Dinheiro de festival, moedas alternativas e dor de cabeça

Gastar dinheiro é algo inevitável em festival. Mesmo nós com as táticas festivaleiras pé de chinelo style tivemos, em algum momento, que desembolsar uma graninha dentro dos territórios unificados por pulseirinhas e por afetos musicais. E, em alguns casos, unificados também por uma moeda de troca específica, criada para o festival, como foi no Brutal Assault e no Sziget Festival.

Como já contamos por aqui, passamos por vários países para festivalar. Portanto, tivemos que nos acostumar com a ideia de comprar e vender dinheiro e, consequentemente, perder dinheiro para sobrevivermos nos países dos festivais. Foram coroas da depressão na escandinávia e também na República Tcheca. Todo mundo usa coroa no nome da moeda, o que nos deixou, ao fim das contas, todas emboladas em meio às krone (Dinamarca e Noruega), krona (Suécia), koruna (Rep. Tcheca). Ficamos muito felizes quando tudo era regido pelo euro, como nos festivais da Alemanha, pois tudo ficou mais fácil. Mas aí teve a Suíça e os francos e a Hungria com os forint… mais confusão para a cabeça não matemática de duas jornalistas! Eu e Pri certamente vamos tentar aprimorar essas habilidades festivaleiras monetárias para as próximas temporadas. Conhecimento financeiro pareceu ser algo importante para escapar das ciladas festivaleiras com grana.

Pelo menos para um problema com relação à grana os festivais estavam bem preparados em 2014: quando a gente não converte o suficiente e precisa de mais grana dentro do festival, as máquinas para retirar dinheiro, ou ATM machines, estavam em todos eles para nos salvar. Era possível você tirar dinheiro na moeda local usando o seu cartão de crédito no Roskilde, Wacken, Sziget, Brutal Assault. Contudo, as taxas praticadas pelo cartão de crédito para a conversão não são tão boas assim, e você acaba perdendo uma graninha que não perderia se tivesse se programado e feito as contas indo a uma boa casa de câmbio.

Diante de toda a bagunça causada pelas conversões de dinheiro, a princípio me pareceu ser uma ótima ideia essa de o festival ter a sua própria moeda. Pensei rasteiramente: primeiro, não vou precisar ficar convertendo ou deixando meu cartão de crédito muito loki ou, acabaram-se os problemas com as diversas máquinas temperamentais que podem ou não aceitar meus cartões. [Tadinha, sabia de nada, inocente…].Também pensei: Que coisa linda né? Festival é algo tão próprio, um território de experiências que se destaca do resto que tem até a própria moeda, que demais! [Mais uma vez, sabe de nada, inocente!]

A primeira experiência com moeda de festival foi no Brutal Assault, da República Tcheca e o seu famoso žetóny. Os žetóny vinham nessas fichinhas coloridas que você pode ver na fotografia de capa do nosso post. Eram vendidos nas modalidades 1 žetóny, 1,5 žetóny e 3 žetóny. 1 žetóny equivalia a 1,25 euro( mais ou menos 4 reais). Para mim o problema já começou aí! Por que raios essa conta quebrada de 1.25 euros??

E, obviamente, para que você obtivesse essas fichinhas, você deveria ter euros em mãos para trocar por elas. Só que, a gente vai para o país preparada com a moeda dele, não é mesmo? Dessa forma a gente teve que fazer a conta, na verdade, entre euros, coroas tchecas e žetóny! A confusão estava pior do que eu imaginava. Ao fim de tudo, cheguei à difícil conclusão para uma jornalista de que 1 žetóny equivalia a 30 coroas tchecas (mais ou menos 4 reais).

Contudo, meus caros, os problemas estavam longe de terminar. Os preços em todas as barraquinhas, claro, eram dados em žetóny. Geralmente, 1 e 2 žetóny, 1,5 žetóny. O primeiro problema é que, às vezes você precisava de uma quantidade de coisas na barraquinha que ao final somaria 5 žetóny. Porém, a combinação de tirinhas na sua mão dava ou meio žetóny para mais ou meio žetóny para menos. Um saco! Pois você então teria que ir no container de vendas de žetóny, enfrentar uma super fila só por causa daquela tirinha de 0,5 que faltou!

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E por falar em fila, essa história de ter que converter seu dinheiro para o dinheiro do festival na verdade faz com que elas sejam duplicadas e é sim mais um problema: você tem que pegar fila uma vez para comprar žetóny, e pegar fila de novo na barraquinha aonde você quer comprar. Não é ridículo?

As equivalências estranhas entre preços também me deixaram meio encucada: como poderia um hamburger gigante valer o mesmo tanto de žetóny do que uma espiga de milho? Ou, como 500ml de uma cerveja deliciosa e maravilhosa valia menos žetónys do que 500ml de água? Não sei como essas coisas de economia alternativa são feitas, não sei aonde eles compensaram e também fiquei na dúvida se todas equivalências eram benéficas para o consumidor…

E o problema derradeiro é que, ao final do festival, inevitavelmente essas tirinhas sobram! E você se odeia e odeia a organização do Brutal Assault porque já é madrugada, você está longe do festival, com frio, com fome, e nenhum outro lugar no universo vai aceitar o estrupício do žetóny! Vou te dizer que, mesmo com toda a raiva, só me restou guardar essas fichinhas malditas como mais um souvenir de festival…

A segunda experiência com moeda alternativa foi no Sziget Festival, o evento cilada, erro, vergonha ~não volto nunca mais~ de Budapeste. Por lá as coisas pareciam estar em um nível um pouco mais informatizado. Eles adotaram um cartão de débito especial do festival chamado Paypass, da Mastercard ou Maestro, ou o Festipay Card. Eles chamam orgulhosamente de o sistema sem papel monetário mais eficiente dentro dos festivais…pelas filas enormes geradas no entorno dos containers de aquisição e recarga do Festipay Card, não sei se foi tão eficiente assim não.

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Apesar da minha birra com o Sziget, tenho que admitir que o Festipay Card ainda é melhor do que o žetóny, pois não há os problemas com tirinhas a mais ou a menos e existe a flexibildiade de o saldo do seu cartão ser usado em outros dois festivais, o Volt Festival e o MasterCard Balaton Sound, ambos na Hungria. Você poderia usar em todas as compras dentro do festival, e é um cartão que não precisa de senha até um certo limite por compra – assim, se seu grau alcoólico estivesse muito alto, você não teria problemas em comprar mais uma cerveja. Não haveria senha a ser lembrada. Era só encostar o cartão no terminal da barraquinha e pronto. Mas se você quisesse mais cervejas de uma só vez, a ponto de gastar mais de 5000 forints ( mais ou menos 52 reais), aí você precisaria de uma senha.

Para saber do saldo, registrar para prevenir problemas com perda ou roubo, era exigido de você contatos telefônicos com as operadoras do cartão, o que poderia ser uma pequena dor de cabeça. Além disso, você tinha que enfrentar filas absurdas nos pontos de recarga do cartão. E, mais uma vez, ou você tinha forints trocados em casa de câmbio numa boa taxa de conversão, ou então, teria que usar seu cartão de crédito e deixar a comedeira de dinheiro em taxas rolar solta.

Outra desvantagem é que, para ter esse cartão você necessariamente precisaria fazer uma carga de 2000 forints (mais ou menos 22 reais) e ele era a única forma de pagamento de qualquer coisa dentro do Sziget. Ou seja, se quisesse apenas comprar um suco, que se dane, você tinha que ter a porcaria do cartão!

E se sobrar grana no Festipay Card? Pelo menos, é um pouco mais justo do que os žetóny. Você poderia fazer a troca do saldo pela moeda húngara, em espécie. Mas, tem que ficar atento, pois só seria possível dentro do horário em que os pontos de recarga ficavam abertos até o final do festival.

No fundo, o que consigo entender dos festivais que possuem moeda própria é que isso gera vantagem basicamente para os organizadores, uma vez que eles detêm um controle financeiro das transações, antecipam os ganhos para depois repassar aos contratados responsáveis pelas vendas.

Não consegui enxergar muitas vantagens para mim e meu jeito de festivalar. Mas às vezes vocês podem me ajudar com suas experiências e pontos de vista diferentes com relação ao uso dessas moedas alternativas. Então, comenta aí!

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Gracielle Fonseca

Não faço nada na vida sem paixão. Tanto que, pra me formar em Jornalismo, tive que fazer com 2 colegas um TCC sobre metal, o Ruído das Minas: a origem do heavy metal em BH. Também decidi que faria o primeiro documentário sobre as Mulheres no Metal, o Women in Metal, e fiz. Foi por paixão também que larguei um emprego público, para me aventurar pelo mundo dos festivais com a Pri.

1 comment

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  1. Leandro Lima 11 dezembro, 2014 at 17:19 Responder

    não me parece naaada pratico na real. economia alternativa my ass ;p, é so um jeito de faturar mais grana pq quem esta la, festivalando, tem menos noção de quanto dinheiro realmente está gastando pra comprar as coisas

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