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Pode até parecer, mas os festivais não estão ficando todos iguais

Os grandes festivais estão ficando todos iguais, sugeriu dia desses o André Barcinski em um texto no UOL. A razão para tal seria a homogeneidade dos lineups, praticamente cartazes xerocados uns dos outros, resultado do domínio de grandes empresas no mercado de entretenimento ao vivo mundial.

Os festivais estariam tão parecidos que até o New York Times (que se ocupa só da mesma meia dúzia de festivais) decidiu não cobrir mais os grandes eventos (como se o público que vai a esses festivais se preocupasse mais com o que têm a dizer os críticos do NYT do que com a opinião da Vice ou com o que estão postando no Snapchat).

Eu digo que não, os festivais não estão ficando todos iguais. Mas antes de dizer o porquê eu queria contar uma história.

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Lollapalooza Chile. Foto: Priscila Brito

Quatro festivais, quatro países e um mesmo lineup

Em março de 2015 eu fui a quatro festivais num intervalo de três semanas. Estereo Picnic (Colômbia), Lollapalooza (Chile), Asunciónico (Paraguai) e Lollapalooza (Brasil). Os lineups eram praticamente idênticos. Os headliners e os subheadliners, pelo menos, eram os mesmos. Mudavam apenas a quantidade de atrações internacionais (em menor quantidade nos festivais menores) e as atrações locais (por motivos óbvios).

Razões mercadológicas e logísticas justificam essa mesmice que, a propósito, se repete todo ano. Algumas delas são inclusive apontadas no texto do Barcinski – caso do domínio de mercado exercido por algumas poucas grandes corporações. Ciente disso, antes de viajar, eu mesma cheguei a me questionar porque decidi ir a tantos festivais com programação idêntica. Temi por um possível sentimento de tédio já no segundo festival.

Mas ao final da viagem o que eu trazia dentro bagagem eram memórias de quatro festivais completamente diferentes. O tamanho do festival, a estrutura, o clima, o povo, a organização, tudo isso combinado resultou em experiências muito distintas entre si, mesmo com lineups tão idênticos. Nem um setlist idêntico em dois ou três festivais foi capaz de tornar o show de um mesmo artista repetitivo. Nem mesmo a franquia Lollapalooza me apresentou festivais iguais.

Festivais são diferentes até quando são iguais

No Estereo Picnic, na Colômbia, fui a um festival noturno, sob frio, com apelo visual e descolado como ainda não tinha visto. No Asunciónico, no Paraguai, foi praticamente um festival à moda antiga, sem a presença agressiva de marcas e sem a correria insana entre uma meia dúzia de palcos, pois só haviam dois, lado a lado, com apresentações intercaladas.

Em Santiago, sob o calor de 32º e sol até as 20h, fui a um Lollapalooza Chile que em nada se assemelha à franquia de São Paulo, a não ser pelo nome e pelo cartaz. Foi tão inescapável essa conclusão que de imediato escrevi sobre as diferenças entre o Lolla Chile e o Lolla Brasil. Vi Skrillex comandar uma balada madrugada adentro numa tenda apertada em Bogotá e conduzir uma multidão ao melhor estilo rock de arena em São Paulo.

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Estereo Picnic. Foto: Priscila Brito

Fórmulas iguais são usadas em dosagens diferentes

Esse é o exemplo mais emblemático que tenho pra dar, mas não tenho nada de muito diferente a acrescentar quando amplio meu foco e olho pras duas dezenas de festivais que visitei nos últimos anos. Alguns são mais perfeitos que outros, alguns têm um conceito mais frágil ou mais datado que outros, alguns são mais bem organizados que outros, mas absolutamente todos são diferentes entre si.

Mesmo quando eles apostam em fórmulas (porque existem fórmulas e repetições, sim), o maior ou menor sucesso no emprego da fórmula, combinados com peculiaridades de estrutura, local e público, resultam em festivais diferentes.

O olhar sobre os festivais precisa mudar

Quem olha para os lineups atuais e chega à conclusão que eles estão todos iguais está julgando o livro pela capa, com o perdão da metáfora fácil. Em outras palavras, quem acha que os festivais estão ficando todos iguais parece não estar frequentando os festivais de fato. Vê o cartaz, mas não vai a campo para ver o conteúdo e entender que hoje, dentro da bolha de festivais, é preciso muito mais que um lineup para se destacar na multidão.

E é justamente a semelhança nas atrações que obriga os festivais a oferecerem propostas diferentes fora dos palcos a fim de que se tornem produtos únicos e estimulem o público a voltar no ano seguinte. Todos os meses eu pesquiso novos festivais para incluir no buscador do Festivalando (hoje com mais de 600) e sempre me surpreende a diversidade de formatos, conceitos e atividades extra-musicais que os festivais propõem para tentar fisgar os fãs.

Atrás da meia dúzia de grandes festivais “iguais” que o filtro generalista enxerga, há centenas de pequenos, grandes, novos e antigos festivais se esforçando para construir uma identidade apesar de ou por causa dos lineups idênticos.

Lineups iguais não geram obrigatoriamente festivais iguais. É o contrário. Por causa dos lineups iguais, os festivais são forçados a ser diferentes. Na dúvida, procure, vá conferir in loco.

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Priscila Brito

Sou jornalista e melômana, não sei se nessa ordem. Coleciono ingressos de shows desde 2001. Agora também coleciono pulseiras de festival e carimbos no passaporte. Além de uma das mães do Festivalando, sou colaboradora da Mixmag e do Brasil Post e autora do Porque eu gosto de música. Também ajudei Paul McCartney a falar uai em pleno Mineirão.

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