on a prayer, farofinha básica do Bon Jovi, ou Poison, do Alice Cooper!

Diferentemente da casa do seu/sua chapa, essa tinha vários banheiros. Pelo menos umas 15 privadas em um andar, e mais umas 4 no segundo andar, aonde funciona a administração e foi montado o caraoquê. Os banheiros eram bem limpos, e permaneceram assim até a última noite! Quanta diferença com relação ao Roskilde! Apesar de não ser como o banheiro da casa de um amigo, ele também me remeteu a boas sensações, todas elas incentivadas pelos adesivos e escritos nas portas e paredes, com muito estilo. Saudades da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG?

banheiro

Engraçado foi notar que não houve qualquer paranóia com segurança. Não fomos revistados, não havia guardinhas de festival e de palco, pelo menos visíveis. Exceto pelo último dia, quando Cannibal Corpse e outras bandas um pouco maiores tocariam. Apesar da magnitude delas, ainda fiquei me perguntando se era realmente necessário.

Por ser uma área muito central, a Studenterhuset não demandou, acredito que de muita gente, grandes esforços de logística e transporte. Nada era para dar dor de cabeça nessa viagem/estadia. Localizada em meio às ruas principais da cidade e a 10 minutos de caminhada da estação central, trens e ônibus não faltaram. Pertinho dela ainda ficavam todas as ruas e locais famosos de Aalborg, como a Jomfru Ane Gade. O meu hotel ficava a uns 15 minutos do local.

Voltei todos os dias andando, sentindo o vento gélido congelar o meu nariz, única parte desprovida de proteção. E mesmo assim, era aconchegante caminhar naquelas ruas durante a noite, como se eu estivesse no meu bairro, na minha cidade, sem medos, sem perigos. Boas doses de metal de qualidade, tomadas como quem bebe entre amigos, num frio confortante de uma cidade encantadora. Recomendo o Aalborg Metal Festival.

Transporte9
Informações5
Hidratação e comida4
Conectividade9
Limpeza9
Segurança9
Pequenino, aconchegante e com poucas falhas. Só mesmo na hora de dar algumas informações e de manter a galera bem alimentada e hidratada para além da cerva!
7.5

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

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